"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Ainda sou do tempo em que os U2 eram magros e genuínos e que foi mais ou menos por entre 1980 com Boy e 1983 com o inaudível War, quem disser que o conseguiu ouvir de seguida da primeira à última faixa está a mentir, passando por 1981 com October, no tempo de tocarem para umas quantas centenas em Vilar de Mouros, que na sua grande maioria nem sequer lá tinham ido por eles, e no tempo em que não faziam "grandes músicas" para a RFM passar e as que eram realmente grandes iam parar ao Index.
Depois veio a cedência comercial The Unforgettable Fire, que a vidinha custa a todos, e é legitímo e cada um escolhe o caminho que quer trilhar e, fezada, logo no ano seguinte, na embalagem do sucesso global (Feed The World) Do they Know It's Christmas Time pela Band Aid, vem o Live Aid, que cai que nem ginjas numa juventude globalizada, a ressacar da new wave e do pop manhoso dos 80s, sem choque de gerações e órfã de grandes causas. Alimentou-se África e o 'Virgin Prune" frontman Bono, que já tinha perdido a virgindade e que de ameixa não tinha nada, rapidamente percebeu que quanto mais aparecesse e quanto mais desse a cara ao manifesto mais pingava. E foi um fartote. ONU, presidentes, ministros, governos, era ir a todas e até a Davos, Mandela, meter umas imagens fortes nos ecrãs dos concertos ao vivo e umas palavras do Dr. King, beija-mão papal, o Papa a beijar a mão a Bono, e era o "nosso" homem global, a "nossa" voz, o "nosso" líder a bater o pé às corporações, às marcas, aos donos do mundo Nem sei se não ganharam um Nobel qualquer, os U2 por interposta pessoa, o vocalista.
Alimentaram-se assim e engordaram os U2 e, como diz o pagode, "dinheiro puxa dinheiro" e como o dinheiro é sempre pouco e um músico não dura sempre, vai de retirar o dinheirinho da querida Irlanda e depositá-lo na Holanda, que isto é tudo Europa e a carga fiscal é mais baixa. E, como diz o pagode "dinheiro puxa dinheiro" e como o dinheiro é sempre pouco e um músico não dura sempre, vai de investir através de paraísos fiscais, que é tudo legal, não há aqui qualquer espécie de crime, não há aqui nada para ver, é circular, é circular.
Mas, como já são muitos anos a virar palcos e a fazer depósitos bancários e África saiu da agenda mediática e o mainstream não importuna nem políticos nem multinacionais, há que inventar uma bandeira para enfeitar os concertos, e o nacionalismo e o autoritarismo e o Steve Bannon e o Orbán e o Salvini estão mesmo aqui à mão, mesmo que se alimentem de apontar à opinião pública dos respectivos países os ricos e os poderosos que fogem a pagar os impostos nos países de origem e investem o pecúlio amealhado pelos labirintícos paraísos fiscais, de bandeira da união Europeia na mão e na lapela do casaco.
«O Nacionalismo, ou seja o narcisismo e a veneração nacionais é, sem dúvida, em todo o lado, um perigoso distúrbio mental capaz de deformar e distorcer o rosto de uma nação, tal como a vaidade e o egoísmo deformam e distorcem os traços de um indivíduo. Contudo, esta enfermidade teve um efeito particularmente destrutivo na Alemanha, sobretudo porque a essência mais profunda da Alemanha reside na largueza de visão, expansividade e, em certa medida no altruísmo. Quando o nacionalismo atinge outros povos, tudo se reduz a uma fraqueza acidental que não afecta as suas qualidades intrínsecas. Na Alemanha, porém, o nacionalismo mata os valores fundamentais do carácter nacional. Tal explica o motivo por que os Alemães – sem dúvida um povo civilizado, sensível e muito humano em circunstâncias normais – quando são atingidos pela doença do nacionalismo se tornam completamente desumanos e revelam uma fealdade animalesca, que não se observa em qualquer outra nação. Só eles perdem tudo por causa do nacionalismo: a essência da sua humanidade, da sua existência, deles próprios. Esta doença que nos outros só afecta o comportamento, neles corrói-lhes a alma. Um francês nacionalista pode eventualmente permanecer um francês muito típico e, quanto ao resto, muito simpático. Um alemão que sucumbe ao nacionalismo deixa de ser um alemão; é apenas quanto muito uma pessoa. O resultado cifra-se num Reich alemão, talvez mesmo num grande império alemão ou um império pangermânico e na consequente destruição da Alemanha.»
Sebastian Haffner, “História de Um Alemão, Memórias 1914 – 1933, O que conduziu a Alemanha à loucura do nazismo?”, Publicações Dom Quixite, 2004.
“(…)hay que dar la vuelta al cliché de que la identificación étnica apasionada restablece un firme sistema de valores y creencias en la confusa inseguridad de la sociedad mundial laica de hoy: el fundamentalismo étnico se apoya en un secreto, apenas disimulado, "¡Podéis!". La sociedad posmoderna y reflexiva actual, aparentemente hedonista y permisiva, es paradójicamente la que está cada vez más saturada de normas y reglas que supuestamente están orientadas a nuestro bienestar (restricciones a la hora de fumar y comer, normas contra el acoso sexual...), de modo que la referencia a una identificación étnica apasionada, en vez de contenernos, sirve de llamamiento liberador: "¡Podéis!". Podéis infringir las estrictas normas de la convivencia pacífica en una sociedad tolerante y liberal, podéis beber y comer lo que queráis, asumir costumbres patriarcales que la corrección política liberal prohíbe, incluso odiar, luchar, matar y violar... Sin reconocer plenamente este efecto pseudoliberador del nacionalismo actual, estamos condenados a no poder comprender su verdadera dinámica.”
Slavoj Zizek, filósofo esloveno, a ler hoje no El País