"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
"Pedir desculpa? [aos ciganos]. Mas vivemos na Coreia do Norte, ou o quê?!". Isto não faz sentido nenhum, mas o taberneiro diz estas merdas da boca para fora e uma manada de acéfalos bate palmas.
A Direcção Geral da Saúde decidiu assinalar o Dia Mundial da SIDA com uma foto, entretanto retirada, ao nível dos argumentos usados pelos matacões e trogloditas quando a doença apareceu nos 80's, "isso é coisa de paneleiros".
Em Lisboa, seis jovens morreram carbonizados quando o carro em que seguiam se incendiou após despiste na Av. das Forças Armadas.
E o que é que uma coisa tem a ver com a outra, perguntamos nós. É que a foto, nos tempos que correm, diz muito sobre quem a usou, em particular, e sobre a direita extrema, governo sombra da extrema-direita agrupada no partido da taberna, e no esgoto a céu aberto que são as caixas de comentário às notícias da morte de seis angolanos na noite de Lisboa, pelos minions do taberneiro, eleitorado que o PSD pensa capitalizar.
O facto de acharem que um nepalês, um moldavo, um chinês, um ucraniano, um norte-americano, or ever, como dizem os 'amaricanos', meter Fábio André, Cátia Vanessa, Iuri Santiago, Soraia Cristina ao rebento só por ter nascido em Portugal diz muito sobre as mentes alucinadas da teoria do jus solis que vai substituir o jus sanguinis.
Tem 9 anos esta primeira página. É na Europa, é numa das capitais financeiras do mundo, é numa cidade cosmopolita onde vivem quase tantas pessoas quantas as que vivem em Portugal, é num país que fez a descolonização 30 anos antes de Portugal. Mas os burros do "sangue e raça lusitana" vai inventar sempre alguma coisa para dizer.
Sei de muito "português[a] de bem" que foi ver Nininho Vaz Maia num Pavilhão Atlântico completamente à pinha e semanas depois estava a fazer a cruz no boletim de voto no quadrado do partido da taberna, queiram ou não queiram os apóstolos do taberneiro. E se calhar este é um bom ponto de partida para perceber o fenómeno ao invés das centenas de análises do blah-blah-blah assentes no "vejamos", no "ramente" [realmente], e no "há liaz", que por estes dias poluem os órgãos de comunicação social. Até porque quando os ciganos forem todos trabalhar, os imigrantes todos para a terra deles, há-de haver sempre o partido da taberna para mandar os portugueses trabalhar.
Um ex juiz, fascista, homofóbico, xenófobo, negacionista covid, ter filhos de uma cidadã brasileira é a prova provada de que os imigrantes vêm para Portugal fazer o trabalho sujo que os portugueses não querem fazer.
Não foi o Donald Trump que disse [a piada racista sobre Porto Rico]. Já o que Joe Biden disse [lixo e apoiantes de Trump] foi Kamala Harris quem o disse. Nem é o jeitinho que a direita tem para mudar narrativas num click, é a apetência que as pessoas decentes têm para papar essas narrativas, devidamente amplificadas pelos media amorfos e com agenda.
A direita sonsa, que pensa em privado o que o taberneiro diz em público e em voz alta, depois do fiasco que foi a manif "em defesa da polícia", percebendo que não pode... err... que não deve defender o indefensável, o faroeste, porque lhe cai a máscara da "respeitabilidade", aproveita-se agora do motorista da Carris para desviar o foco do racismo endémico nas polícias, quando a verdade é que o motorista da Carris, que parece tanto preocupar a direita sonsa, podia ele próprio ter sido abatido pela polícia, à noite, a caminho de casa depois de largar o serviço. Ou é preto ou é brasileiro, é suspeito à partida e é suspeito à chegada. Se não fez qualquer coisa é porque ia fazer outra coisa ainda pior. É dano colateral duas vezes, a primeira como vítima inocente dos motins, a segunda como vítima inocente no aproveitamento político daqueles que contra todas as evidências constroem narrativas a negar a génese dos motins e onde as vítimas são culpadas de serem vítimas.
Ernst Thälmann, dirigente do Partido Comunista Alemão [KPD], fiel a Estaline, assassinado em 1944 em Buchenwald por ordem directa de Hitler.
Quando o inimigo era a social-democracia, rebaptizada social-fascismo por ordem de Moscovo, valeu tudo, até aliança com os nazis do NSDAP para piquetes de greve na Berliner Verkehrsgesellschaft, empresa de transportes de Berlim. Agora, quando o fascismo está aí outra vez em força e é cada vez mais urgente uma unidade e convergência entre forças democráticas e progressistas, há quem faça depender a participação numa manifestação anti-racista, no mesmo dia dia em que os fascistas organizam um desfile "contra a imigração", do suposto apoio à NATO, a força militar mais multicultural, multiétnica e multinacional da história, e um alegado silenciamento sobre as acções de Israel na Palestina. "Política unitária não é isto", política unitária é deixar o cérebro em casa e obedecer aos ditames do Comité Central.
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, mas a tradição ainda é o que era.
Os da "Argélia não é uma colónia francesa mas um departamento" e da consequente guerra, com milhares de mortos de ambos os lados, tortura, repressão da população civil, massacres, terrorismo de Estado, mais os milhões de refugiados e "retornados" a França, e as convulsões sociais e políticas com isso geradas, são os "a França está infestada de argelinos", "estamos a assistir à gradual substituição da população".
Percebem o título do post e a imagem que o ilustra?
Uma vez em Soissons, pequena cidade a norte de Paris, perguntei a um emigrante português porque é que recebia em casa o jornal da, à época, Frente Nacional, e votava na Marina se o partido tinha um discurso xenófobo e anti-emigração. Respondeu-me que eles, os portugueses, não eram emigrantes, emigrantes eram "os árabes e os pretos". Lembrei-me disto ao ler que o Attal apelou ao voto dos luso-descendentes contra o Rassemblement National que quer dividir os franceses por nacionalidades.
Na convocatória para a cercadura ao Parlamento, a páginas tantas, o taberneiro diz "dia 4 às 15 horas" enquanto faz com a mão direita o gesto três dedos e um zero que, em linguagem gestual, todos já vimos no canto do ecrã a tradução, significa "dia 4 às 15 horas" e não o símbolo White Power dos supremacistas brancos e, por coincidência e só por coincidência, também o símbolo do Movimento Zero nas polícias, aqueles senhores e senhoras que nos grupos WhatsApp, Telegram e contas fechadas no Facebook se dedicam a insultar imigrantes e gente de outras cores, para, mais rápidos que a própria sombra, os ditos zeros responderem ao apelo do chefe e gritado presente. Nas televisões, rádios, jornais, que andaram com o senhor ao colo e o engordaram, ninguém deu por nada, mesmo depois de elevados à categoria "Inimigos do Povo". Espectáculo!
Ontem tivemos uma fundação, alegadamente isenta e sábia, a enfiar-nos pelos olhos dentro a bondade e a virtude de mais da transferência de rendimentos do trabalho para o capital aka trickle-down, como se tivéssemos todos nascido ontem. Hoje temos o sindicato dos patrões a clamar por unanimidade para mais transferência de rendimentos do trabalho para o capital, por causa da competitividade, do crescimento económico, dos salários, do investimento estrangeiro, com o estudo da fundação, alegadamente isenta e sábia, na mão, que o "demonstra de forma inequívoca". Lá para domingo ninguém se espanta se os dois ex-líderes partidários da direita - Mendes & Portas, no espaço de agit-prop, denominado "análise isenta", que detêm em horário nobre, canal aberto, e sem contraditório, aparecerem a vender a virtude do estudo da fundação, alegadamente isenta e sábia, como eles, e como os patrões das empresas necessárias para o crescimento económico, a creação de riqueza e blah blah blah [criação em português antigo porque é desde esse tempo que nos prometem isto].
Aguiar-Branco, o erro de casting que calhou ser segunda figura do Estado na pele de presidente da Assembleia da República, depois de cair na real e ter visto a merda que fez [ao abrigo da liberdade de expressão, honi soit qui mal y pense] em vez de recuar e, num acto de humildade democrática, reconhecer que errou, sem precisar pedir desculpa, seguir em frente e emendar a mão quando a ocasião se propiciar outra vez, e não vão faltar vezes, ensaia uma fuga para a frente e tenta emporcalhar mais gente no turbilhão [também ao abrigo da liberdade de expressão, honi soit qui mal y pense], chamando uma embaixada de sábios em seu socorro. Lá para domingo ninguém se espanta se os dois ex-líderes partidários da direita - Mendes & Portas, no espaço de agit-prop, denominado "análise isenta", que detêm em horário nobre, canal aberto, e sem contraditório, aparecerem a defender a posição de Aguiar-Branco e a apontar o dedo à esquerda castradora.