"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Diz Marques Mendes que defende um consenso entre o Governo e a UGT no negócio do pacote laboral, e isto é algo absolutamente fantástico. Um sindicato dos trabalhadores colaboradores do Parlamento, que se queixou do assédio dos deputados do partido da taberna, foi desvalorizado por ser um sindicato minoritário, já a UGT, central ultra minoritária, representativa dos poucos trabalhadores dos bancos e seguros, é óptima para negociar um pacote laboral que se aplica a todo o universo laboral, do Minho ao Algarve, ilhas adjacentes incluídas.
Marques Mendes, caso seja eleito, vai ser, não o Presidente de todos os portugueses mas o Presidente dos portugueses filiados na UGT.
A verdade é que António José Seguro desistia a favor de Luís Marques Mendes, ou Luís Marques Mendes a favor de António José Seguro, tanto faz, até podiam decidir quem desistia a favor de quem por "um-dó-li-tá", e só se estragava uma casa.
Em entrevista à televisão do militante n.º 1, a Clara de Sousa, o pé de microfone que durante anos o deixou papaguear sem contraditório que não fosse contradizer-se na semana a seguir ou dar o que disse por o que não disse, Luís Marques Mendes, o pior que o sistema político democrático pariu, candidato nas presidenciais de 2026, quer o Governo a negociar o 'pacote laboral', o maior ataque aos trabalhadores desde o 25 de Abril de 1974, com a UGT, uma central "democrática" e "responsável" e outras coisa terminadas em ável, segundo o ilustre. Em linguagem das fábricas, sítio onde a UGT não mete os chispes, uma merda inventada por Mário Soares e Sá Carneiro, com a desculpa da 'unicidade sindical', para assinar por baixo a agenda dos patrões. Since 1978, em prol da rigidez patronal. Votem nesta coisa e depois queixem-se.
Um dos maiores broncos que o sistema das jotas partidárias já criou - Duarte Marques, é director de campanha para as presidenciais de 2026 do símbolo máximo do aparelhismo, do clientelismo, do oportunismo, dos partidos e do Estado ao serviço de interesses privados - Marques Mendes.
No dia a seguir ao PSD de Luís Montenegro ter declarado apoio a Marques Mendes, Rui Rio, ex líder do PSD, por duas vezes alvo de tentativa de "golpe de Estado" pelo actual líder e primeiro-ministro, aparece como mandatário da candidatura de Gouveia e Melo [cá se fazem cá se pagam, há mais marés que marinheiros], o almirante anti-sistema, apoiado e financiado por gente de fora do sistema, que vai desde Mário Ferreira a Ângelo Correia passando por Isaltino Morais e Ribeiro e Castro, até ao mais velho de todos, o coveiro do CDS, também conhecido por Chicão.
No PS um homenzinho, responsavelzinho, educadinho, bem engomadinho, cheiinho de "sentido de Estado", vai ser entronizado líder, para dizer que sim e abanar o rabo ao PSD de Luís Montenegro, com a bênção de um velhaco em fim de mandato no palácio de Belém [praise the Lord!], enquanto produz um panhonha desenxavido que meteu na cabeça poder ser Presidente da República - Seguro, Tozé.
Na Miguel Lupi em Lisboa, o Joker ri-se, que é para isso que foi criado.
Juntar numa mesma mesa de almoço ódios de estimação, que passaram a vidinha a conspirar uns contra os outros, a apunhalarem-se pelas costas para se alçarem ao poder, cada um com a sua clientela atrás, a conjurar e a atraiçoar o partido em favor do próprio umbigo, é uma má imagem da cada vez mais má imagem da política e dos políticos, e um mau serviço à coisa pública.
Um pantomineiro, até há poucas semanas comentador dominical sem contraditório na televisão do militante n.º 1, fala "dos perigos de um Presidente da República sem experiência política". A democracia foi devolvida aos portugueses há 51 anos por militares sem experiência política. E uma democracia plena nunca pode ser redutora ao ponto de ter alíneas implícitas para militares, com ou sem experiência política. Nem sequer para quem enferma de todos os vícios adquiridos por 50 anos a vegetar na política. Mas isso ele sabe.
Luís Marques Mendes, 67 anos de idade, desde os 19 na política, na liderança do PSD entalado entre dois ineptos - Santa Lopes e Luís Filipe Menezes, na apresentação da sua candidatura à Presidência da República num auditório com o nome de seu pai, Doutor António Marques Mendes [quem é o padrinho que mete "Doutor" a um afilhado no dia do baptismo?] a ler um rol de intenções para regenerar a política como se fosse candidato a primeiro-ministro e como se tivesse chegado há bocado. Diz que entregou hoje mesmo o cartão do partido e que a partir de agora Marques Mendes saiu do PSD e o PSD saiu de Marques Mendes. Estamos conversados.
Na televisão pública, o taberneiro, assumido primeiro candidato presidencial para 2026, teve mais tempo de antena para comentar a na véspera anunciada candidatura de Marques Mendes que o próprio Marques Mendes. Um dia como outro qualquer na televisão.
Na despedida da avença semanal na FOX News do PSD televisão do militante n.º 1, Marques Mendes afiançou que respeitará o veredicto dos portugueses no dia a seguir às eleições presidenciais. No shit?! E a gente a pensar que ele ia assaltar o Capitólio...
So far, Mário Centeno, Marques Mendes, Tozé Seguro, agora Santana Lopes. Não se percebe como é que o almirante ganha a todos com uma perna as costas nas intenções de voto, não se lhe conhece "o pensamento político", dizem. Não lhes ocorre que ganha a todos, enquanto limpa o cu a meninos, precisamente por isso, por toda a gente conhecer os outros de ginjeira.
O nome de Leonor Beleza é chutado para cima da mesa das presidenciais e ninguém se lembrou de ir ouvir a Associação Portuguesa dos Hemofílicos. Como dizia o outro, "há muita fraca memória na política".
O ministério das polícias é assaltado e o segurança, de uma empresa privada, não dá por nada. O ministério das polícias tem segurança privada. E tudo isto é normal porque, como dizia o outro, "há Estado a mais na vida das pessoas" e se calhar também dentro do Estado, e outro, amigo dele, remata "o liberalismo faz falta".
Pior que Marques Mendes ser aventado para candidato a Presidente da República é Marques Mendes ele próprio se achar candidato a Presidente.
No país de Marcelo, com um ele, nomeado em homenagem a Marcello, o dos dois eles, ao domingo e em horário nobre, dois ex líderes dos dois partidos que constituem o Governo, explicam à bovinidade a bondade das políticas governativas.