"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Sem comentar os pedidos de demissão da ministra da Saúde por parte da oposição, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP admitiu que também Ana Paula Martins, "se entender", poderá dar "uma palavra de explicação" sobre estas mortes
"Se entender" porque uma ministra tem mais que fazer que andar cá a perder tempo com minudências de mortes de cidadãos e dar explicações a quem governa, era o que mais faltava.
É este o nosso, deles, homem que querem ver em Belém, o pior que os 50 anos do 25 de Abril produziram, o compadrio, o amiguismo, o clientelismo, a promiscuidade entre política e empresas privadas, governar a vidinha, fazer um jeito a este, fazer um jeito aquele, cuidar dos seus, amanhã podemos precisar e somos uns para os outros. Sempre com o parlapié do "interesse público". E as pessoas votam nisto. Fantástico.
Não há qualquer incompetência na actuação da ministra da Saúde, do primeiro-ministro, do Governo, estão a trabalhar bem, estão a ser extremamente competentes no objectivo de desmantelar o Serviço Nacional de Saúde. Os paridos na beira da estrada e os mortos à espera de ambulância têm um nome: danos colaterais.
Parem de pedir a demissão da ministra da Saúde, por falta de "autoridade política", o que quer que isso signifique, e por incompetência. Da "autoridade política" tem o aval do chefe do governo, o primeiro-ministro, a competência tem toda a que lhe foi pedida: desmantelar o Serviço Nacional de Saúde, tal como o conhecemos, para o repartir pela clientela política e partidária.
Resumo da entrevista da alegada ministra da Saúde na televisão do militante n.º 1: "Deixe que lhe diga uma coisa". Puxem a box atrás e contem as vezes que disse "deixe que lhe diga uma coisa" para não dizer coisa nenhuma. Quando a incompetência encontra a sonsice.
[É que se calhar Rodrigo Guedes de Carvalho convidava-a para não a deixar dizer nada...]
O governo que em três meses ia resolver todos os males de que o Serviço Nacional de Saúde padece esconde a sua incompetência e falta de qualidade nas nomeações para cargos chaves, ao abrigo do amiguismo e do cartão do partido, com uma alegada incapacidade de quem está no terreno a dar o melhor de si contra a permanente falta de meios e o garrote da tutela.
Questionado sobre o prometido fim da invasão russa da Ucrânia em 24 horas Donald Trump respondeu que estava a ser sarcástico, a Luís Montenegro já ouvimos dizer que nunca tinha dito aquilo que todos o ouvimos dizer, que ia resolver os problemas do SNS em 90 dias. Há aqui um padrão, o da mentira e do embuste para chegar ao poder.
Louvo, por proposta da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, o Tenente-Coronel, médico, 12204597, António João Sant’Anna Gandra Leite d’Almeida, pela forma excecionalmente dedicada e competente, bem como pela nobre conduta, integridade e profissionalismo com que exerceu as suas funções como diretor da Delegação Regional Norte do Instituto Nacional de Emergência Médica entre 2021 e 2024. [...].
Parece-me manifestamente pouco para alguém com o dom da omnipresença e que, mal grado uma incapacidade atestada de 60%, consegue estar em vários locais ao mesmo tempo, separados por centenas de quilómetros, a desempenhar quatro funções diferentes. Tem dois apóstrofos no nome, há-de haver alguém capacitado para, cientificamente, estabelecer esta correlação.
"O Governo refez as contas do Orçamento do Estado previsto para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o saldo apresentado inicialmente como positivo é afinal negativo. O prejuízo será superior a 217 milhões de euros". Como, porque, porquê, a equação "Positivo - Neutro - Negativo" é aplicada a um serviço público tendencialmente gratuito? É todo um programa político onde só há um perdedor, o suspeito do costume, conhecido como "cidadão", ou "contribuinte", se bem que a melhor de todas, ainda que nunca invocada, seja "eleitor".
[Imagem "Britain's Prime Minister Margaret Thatcher and President Ronald Reagan share a laugh during a break from a session at the Ottawa Summit on July 21, 1981, at Government House in Ottawa, Canada"]
Para a alegada ministra da Saúde onze mortos não é o que correu mal é "o que correu menos bem". O governo com mais incompetentes por m2 na história da democracia é exímio na novilíngua. Onze mortos no currículo não é de uma ministra, é de uma serial killer. Mas podemos morrer todos descansados à espera da ambulância que a pedido de um partido que não existe - o CDS, enquanto o Diabo esfregava o INEM os meninos continuaram a ter a papeleta azul e as meninas a cor-de-rosa, coisa que apoquentava os portugueses.
A morte de uma grávida a caminho do hospital numa ambulância motivou a queda de uma ministra, depois de dezenas de horas com directos nas televisões e intermináveis comentários de especialistas - do palerma Ferrão ao chalupa Zé Gomes passando pela picareta falante mano Costa, sobre a degradação do Serviço Nacional de Saúde, o caos nos hospitais e o caralho. Isso foi antes do dia 21 de Março de 2024. Depois foi-se embora a irresponsabilidade socialista e veio o "sentido de Estado" AD. Agora morrem seis pessoas à espera de uma ambulância no espaço de uma semana e é o Amorim no Manchester, o dilúvio universal em Valência, interrompido pela goleada dos lagartos ao City, é as eleições na América e o regresso do homem cor-de-laranja. Montenegro, agora alçado ao poder, diz que "não temos a certeza de que as mortes foram causadas por falta de assistência", ele que na oposição tinha a certeza de tudo e de mais alguma coisa e até em três meses ia resolver a coisa de que tinha a certeza. Marcelo II, de cognome O Velhaco, na FOX News, também conhecida por SIC Notícias, para os pés de microfone, escolhidos a dedo pelo menor coeficiente de inteligência para desempenharem a função de jornalista, sai-se com um "eu não gosto de falar de problemas específicos da governação" . A puta da lata! Ou não ter a puta da vergonha na cara é isto. Só morreram seis pessoas à espera de uma ambulância, "qual é a pressa?", como diria o outro que agora se olha ao espelho e se vê com cara de Presidente . Ainda se fosse um badameco qualquer à sopapada dentro do ministério do Galamba na ausência do ministro, aí o caso já piava mais fino e motivava uma saída do velhaco para comunicar um ralhete ao Governo na abertura do telejornal. Isto não é a morte de seis cidadãos, isto é a morte da decência. Da decência em política e da decência em jornalismo.
Luís Montenegro mentiu, Paulo Rangel mentiu, Carlos Moedas mentiu, como antes tinha mentido a ministra da Saúde, e como antes tinha mentido o ministro da Educação. Isto não é um Governo, isto não é um presidente de câmara, isto não é um partido, isto é um episódio do Pinóquio.
Em apenas 24 horas a lista dos doentes oncológicos a aguardar por cirurgia fora dos tempos máximos de resposta garantidos baixou de 9 000 para 2 300. Deve ser isto a que Leitão Amaro chama "governar com muita intensidade", o que nos tempos da "pós-verdade", assente nos pés-de-microfone dos media obedientes à agenda, não deixa de ser um feito assinalável.
[Imagem "Federico Fellini on the set of Satyricon" phorographed by Mary Ellen Mark, 1969]
"blah blah blah... aaa... blah blah blah... aaa... blah blah blah... aaa...", nunca tínhamos visto a dona Marta Temido tão temida e enrolada no próprio discurso. António Costa, chegado há bocado de Neptuno, e que não é primeiro-ministro há quase cinco anos nem pouco mais ao menos, reconheceu que "há um problema no Serviço Nacional de Saúde". É um bom começo de conserva, perdão, conversa, conserva, or ever, para a "comissão de acompanhamento" que o Governo vai nomear, e que, na velhilíngua, significa que o Governo se está a borrifar para o assunto e vai deixar empastelar a coisa durante uns meses, até o pico das festas com feriados e as férias de verão passarem. Na melhor das hipóteses uns anos até se voltar a falar nisto outra vez. A dona Marta Temido diz que o Governo, que não abre a mão do dinheiro dos contribuintes para pagar decentemente aos profissionais de saúde, está disponível para estudar acordos com privados. Foi você que pediu uma maioria absoluta e um Orçamento de Estado mais à esquerda desde que existe Orçamento de Estado e esquerda?
Marta Temido, de ministra a remodelar [Schnell! Schnell!] a candidata à sucessão de António Costa na liderança do PS. A qualidade dos nossos analisadores comentadeiros televisivos é qualquer coisa.