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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Picar o ponto (II)

por josé simões, em 18.10.07

 

Sobre o controlo biométrico a introduzir nos hospitais, diz Manuela Arcanjo, a ex-ministra da Saúde de António Guterres:
 
“É uma ideia injusta e absurda que os médicos não cumprem os horários. Em serviços públicos em que não há trabalho, mas controlo de presenças, acaba por se jogar ao computador, telefonar até haver essa proibição. Esse controlo não é indicador de coisa alguma”
Público
 
Não era nada que não se soubesse. Que há “serviços públicos em que não há trabalho”, a novidade é ter sido dito por uma ex-ministra socialista. Não sei o que é que passou pela cabeça de Manuela Arcanjo quando disse o que disse, mas ao criticar uma medida tomada por este Governo, acaba por dar razão a outras que estão em vias de. É sempre salutar saber que o dinheiro dos contribuintes é usado para pagar os salários de boys (?!?) and girls que passam o dia a jogar no computador ou a telefonar aos amigos e à família, quando não a efectuar chamadas de valor acrescentado. Quem é que falou em excedentários na Função Pública?
 
Mas Manuela Arcanjo diz mais:
 
“Temo que venhamos a ter a degradação do SNS que não é colmatado por oferta privada, à qual, aliás, os portugueses não tem dinheiro nem seguro de saúde para recorrer.”
“Há uma falsa relação causa-efeito. O sistema vaia aumentar a produtividade dos médicos em mais uma, duas horas de trabalho por dia? Têm bloco operatório disponível? Podem contar com uma equipa de trabalho?”
(Link aqui)
 
O que eu temo é que Manuela Arcanjo nunca tenha ido a um hospital público. Porque este é o discurso de quem nunca na vida lá pôs os pés, talvez por via do tal dinheirinho necessário para o privado, ou do seguro de saúde que os portugueses não têm e que Manuela tem. A coisa não se resume ao bloco operatório; isso é atirar areia para os olhos do povo, e mesmo assim só daquele povo que tem o tal dinheirinho e o tal seguro de saúde. Seria interessante saber a opinião de Manuela Arcanjo caso tivesse uma consulta marcada num qualquer hospital público para as 8 e meia da manhã e o médico chegasse às 10 ou até depois, com os consequentes transtornos para a sua vida privada e profissional. Depois multiplique isso por muitos mil e veja os reflexos na produtividade e na vida económica do país.
 

Picar o ponto

por josé simões, em 03.01.07
Correia de Campos, Ministro da Saúde decidiu avançar com a colocação de relógios de ponto nos hospitais. A ideia ao contrário do que tem sido ventilado não é controlar os horários dos médicos, mas disciplinar os serviços hospitalares.
 
Até aqui nada de novo. A grande maioria, senão mesmo todas as empresas do sector privado, trabalham nessa base.
 
Mas os médicos, essa casta superior da sociedade, torce o nariz e, para começar, 19 directores de serviço do Hospital Pedro Hispano de Matosinhos, ameaçam com a demissão caso a medida seja implementada.
 
De que têm então medo os médicos? Para quem trabalha, é responsável e chega a horas, a medida em nada vai afectar, ou vai?
 
A este propósito, Pedro Nunes, Bastonário da Ordem:
 
“Este sistema não vai acrescentar nada ao bom funcionamento dos hospitais. Acabam por ser brinquedos inúteis. Os médicos são contratados não à hora mas para desempenharem um trabalho”.
 
E não só os médicos. Excluindo os “biscateiros”, toda a gente que trabalha e pica o ponto é paga ao mês. Quanto ao nada acrescentar ao bom funcionamento dos hospitais, duvido. Talvez a partir de agora, quem tem uma consulta marcada para as 8 horas da manhã passe efectivamente a tê-la à hora marcada e não uma ou duas horas depois, como é tradição.
E talvez assim, deixemos definitivamente de ouvir falar em horas extraordinárias que não são pagas. O médico passa a chegar a horas e, por consequência, a sair a horas também. Não tem de ficar uma, duas, ou mais horas no hospital, em serviço extraordinário, para compensar as que não trabalhou, por atraso seu e de mais ninguém.
 
Teresa Marçal da Ordem dos Enfermeiros:
 
“A Ordem não tem nada contra este tipo de sistemas”
 
Mas; o infalível mas,
 
“O que pretendemos é que os aparelhos sejam flexíveis, para que um profissional não tenha de interromper a meio o seu trabalho para ter de marcar a hora de saída”.
 
Os aparelhos devem ser flexíveis o suficiente para permitir ao profissional, quando for o caso, dar um salto ao consultório ou à clínica privada, ganhar uns cobres extra (que a vida está má para todos) e, depois voltar e acabar o que tinha começado.
 
Pois!