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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Salazar

por josé simões, em 04.12.07
Onde se recupera um texto assinado por José Manuel dos Santos e publicado no caderno Actual do Expresso de 24 de Novembro. Reza assim:
 
“Qualquer salazarista que olhe à sua volta conclui, com facilidade e desencanto, que afinal Salazar não está na moda. O que está na moda é dizer-se que Salazar está na moda. Um concurso de televisão, cujo escrutínio teve a fidedignidade das eleições do Estado Novo, não chega para o pôr na moda. Nem sequer uma dúzia de livros sobre ele! Nem a tentativa de fazer um museu-fantasma em Santa Comba Dão! Se o próprio Salazar voltasse à terra que longamente considerou propriedade sua, teria o sentimento de estranheza de quem visita uma casa que lhe pertenceu, mas da qual só reconhece o sítio.
 
Aos livros antes publicados junta-se agora o «depoimento» da «pupila» Maria da Conceição de Melo Rita (Micas). As palavras dela foram fixadas por Joaquim Vieira, que procura, nos comentários acrescentados, desviar o livro da rota de propaganda póstuma de um regime que fez da propaganda a sua arte contemporânea. A «pupila» usa um tom doméstico e reverencioso para falar do «mestre». Mas o Salazar da Micas é um Salazar de bolso, confiscado afinal da sua mais refinada perícia: a da perversidade. No livro, tudo é o que é – com ele, nada era o que era. Aqui, confirmamos que «o Senhor Doutor tinha escasso contacto directo com o exterior, confiando no testemunho dos outros para saber como iam as coisas. Ele, por exemplo, não via cinema, mas seguia os resumos que lhe faziam das comédias portuguesas de então». Aqui, ficamos a saber que, «para dormir, o Senhor Doutor não recorria ao convencional pijama, a não ser em muito rara situação de doença. Em seu lugar, usava uma camisa comprida à moda antiga». Por aqui, sabemos que Salazar ajudava à missa, mas «nunca se confessava nem comungava». Dependente da governanta, que era uma fera, dizia dela: «A menina Maria às vezes é azeda.» E invejava-a: «A menina Maria tem mais facilidade em escolher uma criada do que eu um ministro.» Micas é indiscreta: «Devo reconhecer que se prolongou por muitos anos o ritual salazarista de me visitar no meu quarto antes de recolher ao seu, a ponto de causar ciúmes à Tia Maria. Certa vez, até a ouvi atirar: - Ó Senhor Doutor, a pequena já é uma mulher. Mas ele não ligou o continuou a fazer-me o mesmo.» Sobre as mulheres que o visitavam e com as quais se suspeitava haver namoro, Micas esclarece: «Como o Senhor Doutor nunca passava noites fora, duvido mesmo que tenha havido intimidade física.»
 
Passa neste livro, aparentemente brando, banal e bucólico, um ressentimento subterrâneo contra a vida, um pessimismo antropológico, um primitivismo estético, um reacionarismo instintivo, uma avareza existencial, de que Salazar contaminou o país. E passa a descortesia e o desdém com que o tratava. Louvava Deus para depreciar os homens, enaltecia Portugal para diminuir os Portugueses, engrandecia o passado para esmagar o presente. E morreu a desacreditar o futuro. No final, uma pergunta corre para nós: como foi possível isto durar tanto tempo?! É esse o mistério do salazarismo. E esse mistério tem tanto a ver com o que ele foi como com o que nós fomos. Porque, como afirmou, no seu poema, Fernando Pessoa: «António de Oliveira Salazar/ Três nomes em sequência regular…/ António é António/ Oliveira é uma árvore/ Salazar é só apelido./ Até aí está tudo bem./ O que não faz sentido/ É o sentido que isso tudo tem.»”
 
 

A Sombra

por josé simões, em 08.10.07

«(…) Por decisão do Governo francês da Frente Popular, presidido pelo escritor, judeu e socialista Léon Blum, foi reconhecido aos trabalhadores, em 1936, um novo direito: o de terem, cada ano, 12 dias de férias pagas.
(…)
Se fosse hoje e um Governo instituísse as primeiras férias pagas, logo viriam todos os economistas do mundo mostrar as suas contas, com cuja exactidão nos quereriam provar que a economia, a concorrência internacional (reduzir direitos para competir com países que não os têm) e as empresas não aguentariam o esforço de pagar 12 dias de férias aos seus trabalhadores. Nesses anos distantes, também os patrões se lhes opuseram, mas o poder político não se deixou confiscar pelo poder económico. E, actualmente como é? Um outro determinismo, agora neo-liberal, substitui o velho e simétrico determinismo marxista. Ao contrário do que quer parecer, este novo determinismo económico é, na sua essência, contrário à liberdade. É um fatalismo que domina a política e paralisa a democracia, anulando as alternativas. Esse determinismo, que também se vê como um finalismo e um historicismo, sobre cuja matéria era preciso aparecer a denúncia de um outro Karl Poper, representa uma regressão e uma hostilidade à tradição da liberdade. (…)»
 
José Manuel dos Santos “A sombra” no caderno Única do Expresso

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por josé simões, em 25.01.07

"Lembram-se do que, em tempos com um tempo mais lento do que o nosso, estava escrito nas passagens de nível? "Pare, escute e olhe." Sabem o que nelas não estava escrito, mas estava escrito em nós? Escute, olhe e avance. Entre estas duas séries de palavras, passavam os comboios. E com eles passava o perigo, até quer um novo perigo passasse."

In: Impressão Digital, Lapa; de José Manuel dos Santos