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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

O busílis da questão

por josé simões, em 05.02.18

 

Otto Stupakoff 1963.jpg

 

 

Independentemente da importância e da relevância que se dá ou que se deixa de dar aos rankings das escolas; independentemente do contexto social e cultural onde cada escola se insere, independentemente dos alunos amestrados para o desempenho nos exames e da alegada manipulação de notas; independentemente da mistura sem critério entre escolas públicas e escolas privadas; independentemente do fosso entre escolas do litoral e escolas do interior; independentemente do sucesso no percurso pós-ensino nunca contabilizado e ordenado em ranking; independentemente disto tudo o que importa saber é o que é que o Estado fez ou deixou de fazer para combater a exclusão, a desigualdade, o estigma que esmaga as escolas do fundo da tabela e que faz com que por lá se mantenham, quando não se afundam ainda mais, ano após ano. Onde é que o Estado está a falhar?

 

[Imagem de Otto Stupakoff]

 

 

 

 

||| Next level, insert coin

por josé simões, em 29.11.14

 

insert-coin.jpg

 

 

Malgrado os 4 anos de Nuno Crato, diligentemente investidos na destruição do ensino público e da escola pública mas frustrados por causa maldita da política de empobrecimento, desemprego e miséria, do ir além da troika [que a troika não embarcou em grupos: «and reducing and rationalising transfers to private schools in association»], e quando, contra todas as expectativas e anseios do Governo, se assiste a uma fuga das famílias do ensino privado para o ensino público, agora que a fogueira das vaidades tem uma chama muito ténue e umas brasinhas de carvões a morrer à volta, já não é "o ranking [martelado] da escola do seu filho", passámos ao nest level, o de "o lugar em que ficou a sua escola" [no ranking martelado].


A sua escola. Assim uma espécie de nostalgia para os pais e avós. E até podiam fazer um histórico por anos, com as fotos das turmas de finalistas, american style, que era um deleite.


E que lhes sirva para perceber como é que foi possível a um bando de energúmenos e matarruanos, nascidos, crescidos, criados, educados e formados na escola pública, chegarem ao poder com o objectivo único de destruir quem os educou e lhes deu formação.

 

 

 

 

Ainda o ranking das escolas

por josé simões, em 22.11.07

 

Quando aqui me dediquei a fazer o “exercício de sociologia barata” proposto por Rui Tavares restringi-me à última escola de todas por onde passei, aquela que frequentei do 10.º ao 12.º anos; a Escola Secundária de Bocage, na altura Liceu de Setúbal. Foi também a que mais me marcou, quer pelo nível de qualidade humana e pedagógica dos professores que na altura leccionavam, quer ao nível das vivências e relações estabelecidas com os colegas de turma, e noutro patamar, pelos projectos e actividades de intervenção cívica e associativa desenvolvidos com outros colegas de escola, colegas de outras turmas; aqueles que paravam no pátio do “meio”, conhecido como o pátio dos “alternativos”, por oposição ao pátio dos bétos – o de entrada (onde apesar de tudo fiz amizades que perduraram até hoje), e o pátio da maralha – o dos campos de jogos.
 
Inconscientemente (ou talvez não) esqueci-me da escola onde fiz o 8.º e 9.º anos; a Escola Secundária Sebastião da Gama, à época Escola Industrial e Comercial de Setúbal. Lembrei-me hoje da Comercial, quando na banca dos jornais vi este cromo estampado numa revista daquelas que no meu ranking pessoal estão catalogadas como “revistas manhosas”. Este traste, na altura da Comercial, ainda tinha nome de gente; dava pelo nome de António Ferrão; ainda ouvia e cantava música de gente; e… e era meu parceiro de secretária nas disciplinas de Biologia e Francês. Depois dei o salto para o Liceu e perdi-lhe o rasto até que um dia o tornei a ver no Festival da Canção, a interpretar uma canção manhosa, e daí para cá foi um ver se te avias; até Rei do Carnaval já foi!
 
Aparece agora na capa duma revista manhosa, com um ar de desgraçado, a queixar-se “não sei se o filho é meu”, e que “a Tina levou-me 100 mil euros e o carro”. Um autêntico Carnaval! Estou tentado a comprar a revista só para saber se no meio desta tragédia toda que se abateu sobre o filho do alfaiate que dava vida e cor ao Largo da Misericórdia, com os tecidos expostos à laia de pendão desde o 2.º andar até quase ao rés-do-chão, e que agora tem nome de detergente do Lidl, o que é que lhe dói mais: se o filho que não sabe se é seu, se o carro que foi andando por via da banhada da Tina, se os euros que a Tina vai gastando, ou se a tragédia no seu todo. (Atina Tina! ou a Tina atinou?)
 
Fui outra vez deitar o olho no ranking das escolas. A Comercial, infelizmente, está muito mal classificada. Dou comigo a pensar que esta coisa dos rankings e da sociologia barata talvez tenha razão de ser…
 
Post-Scriptum: Desconheço qual foi a escola que a Tina frequentou…
 
 

Rankings; esquerda / direita e falsas questões

por josé simões, em 31.10.07

 

E de cada vez que o ranking é publicado volta a polémica e a discussão sobre os defeitos e as virtudes; escola pública vs. escola privada. Isto dura uma semana, no máximo duas e depois tudo volta à normalidade. Até para o ano.
 
A minha escola, que é agora a escola da minha filha; uma escola pública, ficou em 23.º lugar no famigerado ranking, (Link aqui), e fazendo um exercício de “sociologia de bolso” igual ao efectuado por Rui Tavares (aqui) para tentar seguir o rasto do pessoal daquela época, constato que, e logo à cabeça, encontro um treinador de futebol considerado “” como o melhor do mundo, um actor do Teatro Nacional D. Maria II, um director de um jornal diário, por sinal o de maior tiragem nacional, actores de várias companhias e que não passa um dia que não tenha que gramar com eles em telenovelas e anúncios de cada vez que ligo a televisão, um encenador, mais uma repórter de uma televisão privada, e um sem fim de outros anónimos, mas não menos importantes, que vão desde professores, passando por engenheiros mesmo engenheiros, a gestores de empresas privadas.
 
Não é por aí que vamos lá. Ainda para mais se a este exercício somarmos outro, que Paulo Portas classifica como o complexo da esquerda “entretendo-se demasiado a perceber” contextos sociais e responsabilidades do Estado, e quisermos contextualizar Setúbal nos finais da década de 70 princípios de 80 do século passado, com greves, encerramentos de empresas, desemprego, fome, mais bandeiras negras na cidade “vermelha”, o bispo D. Manuel Martins e o diabo a sete.
 
Neste “Pingue-Pongue” que diariamente Rui Tavares mantém na última página do Público com Helena Matos, escreve esta no passado dia 29: “Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos? À célebre pergunta “Onde é que estavas no 25 de Abril?” é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores… e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público, mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes, mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência embruteça.”
 
Vamos então apontar e com justiça o dedo à esquerda e à febre do PREC, mais a luta de classes e a pulsão igualitária, e uma tentativa de tudo nivelar (e por baixo!) a começar pelo ensino. Acaba-se com a divisão entre Liceus e Escolas Comerciais e Industriais com a invenção do ensino unificado. Agora todos podiam ser doutores e engenheiros e foi o que se viu e o que se vê, tenta-se agora corrigir com os cursos de formação profissional; do mal, o menos. Mas a direita não fica isenta de culpas no cartório. É que não sei se já repararam quem esteve maioritariamente no poder desde a revolução de Abril até hoje… foi exactamente a mesma direita que agora grita e esbraceja e nada fez para alterar o rumo das coisas enquanto foi poder. Por aqui ficamos conversados.
 
(E até podia ter aqui uma tirada à Álvaro Cunhal, e dizer que foi assim porque lhe convinha, de forma a desacreditar o ensino público na opinião pública e abrir caminho aos privados).
 
Neste “Pingue-Pongueescola pública / escola privada, não só entre Rui Tavares e Helena Matos, mas alargado à generalidade da sociedade, com escolha das escolas pelas famílias, mais o cheque-educação e subvenções estatais a escolas privadas e sei lá que mais, recorro outra vez a Helena Matos no “Pingue-Pongue” de hoje: “Não sei como (…) se explicará que, uma vez na faculdade, as mesmas famílias optem sempre que possível pelo ensino público (…)”.
 
Ora aí está; o dedo na ferida! Pela mesma razão que a Faculdade de Direito não dá Medicina e vice-versa, nem existem cursos de Arquitectura no Técnico. A isto chama-se especialização. Houve uma altura, e foi o meu caso, em que quem queria seguir a Área Jornalismo tinha uma única hipótese em Setúbalo Liceu, independentemente de residir ou não na área da escola. Mas desconfio que não seja esta a ideia de Helena Matos. Assim como também desconfio da esquerda que embarca e vai a reboque da agenda da direita para a educação, e desata a discutir falsas questões como o são o direito das famílias a escolher as escolas. Depois queixem-se de como que por artes mágicas sejam as escolas a escolher as famílias. Estou mesmo a ver quem, aqui em Setúbal, iria a correr matricular os seus filhos na escola do Bairro da Bela Vista
 
(Foto de Paul Preece para o Guardian)