"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Bolsonaro alegou alucinação, delírio, paranóia, ter ouvido vozes, como justificação para tentar abrir a pulseira electrónica que lhe foi imposta pelos tribunais pela tentativa de golpe de Estado após ter sido derrotado nas urnas; Pedro Frazão alegou sentimento de insegurança para deixar o carro estacionado em cima da linha do eléctrico, enquanto foi gravar mais um video para o TikTok a insultar os monhés, apesar de mesmo ali por baixo haver um parque de estacionamento, com segurança, por acaso um dos com a tarifa mais baixa de Lisboa, e apesar do sentimento de insegurança não o ter impedido de deixar os haveres dentro do carro à vista de toda a gente, monhés incluídos.
A arte destes artistas não consiste em dizer todas as merdas que lhe vêm à boca ou lhe passam pela cabeça por mais estapafúrdias que sejam para justificar o injustificável, que merdas da boca para fora e coisas sem nexo toda a gente consegue dizer sem um mínimo de esforço. A arte destes artistas consiste em conseguirem arregimentar um rebanho de acéfalos e alucinados que são capazes de jurar que as pedras da calçada são de samaúma se isso lhes for dito pelos chico-espertos que os lideram.
A "grande substituição" está efectivamente a acontecer, mais rápido do que se supunha. Os 230 deputados, responsáveis, educados, cultos, de pensamento estruturado, com cultura democrática e sentido de Estado, que nos habituámos a ver nestes 50 anos de democracia, estão a ser gradualmente substituídos por hordas de grunhos, ignorantes, uma grande maioria com cadastro criminal, mal-educados, irresponsáveis, zero de cultura e noção de democracia, a vomitarem ódio de cada vez que abrem a boca, com o cérebro tamanho de uma ervilha, incapazes de anteciparem três jogadas de xadrez, se o soubessem jogar, saudosos de um tempo anterior à democracia que não viveram e onde, curiosamente, os deputados, à excepção do cultura democrática, eram o oposto do que eles são.
E não são só 60, o mal está a propagar-se pelas bancadas ao redor e pelo Governo da Nação. Este sim é o drama da "grande substituição" que assola Portugal.
Antes do advento das "redes sociais" personagens como Javier Milei ficavam a falar sozinhos na rua, "tadinho, é maluco" ou "dá-lhe o desconto, não sabe o que diz" ou ainda "não tem os cinco alqueires bem medidos". Agora chegam a casa, ligam o computador, arregimentam uma horda de alucinados, vão a votos e ganham eleições. Onde é que se situa a fronteira entre a insanidade e a razão e quem é quem não tem medo disto?
Quer pelo lado do "baixar os custos do trabalho foi a reforma que ficou por fazer", quer pelo lado da redução do subsídio de desemprego, no montante a pagar pelo Estado e na duração temporal, para obrigar os "manhosos" e os "mandriões" a procurarem o trabalho que não há ou a aceitarem um qualquer trabalho a qualquer preço, o que remete automaticamente para a primeira parte, a dos custos do trabalho, e a da quebra do contrato social pela parte do Estado, a segunda parte, a da redução do subsídio por Vítor Gaspar, e a do populismo em lançar Ventura num subúrbio da capital como barómetro para acções futuras, há aqui uma coerência de louvar em Luís Montenegro quando assume o seu Pass[os]ado.
Estas duas notícias, lado a lado no online do Correio da Manha [sem til], durante a vigência de um Governo PS, alegadamente de esquerda e a governar com o "Orçamento de Estado mais à esquerda" desde que há esquerda, é aquilo que a tropa-fandanga do "sentido de Estado" classifica como "populismo".
Era possível encontrar Gonçalo Ribeiro Telles no autocarro entre a Avenida e o Saldanha na hora de almoço; BoJo ia de bike para a Mansion House em Walbrook; assim como de bike se desloca o holandês Mark Rutte de casa para o trabalho e do trabalho para casa; na Suécia os deputados vivem em kitchnet e recebem um passe social para as deslocações dentro da capital; no país rico do "qualquer dia querem que o presidente do grupo parlamentar do PS ande de Clio" uma empresa pública, intervencionada com o dinheiro dos contribuintes, com redução da massa salarial dos trabalhador... colaboradores e despedimentos negociados pela margem mínima, os directores recebem um "cheque Uber" no valor de 450 euros para compensar a perda de BMW. Populismo, dizem eles.
Que o Estado de direito democrático deve abdicar de sê-lo e condenar a pedido da turba só porque se não o fizer vai favorecer a ascensão do Chaga, é o argumento mais espantoso que se tem ouvido nestes dias, desde anónimos a políticos super star com assento e acento no prime time, passando por jornalistas. O medo do populismo de extrema-direita para se passar a actuar como se vivêssemos num Estado governado por um partido populista de extrema-direita é um jogo perigoso de se jogar e o Ventas, percebendo isso melhor que os anónimos, os políticos super star e os jornalistas, chapéu, começa a capitalizar por antecipação e força ainda mais com pressões inaceitáveis sobre o tribunal guardião da Constituição da República sob a forma de manifestações.
Em dia de manif das polícias, com o neo-fascismo populista do Chega sentado no Parlamento a levar a direita tradicional, CDS-PP, e os novos neo-liberais, Iniciativa Liberal, a reboque, ao invés de serem os próprios a demarcar território e a separar as águas, convém [re]lembrar os dois grandes perigos para a democracia e o Estado de direito neste início de século XXI: a judicialização da política e a autonomização das polícias.
Depois de no discurso do 25 de Abril ter alertado, sem ninguém perceber porquê, para os riscos do "messianismo salvífico" e do "populismo", Marcelo Rebelo de Sousa anuncia que nestas férias vai a banhos para as "Termas do Cartaxo".