"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Diz Marques Mendes que defende um consenso entre o Governo e a UGT no negócio do pacote laboral, e isto é algo absolutamente fantástico. Um sindicato dos trabalhadores colaboradores do Parlamento, que se queixou do assédio dos deputados do partido da taberna, foi desvalorizado por ser um sindicato minoritário, já a UGT, central ultra minoritária, representativa dos poucos trabalhadores dos bancos e seguros, é óptima para negociar um pacote laboral que se aplica a todo o universo laboral, do Minho ao Algarve, ilhas adjacentes incluídas.
Marques Mendes, caso seja eleito, vai ser, não o Presidente de todos os portugueses mas o Presidente dos portugueses filiados na UGT.
Vai a UGT roer a corda, como manda a tradição, assinar por baixo o que os patrões e o governo lhe dizem para assinar, cumprir o destino para o qual foi criada, ser o braço político do patronato dentro dos sindicatos?
A UGT vai à luta, greve geral conjunta com a CGTP, contrariada, porque "há sempre impactos nos rendimentos dos trabalhadores". A UGT que integra os trabalhadores social-democratas, "estrutura autónoma para o mundo laboral e o movimento sindical, e que constitui uma organização especial enquadrada programaticamente no PSD com militância específica e autonomia nas suas actividades". A autonomia é tanta que acabam a fazer greve mandados pelo PCP e pelo PS. Veio lesto o sobrinho de Álvaro Amaro, que é o ministro deste governo a quem cabe dizer coisas, que os portugueses "vão ficar apeados na estação de comboio, e vão ficar apeados à porta de serviços públicos", fingindo não perceber que ninguém vai ficar "apeado" coisíssima nenhuma, pela simples razão que estão de greve e quem está de greve não fica "apeado", e no estado lastimoso em que o "Luís a trabalhar" tem os serviços públicos mais apeadeiro menos apeadeiro para eles é 'pinares'. E disse mais o sobrinho ministro, que o governo está de portas abertas, e não é apenas de portas e de braços abertos: é numa atitude de procura e aproximação. Uma aproximação do caralho, segundo a sua colega, alegada ministra do Trabalho, que há coisa de um mês afiançou que com ou sem acordo a lei do trabalho deverá ser enviada à Assembleia da República. Continuam a gozar com os portugueses...
Alegar que alguém com salários entre o miserável e o remediado, mais as contas e a renda da casa para pagar, faz greve, que alguém se dá ao luxo de perder um dia de trabalho, sem razão para isso e só porque o PCP ou o PS lhes mandaram parar, é só passar [mais] um atestado de estupidez aos portugueses, depois do país estar melhor na saúde e na educação "do que há um ano atrás" [como se houvesse há um ano à frente ou há um ano ao lado].
"Vai fazer greve geral? Não. Não?! Não, se o problema deste país são os ciganos e os imigrantes porque é que vão perder tempo e desperdiçar energias com pacotes laborais?"
Para quem não percebe o papel que cabe ao partido da taberna na conjuntura política.
Em entrevista à televisão do militante n.º 1, a Clara de Sousa, o pé de microfone que durante anos o deixou papaguear sem contraditório que não fosse contradizer-se na semana a seguir ou dar o que disse por o que não disse, Luís Marques Mendes, o pior que o sistema político democrático pariu, candidato nas presidenciais de 2026, quer o Governo a negociar o 'pacote laboral', o maior ataque aos trabalhadores desde o 25 de Abril de 1974, com a UGT, uma central "democrática" e "responsável" e outras coisa terminadas em ável, segundo o ilustre. Em linguagem das fábricas, sítio onde a UGT não mete os chispes, uma merda inventada por Mário Soares e Sá Carneiro, com a desculpa da 'unicidade sindical', para assinar por baixo a agenda dos patrões. Since 1978, em prol da rigidez patronal. Votem nesta coisa e depois queixem-se.
António Costa, e aquele que só é ministro das Finanças por ter perdido a câmara de Lisboa pelo voto popular, invocarem no Parlamento, e em todas as ocasiões com câmara de televisão por perto que lhes pareçam propicias, o acordo alcançado na câmara corporativa concertação social com a UGT para legitimar o Orçamento do Estado, pensam que atiram areia para os olhos do pagode mas acabam a fazer figura de impostores, por terem a perfeita noção de que o acordo não vale absolutamente nada, por a UGT ter zero implantação no terreno, no mundo laboral, como se o invocado acordo livrasse o país da contestação e da onda de greves que aí vem, como se tivesse comprado a paz social na administração pública.
A Concertação Social é a maquilhagem da Câmara Corporativa pelas mãos de um partido, alegadamente socialista, para esvaziar o protesto e a contestação nas empresas. A câmara alta não eleita do Parlamento, e sem enquadramento constitucional. Nos idos do Estado Novo as direcções dos sindicatos eram nomeadas pelo poder político e a Câmara Corporativa funcionava, oleada e nos eixos. Com o advento da democracia e a impossibilidade de se nomearem direcções sindicais inventou-se uma central sindical - UGT, hoje pouco mais que os minúsculos sindicatos dos bancários, sem representatividade absolutamente nenhuma no mundo do trabalho, para assinar por baixo o que os sindicatos dos patrões decidem, e aí está o fascismo de volta, 10 anos depois de 74, data ta criação da Concertação Social.
O fascismo não é o Ventas do Chaga a dizer patetices nas televisões e no Parlamento, com os câmaras de eco eleitos a grunhirem "apoiado" e "muito bem" ou a gesticularem abundantemente para as outras bancadas parlamentares, o fascismo, como conceito, está mais presente nas nossas vidas do que a maioria possa pensar ou sequer admitir.
Na imagem Torres Couto e Cavaco Silva brindam com vinho do Porto ao acordo da Concertação Social. Começou aqui o "sindicalismo responsável", a bem do crescimento económico, da riqueza do país e da qualidade de vida dos trabalhadores, antes de terem inventado os colaboradores. Vejam onde chegámos e onde estamos.
O senhor Saraiva da CIP acha que está na altura de voltarmos todos ao trabalho, a "reabertura da economia". O que senhor Saraiva da CIP não percebe é que sem pessoas não há economia. O senhor Silva da UGT também acha que está na altura de voltarmos todos ao trabalho, a "reabertura da economia". Ao contrário do senhor Saraiva da CIP, o senhor Silva da UGT não percebe nada de nada, que para perceber está lá o senhor Saraiva da CIP. E já lá vão 42 anos em que os senhores Silvas da UGT acham o que os senhores Saraivas da CIP acham o que eles devem achar. Foi para isso que os inventaram.
Ver o senhor Silva da UGT, que assinou de cruz concertações sociais, sempre em prol da rigidez patronal, a mando do senhor Saraiva da CIP com o beneplácito e o amém da direita radical PSD/ CDS, invocar a "esquerda" e um "Governo de esquerda" e "um Governo PS" para surfar a onda reivindicativa dos professores.
Como todos os Governos anteriores a este, António Costa descartou-se e passou o ónus do aumento do Salário Mínimo Nacional para a Concertação Social, uma espécie de "câmara alta" do Parlamento, não eleita, inventada por Mário Soares nos 80's com o intuito de esvaziar o poder negocial aos sindicatos, ler "CGTP", depois de ter inventado a meias com Sá Carneiro um sindicato, a UGT, para assinar de cruz tudo o que convinha aos patrões. Os patrões que fazem o barulho da praxe só para não se dizer que aceitam calados e assinam a contragosto os aumentos do salário mínimo negociados como grandes vitórias da UGT e sempre em troca de uma retirada qualquer de um direito ou de uma garantia, de uma mexida no Código do Trabalho em prol da rigidez patronal, uma facada qualquer na contratação colectiva, em nome dos amanhãs que cantam no crescimento económico e da riqueza nacional. Desde então tem sido sempre a descer para o lado do trabalho na exacta proporção em que a riqueza aumenta para o lado do capital. Agora, de repente e sem que nada o fizesse prever, os patrões vêm de esmola esticada propor para 2019 um aumento do Salário Mínimo Nacional acima do previsto e do proposto pelo Governo, na garantia da manutenção das "alterações que desejamos produzir ao nível da melhoria dos factores de produção", e só estas aspas são todo um programa. E se o PS, como António Costa disse há bem pouco tempo, "está onde sempre esteve", a coisa vai ser decidida em sede de Concertação Social com mais uma grande vitória negocial da UGT e com os resultados na linha do que têm sido desde que Torres Couto apareceu, a preto-e-branco na televisão do Estado, de cálice de vinho do Porto erguido a brindar com Cavaco Silva.
Isto nem de propósito na semana em que Banksi pintou mais um mural em França [na imagem].
Há que tirar o chapéu a António Costa quando saca da cartola o argumento de que "é mais importante contratar mais funcionários públicos do que aumentar os salários". O Bloco de Esquerda, com reduzida implantação na Função Pública e percebendo a armadilha, embatucou e fingiu que não tinha ouvido nada. O PCP, Jerónimo de Sousa, que ainda a semana passada disse no Parlamento que "há já muitos anos que por aqui ando", engoliu o isco e quando se deu conta da esparrela desviou a conversa para "a dívida pública impagável e o dinheiro que não há para nada mas há para os bancos", argumento justo e bonito, de resto, mas que não tem nada a ver para o caso porque, como disse e bem, a opção é política e o dinheiro vai ser sempre gasto, seja em aumentos seja em contratações, deixando o secretário-geral dos comunistas de fora os que já estão de fora, os desempregados, e encostando-se onde António Costa o queria encostado, ao partido da Função Pública, com toda a carga que isso tem no resto do país, nos outros, nos que não trabalham para o Estado.
Vem então os 'pontas-de-lança' dos partidos nos sindicatos, um para fazer prova de vida e outro para interpretar o papel que lhe foi destinado representar, invocar "os baixos salários" e "o congelamento de carreiras e de aumentos salariais". Mais dois encostados nas cordas ao lado de Jerónimo de Sousa, com as progressões nas carreiras e aumentos salariais no sector privado que não há só porque sim e porque a velhice é um posto como na tropa macaca, e com a falência do Estado, a manter o emprego a todos os seus funcionários, paga com a falência, o desemprego, a emigração, a miséria de milhares no sector privado e com o congelamento salarial e precariedade para os que ficaram.
O senhor Silva da UGT acha que o Estado deve dar incentivos às empresas, tipo uma taxa zero de IRC, como incentivo ao investimento e consequente criação de emprego de modo a fixar pessoas no interior. Os incentivos, que não implicavam perda de receita fiscal, e que foram precisamente retirados pelo Estado: escolas, postos de saúde, hospitais, tribunais, repartições públicas encerradas, que por sua vez levaram ao encerramento de bancos, estações dos correios, companhias de seguros, agentes notariais, o que faze com que só os velhos, que resistiram à atracção pelo litoral ou pela emigração, fiquem para morrer ao lado das árvores queimadas.
Ver o senhor Silva da UGT à frente de uma embaixada sindical, em bicos dos pés na porta da Autoeuropa um dia depois de conseguido o pré-acordo entre a administração e a Comissão de Trabalhadores, afirmar que tal se deveu por ter mexido uns cordelinhos através do congénere na Alemanha e não-sei-quem em Bruxelas, que propiciou o desbloquear do impasse em Portugal, já que o acordo alcançado em Wolfsburg "espoletou e facilitou, por réplica natural", o acordo dentro de portas e, pasme-se, "a possibilidade de acordo para todas as outras unidades na Europa", sem contudo esclarecer, nem nenhum jornalista de serviço se ter le,mbrado de lhe perguntar, se o IGMetal assinou pressionado pelo "sentido de Estado" e pela "responsabilidade" da central portuguesa, se a Comissão de Trabalhadores portuguesa assinou pressionada pelo sindicato alemão, se a administração em Palmela assinou com medo de mais greves convocadas pelo IGMetal na Alemanha.