"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Um grupo de guineenses é suspeito de ter morto um português à facada em Lisboa e um grupo de portugueses é suspeito de ter morto um cabo-verdiano à paulada em Bragança. Um é objecto de comunicados de partidos políticos a preto-e-branco e de organizações de combate ao racismo e de manifs várias convocadas e várias cidades do país. O resto do pagode vai trabalhar de manhã para chegar à noite a casa e espera que a justiça seja feita, funcione, e que a ida e o regresso do trabalho continue a ser um trajecto seguro.
Esta histeria coisa no século XXI da Web Summit mais dez em Lisboa Portugal são os anos 60 e 70 do século passado com os países do norte da Europa nos têxteis, com as marcas pré-globalização, na indústria do norte do país pelos baixos salários e incentivos ficais dados pelo Estado. Antes pelo contrário, espero que finados os dez anos negociados a Summit leve sumiço daqui para fora e não fique por aqui mais cinquenta.
Os gajos que nos 80s gastavam rolos de fita Kores a escrever nas suas máquinas Adler, Brother, Olivetti, Olympia, etc, textos para páginas inteiras do O Independente e o Se7e com a loucura que era o "Madrid me mata" e que rapidamente deram de frosques para Madchester, mais inacessível, não havia low cost, que as elites não se dão com as manadas de povo que leu o que escreveram, e que de lá teclavam os fins-de-semana no La Haçienda, são exactamente os mesmos gajos que em 2019 enchem páginas do Gmail, para as redacções dos jornais que restam, com a Lisboa insuportável dos turistas. Como diriam os camaradas brasileiros, movida no cu dos outros para mim é refresco.
[O facto de no Portugal de 2019 serem os mesmos dos 80s a escrever nos jornais, agora velhos e ressacados, diz muito sobre o reino do jornalismo nacional]
Declaração de princípios: subscrevo na íntegra o manifesto e acho que a dupla Fernando Medina - Manuel Salgado a longo prazo vai ser mais perniciosa para a cidade que a de má memória Krus Abecasis - Tomás Taveira.
Só fecha para férias em Agosto quem tem obrigatoriamente de fechar em Agosto. Por exemplo as fábricas, as famosas "paragens", para manutenção, substituição e reparação. Assim é só um caso de administração, gestão e organização. Má.
Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, sempre com a boca cheia do peso do transporte pessoal privado na cidade e nas emissões de carbono e do incentivo ao transporte público e nos passes sociais subsidiados pelo contribuinte seja ou não morador e/ ou trabalhador na cidade e na defesa do planeta e da qualidade de vida das cidades, utiliza que meio de transporte para chegar diariamente ao trabalho?
Jorge Sampaio, por exemplo, ia de autocarro e ainda devem haver por aí reportagens nos arquivos das televisões onde é visto a ir a pé da Rua Padre António Vieira para a Praça do Município, e Boris Johnson, também por exemplo, imagem de marca de bike para a Mansion House em Walbrook.
E depois, ao dia útil e à data em que escrevo, Sesimbra tem 27 ligações por autocarro a Lisboa [13 idas e 14 voltas] e Palmela tem 34 [17 idas e 17 voltas]. Fazendo as contas a uma média de 55 passageiros por bus e, partindo do princípio que vão todos cheios e atendendo a que Sesimbra não tem comboio [o resto do país também não mas isso é outro capítulo] e ao peso que esses passageiros têm no bolo global das dezenas de milhar de passageiros que se movimentam diariamente na Área Metropolitana de Lisboa, a gente percebe a "bondade" do valor a pagar pelos respectivos passes aparecer a abrir as notícias. Meter as pessoas de Sesimbra, Palmela e Pinhal Novo a subsidiar os transportes públicos de Lisboa em nome do valor do passe pago pelas pessoas de Sesimbra, Palmela e Pinhal Novo é uma ideia simplesmente genial.
Não lhes ocorreu avançar com o preço de um passe de autocarro entre Alcácer do Sal e Setúbal, ou entre Mértola e Beja, ou entre Montemor-o-Novo e Évora, que a "paisagem" não é para aqui chamada a estragar a imagem de Lisboa.
Mas se calhar há uma explicação lógica para tudo isto. Não passando pela cabeça de ninguém que a ideia não tenha sido previamente concertada entre António Costa e Fernando Medina, como a reacção foi adversa às reacções dos avençados de serviço às redes e que foram desde as auto-estradas, hospitais, escolas e universidades no resto do país pagas por Lisboa [juro, está no Twitter], até à solidariedade que é exigida aos países ricos do norte da Europa para com os pobres do sul e que não tem correspondência neste caso concreto que é o de meter os miseráveis do Alentejo a pagar o passe social aos ricos de Lisboa [juro, está no Twitter], até à Lisboa, criadora de 70% da riqueza produzida pelo país, mãos largas a distribuir por Setúbal, Aveiro, Braga, distritos onde as empresas desenvolvem a sua actividade económica e que, para o bem ou para o mal, arcam com as consequências ambientais e o desemprego provocado pelas sucessivas crises, económicas e sociais, o dinheiro que Lisboa arrecada por ser a cidade onde as empresas têm a sua sede fiscal [juro, está no Twitter], entrou em campo o ministro do Ambiente, magnânimo e abrangente.
O sonso, que se queixa do êxodo provocado pelo alojamento local que, a pouco e pouco, vai transformando Lisboa num parque temático, depois de muito esmifrado e apertado por toda a gente, deixa cair que é o arrumador de carros de Madonna, pelas moedas que recebe em troca do serviço prestado, privilégio que não concede aos indígenas que ainda resistem ao êxodo, porque a rainha da pop é bom cartaz, que atrai mais turistas a Lisboa, que fomentam o alojamento local, que pressiona o êxodo. O nacional-parolismo em todo o seu esplendor.
Dois dias seguidos de telejornais e de primeiras páginas e de reportagens e de entrevistas de rua sobre uma pastelaria histórica de Lisboa que vai deixar de vender a bica a 1 €, em pé ao balcão, e imperial a 3 €, na esplanada. Coisas que passam ao lado de 10 milhões e meio de portugueses, quando não se estão mesmo a borrifar, a marimbar, a lixar, com éfe grande, lisboetas incluídos, para a dita Suíça, mesmo aqueles que alguma vez tinham ouvido falar dela. A seguir vão fazer reportagens e abrir telejornais e fazer primeiras páginas e entrevistas de rua sobre, por exemplo, as dezenas de lojas históricas que fecharam na baixa de Setúbal nas duas últimas décadas.
[Na imagem de Américo Ribeiro a "Casa das Manteigas" na Rua Doutor Paulla Borba, antiga Rua dos Ourives, em Setúbal]
Depois da aula prática sobre a lei da oferta e da procura a Câmara de Lisboa devia agora adoptar o sistema de sorteio onde, por coincidência, ou por sorte, como quiserem, duas casas saem a dois membros da mesma família ou aqueles que toda a gente já está à espera que saia.