"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
O nível intelectual, e o respeito pela figura de deputado e pela instituição Assembleia da República, de um deputado eleito que numa comissão parlamentar de inquérito se entretêm a filmar o inquirido enquanto faz gifs para o Twitter com piadolas pontuadas por smiles ":-)".
Se um desses quaisquer tropa fandanga responsáveis por decidir empréstimos de 3 500€ num balcão qualquer da Caixa Geral de Depósitos alegar que não se lembra do empréstimo que decidiu e que correu mal a gente até acredita, devem haver milhares de pedidos dessa ordem todos os dias, vai-se lá lembrar daquele especificamente?
Se o Governador do Banco de Portugal alega não se lembrar da autorização dada pelo banco central que governa para a entrada de Joe Berardo no capital do BCP, com um empréstimo contraído no banco do estado no valor de 350 milhões de €, mesmo que posteriormente corrija para não ter estado na reunião que o decidiu, está a mentir com quantos dentes tem na boca porque não é todos os dias em que um valor daquela ordem aparece em cima da mesa das reuniões.
E se Vítor Constâncio mentiu é porque tem/ tinha a clara noção de que o que estava a ser feito não era correcto. Tão simples quanto isto.
Se o militante do Partido Socialista Vítor Constâncio fosse inteligente percebia que está a ser usado como granada de fumo para esconder Maria Luís Albuquerque, Passos Coelho, Paulo Portas e cinco anos de maioria PSD/ CDS, enquanto as tropas adversárias, numa manobra de diversão e de intoxicação da opinião pública, atacam o Governo do PS suportado pela esquerda no Parlamento. Mas isso era se o militante do Partido Socialista Vítor Constâncio fosse inteligente.
O PSD era/ é uma associação de bandidos e Durão Barroso, o seu presidente, o refém que se viu obrigado a pactuar com agentes menos escrupulosos, a bem da Nação e imbuído do espírito salvífico para “o país de tanga”?
O PSD era/ é uma associação de bandidos e Durão Barroso, o seu presidente, abdicou dos princípios e pactuou com agentes menos escrupulosos de forma a tratar da vidinha?
Durão Barroso sofria/ sofre do Síndrome de Estocolmo?
Durão Barroso, tal como o chefe, acredita piamente na palavra de Manuel Joaquim Dias Loureiro?
Durão Barroso até é um gajo porreiro [pá!] e, lá no fundo, bem no fundo, tencionou denunciar os camaradas de partido a Vítor Constâncio mas a camaradagem e a lealdade partidária e a lealdade ao chefe e a vidinha para tratar impediram-no de o fazer?
Durão Barroso não tem Manuel Joaquim Dias Loureiro em grande conta mas como está em dívida para com o chefe e como o chefe está em dívida para com a sociedade que detinha o BPN faz agora o pino por 5 tostões como prova de gratidão?
Durão Barroso recalcou no subconsciente não ter denunciado os camaradas de partido a Vítor Constâncio e, desde então, vive dilacerado por uma luta interior entre o bem e o mal e como defesa criou memórias daquilo que nunca fez?
Manuel Joaquim Dias Loureiro é uma vítima inocente das tramóias de outro camarada de partido, Oliveira e Costa?
Durão Barroso mente com quantos dentes tem na boca para desviar as atenções do partido que pariu uma associação de bandidos sob a designação de um banco?
Durão Barroso mente com quantos dentes tem na boca de forma a, em plena campanha eleitoral, criar um fait-divers e desviar as atenções do debate político e do vazio de ideias da coligação PSD/ CDS?
Para salvar o partido que pariu uma associação de bandidos sob a designação de banco é necessário haver um culpado e o culpado já ficou decidido que é Vítor Constâncio?
Sendo Vítor Constâncio o culpado é ainda possível recuperar, ou pelo menos segurar, Oliveira e Costa e com isso evitar que caia na tentação de meter a boca no trombone e revelar os muitos segredos que guarda?
Durão Barroso, Manuel Joaquim Dias Loureiro, Cavaco Silva, vão continuar a andar por aí a avisar que já tinham avisado?
"Quando eu era primeiro-ministro chamei três vezes Vítor Constâncio a São Bento para saber se aquilo que se dizia do BPN era verdade". E podia ter citado logo ali e de cor o Novo Testamento, Mateus 26:34, e em verdade vos digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarão.
Guterres porque é beato e intrinsecamente bondoso e acredita no amor entre os homens e dá a outra face, Durão que já foi Durão Barroso e que agora é José Manuel, porque daqui por uns anos "vamos" precisar de um "bom" candidato para Presidente da República, Sócrates porque só fez coisas boas e porque é intocável e porque é "O" José Sócrates e porque também podemos vir a precisar de um "bom" candidato presidencial, e Vítor Constâncio porque é um supra-sumo da esquerda bancária e usa gravata e acredita no código de honra dos homens que usam gravata e porque um banqueiro que usa gravata tem de estar acima de toda e qualquer suspeita e onde é que já se viu desconfianças entre homens de bem? Ninguém se "governou" e ninguém desconfiou da "governação" de ninguém.
Já paravam de insultar a inteligência dos portugueses, não?
Ouvi há bocado no telejornal da RTP1 o governador do Banco de Portugal dizer que "Os custos salariais devem acompanhar a produtividade". Registe-se e arquive-se para memória futura.
Duas conclusões para tirar desta, era para escrever trapalhada, mas acho que pouca-vergonha é mais apropriado:
A primeira é a que, a bem da transparência, da qualidade e credibilidade da Democracia, urge reformar as Comissões Parlamentares de Inquérito, dotá-las de mais poderes e acabar de uma vez por todas com a ditadura das maiorias parlamentares nas Comissões.
(O modelo norte-americano seria um bom ponto de partida)
A segunda é que, alguém com o estatuto de Governador do Banco de Portugal deveria ter suficiente cultura política e democrática que o inibisse de, pelo menos em público e para os media, proferir declarações a desconsiderar um órgão soberano, eleito pelo povo em eleições livres e democráticas, por mais que as decisões e/ ou conclusões tomadas por esse órgão lhe desagradem.
Partindo do princípio que todo o cidadão é inocente até prova em contrário, um dos méritos da Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BPN foi o identificar um dos culpados. Por confissão e sem o recurso à tortura, o Governador do Banco de Portugal admitiu, perante os deputados, ter sido um bocado ingénuo por nunca ter pensado que Oliveira e Costa pudesse agir como agiu. Não sei foi por Oliveira e Costa usar fatos de bom corte e gravatas italianas, se por ser militante desse grande partido que dá pelo nome de Bloco Central, se por ser banqueiro, ou se por todas as três, mas o que é certo é que o patrão do BPN teve tratamento de excepção em relação aos outros cidadãos, com os resultados que todos conhecemos. E isto tem um nome: negligência. Numa empresa privada era motivo mais que suficiente para despedimento com justa causa e sem direito a indemnização.