"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Quando andava tudo à chapada e a berrar por cima uns dos outros a democracia portuguesa nunca mais crescia, já levávamos quase meio século dela e não saímos da fase infantil. Agora que os debates são civilizados, com urbanidade e onde ninguém se interrompe temos debates enfadonhos e o sistema político está a precisar de um abanão, um choque de adrenalina.
Por uma daquelas estranhas coincidências da vida o início do Verão coincidiu exactamente com o início da greve dos motoristas de transporte de matérias perigosas e, os incêndios que, em tempo fresco, estavam a todas as horas certas nos canais de notícias no cabo e a fazerem meia hora de abertura de telejornal nos canais em canal aberto, com repórteres de imagem em directo dos sítios mais recônditos do país onde nem o carro do Google Maps vai, pura e simplesmente desapareceram, Portugal deixou de estar a arder pela primeira vez nos últimos 20 anos, no mínimo.
Ou as televisões redireccionaram o histerismo mediático e com isso minimizaram o efeito copycat na floresta na exacta proporção em que o combustível desaparecia nas bombas de norte a sul do país?
Dia 1, antes da greve: A televisão do militante n.º 1, SIC Notícias, faz directo da Quinta do Lago com as dificuldades de abastecimento de combustível para os turistas, os VIP, os que vão de jacto particular, ou de helicóptero desde a outra Quinta, a da Marinha em Cascais. Desconhece-se se o estagiário deslocado para o local da crise fez o passadiço das dunas até ao restaurante do Gigi para dar conta das dificuldades de abastecimento de víveres para tão ilustre clientela e mui nobres estômagos.
Dia 2, antes da greve: A televisão do militante n.º 1, SIC Notícias, faz directo da Marina de Vilamoura com as dificuldades de abastecimento que os iates, dos VIP e milionários com skippers pagos à tarefa e sem factura passada, vão ter para abastecer e voltar às terras de origem, ainda se sujeitam a ter de lavar a rouba a bordo e a estender as cuecas num cabo esticado entre o estai e o brandal, o que é contra as boas regras da civilidade. Os pescadores de Portimão que se fodam, e com efe grande, que são danos colaterais nestas prioridades de abastecimento televisivo.
Os mesmos comentadeiros, que são aqueles tipos que dantes estavam na taberna a discutir a linha do mister antes e o penálti mais o fora-de-jogo depois e que agora passaram para as televisões e ainda recebem do taberneiro para beber o vinho que pagavam e que os mete a delirar um serão inteiro que ao menos as tabernas fechavam às 10 da noite, que asseguravam o suicídio do Benfica com a irresponsável convocatória de Lage para a Turquia, deu tudo contra o Nacional no nacional e despreza os otomanos na Europa, WTF??? a prioridade é ser campeão, já se mentalizou que nas uéfas não tem hipóteses nem tem plantel, e como é que os putos se vão comportar perante o inferno na terra que é 50 mil turcos que conseguem estar um jogo inteiro a fazer barulho e que nem no intervalo se calam [se calhar a falta de sexo explica isto], eram os mesmos comentadeiros que terminado o jogo batiam palmas e entoavam hosanas à ousadia do treinador do Benfica, ao conhecimento do plantel e aos valores seguros que o Benfica tem no Seixal, um treinador que aposta no produto nacional e o caralho, CLAP! CLAP! CLAP!, uns miúdos com grande personalidade e carácter e espírito competitivo que não se deixaram intimidar pelos urros vindos das bancadas, CLAP! CLAP! CLAP! outra vez, alguns com alguma, pouca mas alguma, noção do ridículo e com a memória das merdas que tinham dito 90 minutos antes ainda ensaiaram um "não foi o Benfica que jogou bem, foi a Galatacoise que esteve uns furos abaixo do que nos habituou", "lembram-se do Galatacoise dos anos 90, lembram-se?", exactamente, ir buscar o há 20 anos... também nos nos lembramos do Benfica de Eriksson e se calhar alguns até se lembram do Benfica do Bella Gutman para comparar com o Galatacoise.
"Vamos ouvir aqui este adepto do FC Porto" diz a menina da SIC Notícias de microfone esticado na porta do Estádio da Pedreira antes do Benfica vs. Porto para a Taça da Liga". "Não sou do FC Porto...". "Não é do FC Porto?!". "Não, sou neutral". E lá vai ela de microfone esticado à cata dos mestres da táctica que fazem linhas completas com suplentes e tudo, e até se deitam a adivinhar quem vai marcar os golos, enquanto os outros passam por trás em passo acelerado e vão largando "Benfica é merda!" e "filhos da puta, até os comemos", "Porto, caralhooo!", ignorando olimpicamente o maná que tinha ali entre mãos, caído do nada, um puto com não mais de 16 anos, ainda sem barba na cara, que se tinha dado ao trabalho de sair de casa numa noite fria de Janeiro para ver um jogo de futebol só pelo prazer do jogo, sem torcer por nenhum clube em especial.
Não, as televisões não têm culpa nenhuma no clima de violência que se vive nas bancadas dos estádios, não senhor.
Dois dias depois de Ricardo Costa, "Jornalista @sic.sapo.pt e @Expresso.sapo.pt Retweets are not endorsements; views are my own" e blah-blah-blah [bio na conta Twitter], ter chamado a atenção para um texto de Mônica Bergamo da Folha de S. Paulo sobre o tratamento abaixo de cão dos jornalistas na tomada de posse de Jair Boldonaro e, tão importante como o texto, "é lerem os comentários que se seguem", [as caixas de comentários e as redes sociais e o anonimato e a cloaca e o coise, estão a ver?], a TVI convida para o programa da manhã de Luís Goucha o neo-nazi Mário Machado, um criminoso condenado por roubo, coacção agravada, detenção de arma ilegal, danos e ofensa à integridade física qualificada, difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República, homicídio de Alcino Monteiro, o preso em Portugal que mais tempo passou numa prisão de alta segurança, apresentado como o "Nacionalista desde da adolescência, esteve preso por dois anos e meio por escrever um texto na internet a apelar à mobilização dos nacionalistas".
Voltando ao início do post, as caixas de comentários e as redes sociais e o anonimato e a cloaca e o coise e blah-blah-blah, estão a ver [o papel do jornalismo]?
Uma manif de palermas inventada pelas televisões, com directos intermináveis, dois jornalistas por manifestante, drones com câmaras de filmar, cavalgada pela direita populista do CDS antes que os fascistas do PNR, ou outros dissidentes do sentido de Estado PSD/ CDS, que perderam definitivamente a vergonha, se cheguem à frente e ocupem o lugar, é "o povo na rua farto do socialismo", segundo a direita radical de plantão nas redes.
Uma avenida cheia de gente, desde o Marquês ao Rossio, enquadrados pela CGTP, com um caderno reivindicativo definido e propostas concretas, merece meio minuto no telejornal a seguir ao intervalo e é só funcionários públicos, manhosos, sem nada que fazer, dispensados pelas câmaras municipais e juntas de freguesia, que não perdem o dia de trabalho e só atrapalham a vida aqueles que querem fazer o país andar para a frente.
A comunicação social anda a brincar com coisas sérias, um dia mais tarde também vai levar por tabela.
A um ano das eleições legislativas uma "centro-campista", "distribuidora de jogo da direita radical na comunicação social, ex deputada do CDS de Paulo Portas, regressa aos ecrãs com um "espaço de análise e comentário" no telejornal com maior audiência na televisão do militante n.º 1. Ele há com cada coincidência...
A SIC Notícias, depois de 48 - quarenta e oito - 48 horas consecutivas a falar do Benfica e do e-toupeira, abre o Jornal das 9 com "a notícia que está a marcar o dia". A descia de divisão do Moreirense por corrupção? Não, o assassinato da professora do Montijo.
E não só assistem todas as noites aos programas de insulto futeboleiro nas televisões como ainda ligam para chamadas de valor acrescentado a responder a merdas tipo "Rui Santos Pergunta" que só existem na cabeça do imbecil que as coloca à votação.
Acabaram com o Serviço Nacional de Saúde sem avisar ninguém o que obrigou Cristiano Ró-náldo [com dois acentos, como se diz na televisão] a pagar do seu próprio bolso os "cuidados médicos a centenas de feridos dos incêndios".
A televisão do militante n.º 1, SIC e SIC Notícias, levou um dia e meio a falar numa manif com "a Praça do Comércio quase cheia", como se fossemos todos cegos.
Diz que o problema são as "redes sociais" [o que quer que isso signifique], sem escrutínio e sem o selo de garantia do jornalismo, para desviar para canto que o problema é escrutínio feito ao jornalismo pelas "redes sociais" que incomoda. E muito.
As televisões do militante n.º 1, SIC generalista e SIC Notícias, que dão mais tempo de antena a Pedro Passos Coelho que a António Costa e aos ministros e secretários de Estado do Governo da 'Geringonça' todos juntos, para se justificar começa sempre os telejornais com a "notícia" "ouviram-se críticas de Passos Coelho", seguido da imagem da alma penada, de pin na lapela, a desfilar um chorrilho de invenções de ocasião enquadradas nalgum quadro real, geralmente de desgraça e infelicidade alheia, da qual retira um perverso prazer em surfar e capitalizar politicamente, sem que oiça o desmentido ou o respectivo contraditório. E vai ser assim até ao dia das eleições autárquicas, pelo menos.