"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
"1.3.15. Os países que afirmam como orientação e objectivo a construção de sociedades socialistas – China, República Popular Democrática da Coreia, Cuba, Laos e Vietname – constituem, na sua grande diversidade de situações quanto ao grau de desenvolvimento económico e social e modelos sócio-políticos, um importante factor de contenção aos objectivos de domínio mundial do imperialismo. É hoje ainda mais claro que estes países são alvo de um conjunto de manobras de pressão económica e financeira, de desestabilização e ingerência, de ofensiva ideológica e de cerco geoestratégico que condicionam, a par com os efeitos da crise do capitalismo a que não estão imunes, o seu próprio desenvolvimento e opções de política económica e relações internacionais."
"Carlos Guimarães Pinto sai da liderança do Iniciativa Liberal para regressar à Universidade Nacional de Economia do Vietname, onde é leitor visitante, e para onde regressa logo dias depois do conselho nacional do partido que se realiza a 17 de Novembro [...]."
"Reposição de salários, pensões" e de apoios sociais vários, "reposição do horário de trabalho na Função Pública" e dos "feriados roubados", "reversão das privatizações", uma "solução governativa que não é a nossa", "este não é um Governo de esquerda" mas um Governo do PS apoiado pelo PCP, "não é quanto pior melhor mas quanto melhor melhor" e evitar que a direita regresse ao poder.
A auto-crítica, pública, o reconhecimento, público, sobre a participação do PCP em todo o processo que levou a que a direita radical chegasse ao poder e governasse com a Troika, o erro histórico que foi o PCP ao lado do PSD e do CDS na Assembleia da República no derrube do Governo minoritário do PS, o assumir as culpas, isso ficou por fazer, talvez daqui por mais sete ou oito congressos, quem sabe.
Anda este mundo e metade do outro em mui grande rebuliço porque o PCP no XX Congresso evocou e enalteceu Fidel Castro – O Grande Ditador, isto depois do PCP ao longo dos anos em sucessivos editoriais no Avante! mostrar grandes saudades pelo Muro de Berlim e pela URSS, depois do PCP numas teses estapafúrdias ao XVIII Congresso fazer a apologia da monarquia comunista da Coreia da Norte, depois do PCP ter reservado na Festa do Avante! um pavilhão para uma organização terrorista dedicada ao narcotráfico – as FARC, depois de Jerónimo de Sousa e o PCP se terem deslocado a Angola para visitar o MPLA – partido irmão e o democrata José Eduardo dos Santos, que os dólares e o petróleo fazem conversões milagrosas na direita radical, depois do PCP ter virado chinês após a morte de Álvaro Cunhal, chinês da China, essa grande democracia económica de grandes investidores e nacionalizadores de empresas públicas portuguesas para o Estado chinês.
Ora vamos lá ao que interessa, porque é que o PCP, esse partido anti-democrata e totalitarista, depois de todas as tropelias e maldades que antecederam a evocação de o Grande Ditador Fidel Castro no Congresso continua a subir nas sondagens, continua a subir nos votos expressos em urna e em número de deputados em eleições para a Assembleia da República, continua a ser uma força política com um peso enorme ao nível das autarquias – Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, continua a ter uma invejável implantação nas fábricas, nas empresas, nos sindicatos, continua a ter uma presença não despicienda no movimento associativo e colectividades?
Porque as pessoas são burras e incultas não serve de resposta porque essa já foi usada para explicar o fenómeno Trump nos States, e as pessoas, comentadeiros, avençados nas televisões, rádios e jornais, que apontam todos os defeitos ao PCP estalinista e anti-democrático, excluem-se sempre das conclusões e das explicações para o fenómeno PCP, êxito no terreno e no dia-a-dia das pessoas.
Quantas vezes já o viram, quais os líderes de partidos políticos se dão ao luxo de molhar o dedo na boca para virar a página do discurso, em directo para as televisões na era do "tudo estudado ao milímetro"?
Todos os comentadores e analistas a borrifar-se para o diagnóstico mas unânimes na análise, ou a fazer coro com Francisco Assis, como quiserem, de que este PS virado à esquerda não é o PS, que não há acordos políticos fora do centrão, que mais cedo ou mais tarde o PS vai pagar caro por este reposicionamento ideológico e que mais cedo do que tarde vai voltar à casa de partida, quiçá com um Assis ou o Assis himself.
Mas isso foi só ouvir uma parte do discurso de António Costa no encerramento do congresso do PS, a parte que lhes interessou ouvir, por coincidência a parte que interessou também ouvir ao PSD e ao CDS que reagiram, amuados e com maus modos, logo logo logo assim que se cantou o hino, e pela boca de duas das personagens que personificam o que de mais repugnante e abjecto o centrão do arquinho e balão da governação de que António Costa, pelo menos em palavras, foge.
A parte que os comentadores, analistas, e Francisco Assis não ouviram, ou fingiram não ouvir, foi a parte dos extremismos que o centrão, subjugado à agenda liberal, está a alimentar por toda a Europa e que, mais cedo do que tarde, vai chegar também a Portugal e, entre ser secretário-geral de um PASOK ou absorver o eleitorado de um Podemos, António Costa fez escolhas e optou.
Eu, se fosse de direita, também ficava muuuuuito chateado por ver a esquerda fugir do "abraço do urso". Olá, se ficava.
António Costa fez um bom discurso no encerramento do congresso do Partido Socialista. Separou as águas, bateu com a porta na cara da direita, escancarou a porta à esquerda, conseguiu irritar o PSD, na figura de Marco António Costa, que personifica o que de mais abjecto e repugante há na política, não fosse existir Nuno Melo, e conseguiu irritar o CDS, na figura de Nuno Melo, que personifica o que de mais abjecto e repugnante há na política, não fosse existir Marco António Costa. Para começo não está mal.