"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Setembro de 2012, Julho de 2025. Treze anos separam estas duas primeiras páginas, dois ministros da educação de governos coligação PSD/ CDS. Como o inteligente das barbas continua a aparecer nas televisões, com a maior candura a comentar o estado da escola pública em Portugal, e como a ideia parece ser Make Troika Great Again, o Álvaro regressado, a legislação laboral que se cozinha, e que a UGT vai assinar por baixo, talvez mandar este senhor para a UNESCO seja o prémio merecido.
"Quem sabe faz, quem não sabe ensina" e quem não sabe ensinar vai para professor de Educação Física. Durante o PREC havia oficiais do exército nas aulas de 'ginástica' e formados em Direito nas de Português, por exemplo. E o PREC só já voltava nas efemérides.
Há que dar às famílias a opção pela escola e pelos que professores que querem para si e para os seus filhos, pelos currículos que querem que sejam ministrados, desde que o Estado entre com o dinheiro dos impostos dos contribuintes para financiar a livre escolha das famílias, ainda que em zonas onde há escola pública gratuita, e ainda que a livre escolha das famílias não seja mais do que uma selecção efectuada pelas escolas aos filhos de famílias que pretendem nas turmas.
E sim, é uma questão de benefício e privilégio, é uma questão de falta de respeito pela liberdade de todos, pela democracia e pelo bem comum e por quem, com o esforço do seu trabalho e com o dinheiro dos seus impostos, financia dois sistemas de ensino paralelos e só tem acesso a um, o ensino público que, na "malabarice" dos rankings das escolas, concorre em desvantagem com o ensino privado, financiado pelo dinheiro dos contribuintes, especializado em fabricar alunos para fazerem um figurão em exames e provas várias e nada mais do que isso – sacos de vento do conhecimento.
[Imagem "Queensbridge housing project in Queens, New York" by Arthur Rothstein, June, 1942]
Todos os dias, religiosamente às 10:30 a. m. , toca a sirene nas fábricas e nos escritórios e uma voz marcial convoca todos os trabalhadores colaboradores para a ginástica laboral.
Podem tirar Nuno Crato do maoísmo mas o maoísmo nunca há-de sair de nuno Crato.
Nuno Crato, o éme-éle do fascismo e do social-fascismo e da burguesia a abater e do "materialismo dialéctico" como instrumento de trabalho para compreender e interpretar a sociedade, deu nisto, no estímulo à "elite burguesa" e no fomento da exclusão e das desigualdades sociais.
Tudo está a venda, tudo é comerciável e negociável, e tudo se pode regatear, desde que seja público.
Alínea a) Com excepção da dívida pública
Alínea b) Com excepção dos contratos PPP
Alínea c) Com excepção das rendas ao sector energético
Alínea d) Com excepção do financiamento aos colégios privados com contrato de associação que, ao contrário do que previa o memorando de entendimento com a troika, viram a verba do Orçamento do Estado aumentada.
O Governo a brincar ao "ir às compras a Marrocos" com o dinheiro e a educação dos portugueses:
"Uma das novidades presentes na proposta é o chamado "factor de eficiência" que premeia as câmaras que trabalhem com um número de docentes inferior ao tido como necessário para o respectivo universo escolar.
Assim, num município em que o número de docentes necessários seja, por exemplo, de 400, mas em que o número real de docentes seja 399, a autarquia passaria a receber um "prémio" de 12.500 euros por ano lectivo. Isto assumindo que esse docente custaria por ano ao ministério 25 mil euros, o custo estimado para um professor em início de carreira.
Quando uma das justificações do actual Governo da direita para a redução do número de professores contratados pelo Estado, aumentar o número de alunos por turma, reduzir o número de auxiliares de educação, é a de que o número de alunos a frequentar o ensino público é cada vez menor, importava perceber se a diminuição de candidatos ao ensino superior é consequência directa da diminuição de alunos no ensino secundário, e que justifica o desinvestimento na educação, mais propriamente no ensino público, ou se esta diminuição é simplesmente a consequência directa da política de 2 anos de coligação PSD/ CDS-PP, geradora de 1 milhão de desempregados, 50 mil novos emigrantes – oficialmente contabilizados, redução de salários – directamente ou indirectamente, redução e eliminação de subsídios e apoios sociais.
É que este Governo é bom, muito bom, a fazer contas de subtrair, e o filho do doutor é doutor e o filho do operário é operário e que se fodam, assim sucessivamente, como diria o João César Monteiro. Déjà vu.