"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Um primeiro-ministro que fala de um país que não existe para um país que não se dá ao trabalho de o ouvir, com excepção daqueles que têm de escrever nos jornais e falar nas televisões sobre o que quer o primeiro-ministro diga. É o nosso drama, não é o drama de Luís Montenegro.
Podia a MEO fazer um comercial "espírito natalício" com uma família muçulmana, a filha a ser repreendida pelo pai por posar sem véu, a família falhar a festa da escola por motivos alheios, chegar no varrer da sala e ter o rebento à guarda de uma família "ocidental" que até partilha no grupo WhatsApp a representação a que os pais não assistiram? Poder podia, mas não era a mesma coisa. Porque era a islamofobia, o desrespeito pela diferença, que o multiculturalismo é bilhete só de ida. A propalada degradação da civilização ocidental começa precisamente aqui, na cedência sem retorno e da culpa interiorizada.
[Imagem de autor desconhecido]
O pormenor de um lado ser o pai que repreende e do outro ser a mãe que condescende é todo um programa.
Chega aquela altura do ano da direita [e de alguma esquerda] da caridadezinha levar à letra aquela máxima "Natal é quando o homem quiser", alínea a, excepto de 24 para 25 de Dezembro, 25 inclusive, e desatarem a abrir telejornais com os almoços e jantares solidários para os coitadinhos dos sem-abrigo e outros deserdados da sociedade, que os dias do advento são para a família, mesmo família a sério, que somos [são] todos irmãos e cristãos e o caralho mas calma lá com isso de almoçar ou jantar com um badameco qualquer que dorme no vão de escada. Houve um tempo em que os presidentes passavam a noite da consoada, ou da passagem de ano, com os operários de uma qualquer fábrica, para mostar solidariedade com aqueles que não têm dias nem noites porque o país não pode parar, ainda a questão dos "sem-abrigo" não se colocava, mas depois chegou Cavácuo, o Presidente do bolo-rei, o primeiro beato na primeira fila da igreja de goelas abertas para papar o Corpo do Senhor e a tradição caiu em desuso. Vão lá então este ano comer bacalhau fora da data e fora das horas e, oh! oh! oh!, já podem dormir descansados até à terceira semana de Dezembro do ano que vem.