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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Do revisionismo histórico

por josé simões, em 12.07.19

 

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[Por causa de Passos Coelho] "não tivemos de nos sujeitar às terríveis metas de austeridade aceites pelo PS em 2011", o historiador revisionista da direita radical, Rui Ramos.

 

[Imagem]

 

 

 

 

O maior revisionista e limpador de imagens do rectângulo

por josé simões, em 19.03.19

 

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Nem terrorismo de extrema-direita nem terrorismo fundamentalista cristão. Nem terrorismo de Estado, amigo do liberalismo e do investimento, que o obrigava a ter de ir até à América Latina nos 70s do século XX, uma chatice. Apenas "terrorismo racista", "terrorismo islamista", "terrorismo da extrema-esquerda". Senhoras e senhores, o maior revisionista e limpador de imagens do rectângulo: Rui 'revisionista' Ramos.

 

[Anders Breivik na imagem]

 

 

 

 

As falinhas mansas dos novos fascistas

por josé simões, em 20.07.18

 

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A fixação doentia em Donald Trump impede-nos de ver o que se está a passar. [...] Trump tem as suas excentricidades.

 

[Imagem de autor desconhecido]

 

 

 

 

||| “Porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?” [*]

por josé simões, em 05.05.15

 

 

 

«Passos conta que Portas se demitiu por sms na crise de 2013»


«[...] os centristas parecem não querer estragar o ambiente da coligação, formalizada há dez dias»


"Eu só escreverei as minhas memórias após março de 2016!"


«Sociais-democratas vão levar esta quarta-feira à comissão de Orçamento e Finanças uma proposta para que o documento dos economistas do PS possa ser avaliado pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental»


«Preocupado com a imagem de Portugal» Rui Machete comenta a greve na TAP no... Brasil.


[*] Vamos reformular a pergunta?

 

 

 

 

|| O resto é conversa para vender Expressos e entreter blogues com falta de assunto

por josé simões, em 04.09.12

 

 

 

O busílis da questão nesta never ending story, que começou muuuuuito antes de Manuel Loff e que vai continuar muuuuuito depois de Rui Ramos, é a atitude dos escudeiros, novos e velhos, do salazarismo, do Estado Novo e do fascismo, em particular, e de todos os tiranos da nossa história, no geral, em desculpabilizar a supressão das liberdades fundamentais, a repressão, a opressão, a perseguição política e a tortura, reescrever a História de modo a que o povo acredite que não foi dor a dor que realmente sentiu, enquanto, simultaneamente, agitam o fantasma de um regime político que nunca existiu, a ditadura comunista que oprimiu Portugal no pós revolução de 74.

¡No Pasarán! 

 

[Imagem]

 

 

 

 

 

 

|| Regionalização, autonomia e o “povo” das não sei quantas

por josé simões, em 26.06.10

 

 

 

«Nas últimas duas décadas, o país seguiu por caminhos divergentes. Em 2004, “Lisboa” (Lisboa e a Península de Setúbal) exibia um PIB per capita acima da média europeia (105, 8%); o Norte (os distritos acima do Douro) só chegava a metade (58, 8%). O Norte é hoje equivalente ao Sul italiano ou ao Leste alemão»

 

Muito bonito o raciocínio do historiador Rui Ramos no Expresso (sem link), não fora a manipulação, por via da omissão, dos factos uma “pequenina” falha na interpretação das aspirações autonómicas do “povo” do Norte, o que quer que isso signifique: Quer o Norte de Itália, quer a Catalunha, quer a Flandres quer mesmo a antiga Checoslováquia, com a separação entre a República Checa e a Eslováquia, querem/quiseram mais autonomia, e até a independência, pelo facto de serem as regiões mais ricas e desenvolvidas dos respectivos países. Ora se o “Norte” está a metade da média europeia, qual é o factor “invisível” nesta reivindicação regionaleira a cavalo do futebol? O leitor que tire as suas conclusões.

 

Nos anos 80, do encerramento de fábricas, do desemprego, da fome na Península de Setúbal, quando povo saiu para a rua com bandeiras negras numa tentativa de chamar a atenção para o fosso crescente entre os cada vez mais ricos e os cada vez mais pobres, no “Norte”, no Vale do Ave, o “povo do Norte” que sofria o mesmo flagelo na carne, entrevistado na rua dizia, com um encolher de ombros na abertura dos telejornais ,que o patrão - que tinha 10 Ferraris na garagem mas não pagava os salários ia fazer uma ano -, era um coitadinho vitima da crise e que não podia fazer nada e que o Estado isto e que o Governo aquilo. Povo do Norte. Povo do quê?

 

(Na imagem do filme Who Are You, Polly Maggoo, William Klein, 1966)

 

 

 

|| The Curious Case of Benjamin Button

por josé simões, em 12.06.09

 

A Direita jurássica velha e de má memória, personificada por Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas, para se afirmar como alternativa através de uma nova Aliança Democrática, precisa  «captar os "modernizadores" que estão no PS».

 

Confusos?

 

La dolce vita ou a “elite” cor-de-rosa no mundo a preto-e-branco

por josé simões, em 13.02.09

 

 

O patuá de que vivemos acima das nossas posses e de «que não podemos continuar a viver de uma riqueza que não existe», invariavelmente é debitado por aqueles que ganham muitos dígitos acima do salário médio, chegam depois das 10 quando o mundo inteiro já vai em velocidade de ponta; deslocam-se em topo de gama quando o mundo inteiro anda de transporte público, e passam férias no fim do mundo ou até debaixo de água quando o mundo inteiro vai ao fim-de-semana até à praia mais próxima, e aparecem em tudo que é revista e televisão enquanto o resto do mundo só lê o jornal.

Soa sempre a alergia e a saudosismo dos tempos em que a "riqueza" existia só para alguns. Estávamos aqui tão bem até chegarem “estes”. Plebeus!

E que tal começar por dar o exemplo?

 

(Na foto Fashion Boots 1970 via Times)

 

 

O Insulto

por josé simões, em 18.09.08

 

(O que se segue só hoje está on-line, porque fiquei à espera da disponibilização do link no sítio do costume. Não aconteceu)

 

“Os irresponsáveis transferiram os empregos que a maioria de nós já não queria para outras partes do mundo, onde foi possível manter os baixos preços do que nos apetece comprar.”

 

O negrito é meu, as palavras são de Rui Ramos na sua crónica de ontem no Público, onde aborda a recente turbulência nos mercados financeiros e bolsistas e a suposta auto-correcção dos mercados.

 

Mais que uma despudorada manipulação da verdade, isto é o maior insulto que já me foi dado a ler, aos milhares de trabalhadores dos sectores têxtil, confecções, calçado, sector automóvel, cablagens, e um graaande etc. que nos últimos anos, quase diariamente aparecem nos telejornais e fazem as primeiras páginas da imprensa escrita a pedirem por tudo e por mais alguma coisa que a empresa fique. Que lhes continue a assegurar o miserável único meio de subsistência; onde por vezes (a maioria) uma família inteira depende do mesmo empregador.

 

Os irresponsáveis transferiram os empregos que a maioria de nós queria para outras partes do mundo, onde foi possível manter os baixos preços e aumentar as margens de lucro, porque, infelizmente, há quem tenha salários de miséria ainda mais miseráveis que os nossos.

 

Continua a ser o mercado a auto-corrigir-se, para o lado do bolso do accionista, mas ainda assim uma correcção; n’est pas monsieur Rui Ramos? Naomi Klein explica em No Logo, e duvido que não tenha lido.

 

(Fica mal a um historiador vestir a pele de Goebbels)

 

 

 

Apartheid escolar

por josé simões, em 26.03.08

 

Gostei de ler Rui Ramos hoje no Público (sem link). Gostei das suas propostas para “corrigir” os Carolinas Michaelis deste país. Principalmente desta:
 
E se cada escola pudesse escolher os seus alunos, e cada aluno escolher a sua escola?
 
Agora é só questão de esperar pelo próximo artigo do historiador para nos explicar a todos, e depois do vídeo no Youtube, qual seria a escola que escolheria a “menina do telemóvel” para sua aluna. Ou quais os pais que iriam a correr matricular os seus filhos no Carolina Michaelis. Depois, sem escola que a aceitasse, teria um futuro radioso como caixa de um supermercado; de uma estação de serviço; ou como mulher-a-dias. Sem alunos o Carolina Michaelis encerrava e estava resolvido o problema; voltávamos aos gloriosos tempos do “Não tinha cabeça para os estudos; foi trabalhar!”. Chama-se a isto varrer o lixo para debaixo do tapete.
 
“Quando é que a “velha” cai?”; é o título do artigo. Exactamente. Não há meio desta “bélha” teoria educativa cair…
 
(Foto roubada ao Chicago Tribune)
 
 

Che Guevara na Atlântico

por josé simões, em 03.10.07

 

Declaração de interesses: Este blogue não é Guevarista. Nem tão pouco Castrista, Bolivarista, Chavista ou outro qualquer “Ista” Latino-Americano, Anglo-Saxónico ou o diabo que o valha.
 
Li com interesse e agrado o artigo sobre Che Guevara que Rui Ramos assina na Atlântico deste mês. (Leiam que vale a pena).
 
Aparte pontuais discordâncias de análise do ponto de vista ideológico, nada a apontar no que respeita aos factos. Arrisco mesmo dizer que só por isso nem valia a pena ter escrito o artigo, porque não acrescenta nada de novo ao que já se sabe.
 
Retenho-me no entanto na introdução ao artigo, quando Rui Ramos escreve: “Há 40 anos, a 10 de Outubro de 1967, o mundo viu finalmente o seu cadáver, deitado numa maca, com os olhos entreabertos, vidrados. (…). Com ele, no sul da Bolívia, morria a grande ilusão castrista de revolucionar o continente a partir de uma ilha das Caraíbas protegida pelos soviéticos.”
 
Rui Ramos comete, a meu ver, um pecado capital (consciente ou inconscientemente, não sei): ao longo das quatro páginas que compõem o artigo, nem um só paragrafo para situar os leitores na América Latina das décadas de 50 / 60 do sec. XX, nem para enquadrar o fenómeno Che / Castro no labirinto de ditaduras militares que governavam o continente, do México até à Argentina, com o alto patrocínio dos Estados Unidos sob um álibi perfeito – a Guerra-fria e a luta contra o Comunismo.
Partindo da máxima “Fomismo (de fome) é Comunismo”, as sucessivas administrações Norte-Americanas meteram o pé na poça e fizeram asneira da grossa, ao incentivar e apoiar sem escrúpulos, todo o tipo de ditaduras sanguinárias e corruptas que durante meio século governaram (?) o continente. Se não tivessem como lema que, aqueles países exóticos, produtores de bananas, cheios de mulheres baratas e muita praia para passar as férias, – que, infelizmente era assim que os americanos viam Cuba –, eram o seu quintal da frente (ou das traseiras?), e tivessem deixado seguir normalmente o rumo das coisas, talvez neste momento – porque nestas matérias em história só se pode especular – não se assistisse à tomada de poder pela via eleitoral, de toda uma corja de potenciais candidatos a ditadores de inspiração Guevarista. A “febre” da revolução já lhes tinha passado. Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua são antes do mais a falência das políticas patrocinadas pelos Estados Unidos na região, e, a prova – ironia suprema – que Che e Fidel conseguiram o que sempre ambicionaram, e pela via das urnas (!), mesmo que depois de mortos.
 
“Esta é a história de um fracasso” – assim começou Guevara o seu relatório da expedição ao Congo, em 1965”, escreve Rui Ramos. Caro Rui Ramos, talvez tenha chegado a hora de reescrever o diário de Che, porque cada vez mais me parece ser esta “A história de um sucesso” para os semeadores da revolução, e que, por linhas tortas, se começou a escrever no dia em que os Estados Unidos decidiram patrocinar a primeira ditadura militar latino-americana.
 
(Fotos via El Mundo)

O que resta da esquerda?

por josé simões, em 23.06.07

«Nas últimas semanas, fez falta à esquerda um muro das lamentações. Primeiro, houve choro e ranger de dentes porque o Bloco de Esquerda deixou de ser “revolucionário”; depois, houve desagrado e embaraço por Mário Soares ter voltado a falar como um revolucionário. Todas as teses ficaram assim confirmadas: a daqueles que pensavam que a esquerda tem de mudar para continuar a ser relevante, e a daqueles que desconfiam que, por mais que pareça mudada, é sempre a mesma. Há ainda outra tese: a dos que querem convencer-se de que a esquerda deixou de existir. É uma tese muito do agrado daquela direita que não gosta que a esquerda a obrigue a parecer o que é. Mas para uma coisa que não existe ou deixou de existir, faz muito barulho. Basta reparar na fúria com que o actual Governo de José Sócrates se reclama de esquerda (embora “moderna”), só igual à ânsia com que muitos dos seus críticos e alguns dos seus amigos negam que seja tal coisa.

 

Desde Fevereiro de 2005 que a rotina manda discutir sobretudo a “crise da direita”. Sempre achei imensa graça àqueles que diagnosticam uma crise à direita porque o Governo do PS lhe teria roubado as “bandeiras”. Mas se os líderes do maior partido de esquerda precisam de roubar bandeiras ao adversário, quem é que está mesmo em crise? De facto, José Sócrates não roubou ninguém. Limita-se a fazer o necessário para dar mais uns anos de vida ao Estado social. Como não é possível subir mais os impostos, baixa as prestações. Sócrates limitou-se a tropeçar numa velha verdade socialista: o empobrecimento é o preço do controlo da sociedade pelo poder político. Só que nem toda a gente à esquerda está disposta a vazar o cálice da realidade.

 

Não é só em Portugal que a esquerda não é feliz. A esquerda não está bem onde perde, nem onde ganha. Em França, os socialistas parecem regressados ao ostracismo dos primórdios da V República, antes de Mitterrand. Em Inglaterra, Blair fez dos Trabalhistas o “partido natural de governo”, mas à custa de uma crise existencial. Há uns meses, Nick Cohen publicou um livro com um trocadilho no título: What’s left? Como se perguntar o “que é a esquerda” fosse, hoje em dia, perguntar o “que resta da esquerda”. O que resta da esquerda é o estado social e o antiamericanismo, isto é, a adesão a um sistema assente no controlo dos indivíduos pelo poder político, e o ódio àquela que, para o bem e para o mal, é a mais profunda democracia do mundo. É curioso. No século XIX, era ao contrário: era à direita que se detestava a América (isto é, a democracia), e se temia o princípio da liberdade e responsabilidade individuais. Quando se diz que a esquerda precisa de mudar, esquece-se isto: a esquerda mudou, mudou mesmo muito, e é essa mudança que hoje a faz olhar para o mundo como para um labirinto incompreensível.

 

Regressemos, por exemplo, a John Stuart Mill, cujo centenário passou o ano passado. Hoje é lembrado como um liberal. Mas Mill foi, no seu tempo, um “radical”: desejou a extinção da religião revelada e a subversão da hierarquia social. Por isso mesmo, pregou o princípio da autonomia individual contra o Estado. Mill acreditava que, uma vez libertos de constrangimentos, os indivíduos se deixariam convencer pelos melhores argumentos, e que esses argumentos eram os do secularismo e da igualdade, porque constituíam as molas do progresso. Foi esta confiança que as esquerdas perderam. E à medida que a perderam, passaram a depender cada vez mais do Estado. Hoje em dia, à esquerda estão as forças políticas que acreditam na mentira que Nietzsche disse ter sido contra o estado (“o mais frio de todos os monstros”): “Eu, o Estado, sou o povo.” Ora, o Estado nunca é o povo, como em tempos as esquerdas souberam.

 

Ao contrário do que dão a entender algumas direitas, a esquerda não é dispensável. O consenso à volta da igualdade e do secularismo da vida pública só existirá enquanto esses alicerces do nosso modo de vida tiverem defensores aguerridos, como em tempos os houve à esquerda. Hoje o panorama é aí confuso: a esquerda mais laicista é aquela que, por preconceito antiamericano, mais se dispõe a caminhar ao lado dos profetas do futuro califado; e a esquerda mais igualitarista é aquela que exibe maior zelo por um sistema, o Estado social, que tem sido por todo o lado uma mina para as classes médias e a proverbial madrasta dos mais pobres. Descobrirão as esquerdas um dia que há vida para além do antiamericanismo e do “mais frio de todos os monstros”? Talvez ajudasse ter lido mais Mill e menos Marx, e ler agora mais Nick Cohen e menos Chomsky.»

 

Rui Ramos, historiador, no Público de 20 de Junho.

O que a DREN nos ensinou

por josé simões, em 30.05.07

“Em 1851, quando se quis pôr termo ao carrossel de revoluções e guerras civis, um dos temas discutidos foi o do aumento de garantias ao funcionalismo. Parecia uma boa maneira de extinguir a fonte de combatentes desesperados que todas as insurreições encontravam entre os demitidos e injustiçados da administração e do exército. Terá havido ainda uma razão social. A classe média, à medida que as rendas agrícolas deixaram de bastar para manter uma posição social, descobriu uma compensação nas repartições públicas. E quis que a nova fonte de rendimentos estivesse garantida por lei contra esbulhos arbitrários. Eis o emprego vitalício. Mas convinha ainda assegurar a carreira contra quaisquer “subjectividades”. E eis a promoção por antiguidade. No século XX, o Estado Novo impôs novas condições ideológicas para a admissão no funcionalismo, mas consagrou o princípio dos direitos adquiridos. Assim se foi criando em Portugal um mundo à parte, o mundo encantado dos funcionários, que só podia aumentar, nunca diminuir, e onde havia prémios para todos.

O actual Governo ameaça acabar com este mundo antes de acabar com as suas causas: a partidarização dos serviços (como se ver pela DREN), e uma economia incapaz de gerar um número suficiente de empregos compatíveis com aspirações de classe média (como se vê pelo desemprego de licenciados). (…). É verdade que em qualquer empresa um empregado está sujeito à parcialidade das chefias. Mas, ao contrário de empresas operando num mercado aberto, o Estado é invulnerável à concorrência. Não há, por isso, custos associados à perseguição e afastamento, por mero capricho pessoal ou político, dos mais cumpridores e capazes.”

 

Rui Ramos para ler na íntegra no Público de hoje.

25 de Abril à Direita (IV)

por josé simões, em 04.04.07

Valores e estratégias

 

O PREC, porém, não durou. E não durou pela resistência daquele país que as esquerdas menos lunáticas, com muita razão, sempre temeram. É verdade que das tropelias de 1975 sobreviveram o Conselho da Revolução, a Constituição e as nacionalizações. Mas o Conselho da Revolução não comandava as forças armadas, onde o novo Presidente da República, o general Eanes, restabeleceu a hierarquia conservadora. E em 1979, o PSD e o CDS obtiveram uma maioria revisionista, suficientemente forte para levar Eanes a confessar que partilhava a mesma ideia de sociedade. A AD sabia o que queria: um poder democrático livre de tutelas e uma sociedade mais autónoma do Estado. Perante a evidência da ruína revolucionária, teve um acolhimento entusiástico. Porque é que isso não foi aproveitado para a afirmação de um contraste claro com as esquerdas? Porque é que a direita, de que pouca gente se reclama entre os partidos do regime, continuou a ser invocada no debate político quase só como a esquerda a imagina: o lado negro da “reacção” e dos “poderosos”?

Por duas grandes razões, entre outras mais pequenas. O Estado-Novo insistira, durante anos, na ultrapassagem da dicotomia direita-esquerda, que considerava própria de um regime parlamentar, mas não de um regime “nacional”. Depois de 1974, a atitude típica à direita continuou a ser da negação de dicotomias doutrinárias, em nome dos valores consensuais de um “desenvolvimento” mais tarde enquadrado pela união europeia. À direita, onde se rejeitava a “luta de classes”, recusou-se também o confronto ideológico como mais uma perversa invenção das esquerdas, indigna de estadistas responsáveis.

Além disso, porém, havia uma questão de estratégia. O PS de Mário Soares, em 1975-1976, afirmara-se como partido maioritário em confronto com o PCP. Isso levou os partidos à sua direita a adoptar aquela que deveria ter sido a estratégia do PCP: entrar no poder pela mão do PS. O CDS foi o primeiro a aproveitar a boleia. O PSD também tentou, embora fosse demasiado grande para uma posição subordinada, como se viu em 1983-1985. De qualquer modo, enquanto o jogo foi esse, nunca conveio uma identidade de “direita” que impedisse a intimidade com o PS que, apesar das acusações do PCP, sempre quis ser de esquerda. O CDS refugiou-se nas ambiguidades da “democracia cristã”, e o PSD inventou uma “social-democracia” que nunca ninguém soube bem o que era. É sintomático que, depois de Sá Carneiro, o PSD tenha tratado as revisões constitucionais como um motivo para descobrir consensos com o PS, e não divergências. Entre 1985 e 1995, Cavaco Silva tentou chegar às reformas sem grandes controvérsias, em regime de concertação social e também de concertação ideológica. Lamentou que o PS tivesse votado contra 70% das suas propostas de reforma, mas evitou, muito diplomaticamente, tirar as mais radicais ilações. O mesmo no que diz respeito ao sentido da tutela presidencial de Mário Soares.

Em suma, as direitas não foram simplesmente vítimas de uma tomada de poder pelas esquerdas no dia 25 de Abril. Na diminuição ideológica das direitas, a revolução teve uma influência talvez inferior ao que é costume dizer. Mesmo a célebre “ditadura cultural da esquerda” não data da revolução, mas vem do Estado Novo, que por entre as entrelinhas da censura foi deixando os intelectuais de esquerda regularem largamente os consumos literários e artísticos. Se o 25 de Abril marcou alguma coisa a esse respeito, foi paradoxalmente o começo do fim dessa velha hegemonia intelectual das esquerdas. Entre outras provas, aqui estão os dois anos da Atlântico.

 

Rui Ramos, historiador, na revista Atlântico deste mês.

25 de Abril à Direita (III)

por josé simões, em 03.04.07

Responsabilidades

 

Comecemos por examinar o modo como as direitas perderam a partida em 1974.

O golpe de 25 de Abril resultou de várias conspirações, que procuraram manipular e explorar os capitães insubordinados. Havia entre estes alguns esquerdistas, mas sem o destaque que mais tarde adquiriram. A maioria das estrelas do MFA, como Otelo Saraiva de Carvalho, converteu-se ao marxismo só depois do golpe. E isso aconteceu, em grande medida, porque só à esquerda encontraram uma resposta imediata para a razão que os movera ao golpe: o fim da guerra em África. Em 1974, aliás, o próprio golpe fez essa aspiração dos oficias tornar-se uma necessidade, com o colapso da disciplina militar. Ora, as direitas do novo regime – chamemos assim aos líderes políticos que não pertenciam aos partidos da esquerda marxista – não tiveram resposta para essa urgência. Comprometeram por isso a ascendência que, a princípio, alguns naturalmente lhes vaticinavam.

Em 1974, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, os principais líderes dos partidos à direita do PS, tinham conseguido purificar-se dos seus começos no Estado Novo. Não havia neles traço dos velhos preconceitos salazaristas contra a democracia, o parlamentarismo e o pluralismo partidário. Estavam também já desligados da tese de que Portugal era uma nação euro-africana. Mas não tinham chegado à lucidez brutal com que De Gaulle lidara com a Argélia em 1961-1962. Em grande medida por causa de Marcelo Caetano. Nos argumentos para ficar em África, Caetano substituíra habilidosamente os direitos, a que teria sido fácil renunciar, por responsabilidades, a que não se podia escapar com honra – responsabilidades, em primeiro lugar, para com populações que não possível entregar simplesmente à ditadura dos partidos armados que combatiam a administração portuguesa. Tal como Spínola, Sá Carneiro e Freitas tiveram grande dificuldade em alijar essas responsabilidades. Só que a alternativa à simples entrega – como uma autodeterminação através de referendos – passaria sempre, devido à intransigência dos partidos armados e por causa das fraquezas das sociedades coloniais, pela continuação da guerra com tropas metropolitanas. O que não era viável. Foi isto que, em 1974, fez passar a iniciativa para as esquerdas, onde, por uma vez, a cegueira ideológica serviu de atalho para um realismo gaullista. As forças armadas, para quem a retirada de África era a prioridade, encontraram no expedito anti-colonialismo das esquerdas os argumentos necessários para se livrarem de quaisquer responsabilidades em boa consciência.

No dia do golpe, as esquerdas ocuparam as ruas e as instalações do Estado Novo. Mas temiam um país que estivera sujeito a 40 anos de reconquista católica e propaganda anti-comunista. Os mais realistas esperaram apenas ganhar um ligar ao sol numa “democracia burguesa”, como controladores sindicais. Foi o caso, inicialmente, do PCP. Subitamente, graças à “descolonização”, viram-se ao colo das forças armadas, a fazer uma revolução que poucos tinham julgado possível. O PREC não foi o resultado de uma simples tomada do poder pelo PCP, mas da incapacidade das direitas de renunciar às responsabilidades em nome das realidades. Foi uma incapacidade que teve a sua nobreza. Mas custou o PREC.

 

Rui Ramos, historiador, na revista Atlântico deste mês.