"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
10 000 casas num ano. Leram bem, 10 000 casas num ano, contando que este Governo é o Governo anterior a este, com um interregno para campanha eleitoral e eleições. E este ritmo de construção nem na China. Mentira e propaganda ou, como diz o pagode, "com as calças do meu pai também eu sou um homem".
Miguel Pinto Luz, o secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações que em 2015 vendeu a TAP a custo zero na vigésima quinta hora, aparece em 2025 como ministro das Infraestruturas e Habitação a afiançar que a TAP não vai ser vendida ao desbarato.
Como reza a lenda, laboriosamente construída nos espaços de comentariado nos jornais, nas rádios e nas televisões, o Governo patriótico que teve a hercúlea tarefa de tirar o país da banca-rota e de restaurar a credibilidade de Portugal no mundo e aos olhos dos mercados, antes do primeiro-ministro, Passos Coelho, saber que um dia ia ser sonhado para Presidente da República, antes da ministra das Finanças, Maria Luís, ser entronizada comissária europeia pela sua mui grande experiência e sentido de responsabilidade, antes do secretário de Estado, Pinto Luz, saber que mais à frente iria ser o ministro com a pasta nas unhas outra vez.
Andou o Ministério Público quatro anos a pescar à linha na linha de telefone do João Galamba, andou um parágrafo manhoso a ser martelado entre uma ida e uma volta da Procuradora ao palácio do Marcelo, foi um presidente de câmara detido por ter pedido a uma empresa privada apoios para o futebol juvenil da cidade.
Ninguém se demite, continuam a andar por aí fresquinhos que nem alfaces, a pátria foi salva do socialismo, o Galamba fuma ganzas, soube-se pelo Correio da Manha, sem til, que teve acesso às escutas em primeira mão, o Pinto Luz não é motivo de ira entre os M&M's laranja - Marcelo e Monetenegro.
Toda a gente com um mínimo de formação sabe que as cidades com história, em geral, e a cidade de Lisboa, em particular, cresceram a partir do centro, na base do turismo, dos alojamentos locais, e de lojas de artesanato diversas, que a partir de uma determinada hora as ruas ficam vazias de gente e não se vê vivalma, que os conceitos "lisboeta", em particular, e "bairrismo" e "tradição", no geral, são uma invenção ideológica, que os verdadeiros cidadãos, em geral, e os "alfacinhas", no particular, viviam fora das cidades, é por isso que em algumas cidades ainda é possível encontrar vestígios de muralhas e nalgumas até muralhas completas, desde esses tempos áureos, da divisão dos cidadãos genuínos, nos guetos, e dos cidadãos fake, os que fazem a cidade renovar e prosperar, no centro, sendo que a questão da mobilidade nem se colocava, não havia o caos do trânsito como nos tempos que correm, o tempo tinha outra velocidade e outro ritmo, uma pessoa metia-se rapidamente em qualquer lado a cavalo num burro, numa carroça ou até mesmo a penantes.