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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

40 anos depois a morte de uma narrativa

por josé simões, em 28.12.20

 

cooperativa-agricola-torre-bela.png

 

 

ficou conhecida por não ter tido intervenção partidária, tendo sido criada uma cooperativa popular e não comunista

 

E assim, em meio parágrafo, numa rádio propriedade da Igreja Católica e ligada à direita mais retrógrada e ao poder económico, se destrói 40 anos de narrativa da direita radical.

 

[Imagem]

 

 

 

 

|| Os Sovkhozes e os Kolkhozes 2.0

por josé simões, em 19.09.11

 

 

Partilha da riqueza Vs. derivas totalitárias

por josé simões, em 13.06.07

Estávamos em 1975 e no auge do denominado Verão Quente. No Alentejo as herdades eram ocupadas e davam lugar às Cooperativas e ao início da Reforma Agrária. O PC manobrava nos bastidores, mas não manobrava no “arame e sem rede”. Havia um descontentamento generalizado da população alentejana por décadas de explorações e humilhações, fomes, baixos salários e repressões, por tudo e mais alguma coisa. Quem tem família oriunda do Alentejo rural, sabe bem do que falo. O que o PC fez, não foi mais do que canalizar o descontentamento das populações, para servir os seus intentos. Aqui, os latifundiários e proprietários, têm tantas culpas no cartório da Reforma Agrária quanto o PC; com a sua mentalidade fechada e falta de visão empresarial. (Que se mantêm 33 anos após Abril, mas isso são contas de outro rosário).

 

Em plena etapa de ocupação dos latifúndios, lembro-me de ver na altura na televisão, uma reportagem num qualquer embrião de cooperativa. Um trabalhador agrícola discutia em directo com o camarada responsável pela ocupação da herdade. Dizia o camarada, mais ponto menos virgula: “Isto agora é tudo do povo. Vamos trabalhar em conjunto e para o bem comum. As casas são de todos, as alfaias são de todos, o trabalho é comum e os proveitos são de todos.” (Esqueceu-se de referir que antes mandava o patrão e agora mandava o Partido, por interposta pessoa; a sua.) O trabalhador respondia, também mais ponto menos virgula: “Isso é tudo muito bonito… mas há aqui uma coisa que não me entra bem. Ora se fui eu que comprei a enxada, porque é que ela há-de ser de todos? Até daqueles malandros que nunca compraram uma? Assim fico pior que antes! Antes a enxada era minha e agora passa a ser de todos!?”

(Esta situação pode ser comprovada nos vídeos que a RTP editou pelos 25 anos do 25 de Abril).

Vem isto a propósito da mais recente ideia luminosa, vulgo pancada, de Hugo Chávez. No seu programa Aló Presidente diz: “Aquele que tiver um frigorífico que não precise, coloque-o na Praça Bolívar, desprendam-se de algo, não sejamos egoístas. (…) Não tenho riquezas, mas tenho um dinheiro poupado de um prémio que me deram na Líbia de 250 mil dólares. Já doei parte para outra causa, mas o que sobrou vou entregá-lo ao povo.” E pelo meio apelos ao trabalho voluntário “ao sábado e ao domingo, para ajudar as comunidades”, (nada que também não tenha acontecido por aqui no PREC), “não há revolução socialista sem trabalho voluntário.

Por cá, e em 1975 nunca “chegámos à Venezuela”, apesar de já termos “chegado à Madeira” e no Continente… Mas as analogias e as comparações não deixam de ser interessantes. Porque as culpas no cartório do embrião de ditadura que está em gestação na Venezuela, não podem ser única e exclusivamente assacadas a Chávez. Ele apenas se movimenta no arame, sustido pela rede que foram décadas de opressão de ditaduras militares com o beneplácito dos Estados Unidos. A isto, juntar um factor que tem passado ao lado da generalidade dos comentadores, não sei se deliberadamente ou não, ou talvez pelo politicamente correcto: ditaduras militares comandadas por minorias brancas que oprimiram e exploraram as maiorias nativas. E Hugo Chávez é um índio, um nativo, que desde o início do seu percurso soube explorar até à medula esse pormenor.

 

As coisas em política nunca acontecem por acaso. Há sempre algo que conduz a algo, e na História há sempre dois lados. Um não pode servir para justificar ou desculpabilizar outro, mas, não vivem per si, nem nascem por geração espontânea.

 

Hoje o provérbio do dia é retirado da letra de uma canção de Sérgio Godinho: “A sede de uma espera só se estanca na torrente.