"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Bolsonaro alegou alucinação, delírio, paranóia, ter ouvido vozes, como justificação para tentar abrir a pulseira electrónica que lhe foi imposta pelos tribunais pela tentativa de golpe de Estado após ter sido derrotado nas urnas; Pedro Frazão alegou sentimento de insegurança para deixar o carro estacionado em cima da linha do eléctrico, enquanto foi gravar mais um video para o TikTok a insultar os monhés, apesar de mesmo ali por baixo haver um parque de estacionamento, com segurança, por acaso um dos com a tarifa mais baixa de Lisboa, e apesar do sentimento de insegurança não o ter impedido de deixar os haveres dentro do carro à vista de toda a gente, monhés incluídos.
A arte destes artistas não consiste em dizer todas as merdas que lhe vêm à boca ou lhe passam pela cabeça por mais estapafúrdias que sejam para justificar o injustificável, que merdas da boca para fora e coisas sem nexo toda a gente consegue dizer sem um mínimo de esforço. A arte destes artistas consiste em conseguirem arregimentar um rebanho de acéfalos e alucinados que são capazes de jurar que as pedras da calçada são de samaúma se isso lhes for dito pelos chico-espertos que os lideram.
Luís Montenegro não tira a gravata preta do pescoço desde o dia em que foi beber imperiais com Marcelo no Algarve, com a imprensa devidamente avisada, estava metade do país a arder. Se calhar vale pelos mortos Serviço Nacional de Saúde, que "está melhor que no tempo do Costa".
Não querem aproveitamento político disto os gajos que se estão a aproveitar politicamente disto e que sem pudor se aproveitam politicamente de tudo desde que lhes dê jeito. Tempo houve em que um desonesto chamado Carlos Moedas pediu a demissão de Fernando Medina, presidente da câmara de Lisboa, por causa de uma lista com nomes ucranianos na embaixada russa. Alçado ao poder na Praça do Município tratou de promover o responsável pela elaboração e entrega da lista.
A direita é isto, quando confrontada com a sua incompetência esconde-se na religião. Passos Coelho tinha um crucifixo no bolso, Procissão Cristas rezava para chover, quatro milhões desviados da Carris para a Web Summit valem uma missa na igreja de S. Domingos.
Pantomineiros, vigaristas, mentirosos, trafulhas, desonestos. É uma história antiga esta, a da direita na missa.
Carlos Moedas esteve uma hora à espera da abertura dos telejornais para dizer que está muito consternado, que lamenta, que está em permanente contacto com o Presidente da República e com o primeiro-ministro, que coisas de descarrilamentos e acidentes na Carris são pelouros destes dois camaradas de partido, titulares de outros órgãos de soberania. Não disse nada Carlos Moedas assim como nada disse o vereador da mobilidade e transportes, se calhar não há. Marcelo, que uma vez chegou mais rápido que o INEM ao descarrilamento do 25 na Rua de São Domingos, desta ficou por casa, que encontros com Moedas só por acaso, em campanhas eleitorais, de visita a feiras do livro. Entretanto Moedas é convidado pelo primeiro-ministro para participar no Conselho de Ministros já agendado, que é coisa que está toda ligada, Conselho de Ministros - elevador da Glória - Carlos Moedas - eleições autárquicas. Começou ontem a campanha eleitoral em Lisboa. Caiu-lhe um descarrilamento no regaço, é o que há.
Desde este lugar sem história, Até um lugar na história, Vão apenas dois minutos, No elevador da glória
Quando familiares e vítimas estrangeiras do descarrilamento do elevador da Glória descobrirem a rapidez da justiça portuguesa, as poupanças com manutenções, o outsorcing, e outras maneiras de alguém ganhar ganhar dinheiro que é de toda a gente, vai ser um belo cartão de visita para Lisboa e para o país. Bem pode o xerife wannabe Moedas gritar por mais polícia na rua para desviar as atenções dos lisboetas, e desviar turistas de Lisboa. Espectacular passar férias numa cidade sem polícia onde o crime anda à solta na rua, é o "mayor" quem o diz a toda a hora.
Tony Carreira, Cristina Ferreira, meio Governo e Paulo Portas, na apresentação oficial da candidatura de Carlos Moedas. Conseguir juntar o pior da música, o pior da televisão, o pior da política. Chapéu!
Carlos Moedas não pediu uma reunião com carácter de urgência ao ministro das Infraestruturas e Habitação devido à explosão de bairros de barracas na Grande Lisboa, um problema real e urgente a que o poder político tarda em dar resposta. Não. Carlos Moedas pediu uma reunião com carácter de urgência à nova ministra da Administração Interna devido à situação de insegurança e violência vividas na cidade, um problema que não existe, constantemente desmentido pelos relatórios e pela chefias das várias polícias. O título do post é roubado ao livro do outro porque a direita sempre foi excelente em manipular percepções para esconder a realidade fruto da sua incompetência.
Circula por aí um clip onde Maria João Avillez, alegada jornalista, questiona Ricardo Costa sobre a oficialidade [veracidade] dos números apresentados pela polícia que deitam por terra a teoria da direita, cada vez mais radical, da insegurança pela percepção, "um relatório estranhíssimo". E a senhora por lá vai continuar, em horário nobre, a deturpar realidades e a truncar informação, como diria o outro, a torcer a estatística até que ela diga o que a dona Maria João quer que seja dito. E não, isto não tem nada a ver com liberdade de expressão. E não, isto não tem nada a ver com cancelamento. Isto tem a ver com sanidade e rigor, porque a seguir vamos ter, também em horário nobre, um chalupa anti-vacinas, um terraplanista, ou um criacionista, a questionarem todo edifício cientifico que nos trouxe até ao séc. XXI, o retrocesso civilizacional pela casa dentro desde a caixa da televisão. Por coincidência, e só por coincidência, todos na órbita da direita política.
Na melhor das hipóteses Carlos Moedas vai ficar para a história como o personagem que matou a galinha dos ovos de ouro, o grande destruidor de emprego e de riqueza em Lisboa, e por arrasto nas regiões adjacentes. Ninguém no seu perfeito juízo quer viver ou passar férias numa cidade cujo "mayor" constantemente a apresenta ao mundo como violenta e perigosa, uma terra sem lei "a oeste de Pecos", a necessitar de um patrulha da polícia em cada rua, de uma CCTV em cada esquina.
O "fenómeno" Moedas devia servir para o PS parar, fazer introspecção, autocrítica, a [dimensão da] porcaria que fizemos [fizeram] para um inepto e incompetente, mentiroso e propagandista, chegar a presidente da câmara de Lisboa. Infelizmente não é isso que vai acontecer.