"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
O país a arder e José Luís Carneiro na Festa da Sardinha em Portimão. Foi este o argumento de Hugo Soares no debate parlamentar para justificar os copos de Luís Montenegro no Pontal e as imperiais com Marcelo, depois dos media devidamente avisados, porque José Luís Carneiro é ministro ou secretário de Estado e devia estar na frente de fogo ou no comando das operações. Como é possível um bronco da estirpe de Hugo Soares ser deputado da Nação, quanto mais líder de grupo parlamentar, correndo nós o risco de um dia o apanharmos num cargo de governação?
Em resposta ao PS dizer que lhe fazia confusão alguém sair da Provedoria de Justiça directamente para ministra da Administração Interna, Hugo Soares respondeu que nunca fez confusão ao PS tirar ministros do Governo para irem para entidades reguladoras ou para o Banco de Portugal. Hugo Soares é de uma riqueza argumentativa de fazer chorar as pedras. Nós fizemos mas eles antes de nós também já fizeram e fizeram ainda pior, segundo o seu alegado raciocínio. Hugo Soares faz lembrar os trauliteiros anónimos do pontapé-na-bola de plantão às redes, por cada entrada de pé em riste às canelas, por cada golpe de kung fu, por cada bola que passa mas fica o homem, por cada pisão na cabeça dado por um jogador do Sporting há uma situação exactamente igual anteriormente por um jogador do Benfica que a justifica. Viva o Matheus Reis! Se calhar é a vocação certa para para o líder parlamentar laranja, hooligan chefe de claque, não requer grande inteligência, basta ter alguma memória e muito whataboutism. O Hugão, temos homem.
Um terrorista-bombista não foi eleito vice-presidente do Parlamento e o taberneiro teve um choque de frente com a realidade e com a democracia, uma deslealdade para com o segundo partido, disse ele, depois de na legislatura anterior toda a sua bancada se ter literalmente cagado para a lealdade e boicotado a eleição do presidente do Parlamento, deputado oriundo da bancada maioritária. E depois foi comovente ver um bronco saído da série interminável produzida pelas jotas partidárias, alçado líder de grupo parlamentar, bem sucedido na vida à pala do cartão do partido, ao telefone com o taberneiro a alinhavarem acertos de contas com o voto privado dos deputados das respectivas bancadas. E ainda mais comovente foi ver a segunda figura da hierarquia do Estado, eleita inter pares, a explicar-se na bancada do partido da taberna no fim do plenário, depois de na anterior legislatura ter sido enxovalho, na eleição e na legislatura, pelos apóstolos do taberneiro.
Depois de chumbado o nome proposto pelo PSD para o Constitucional, uma meritíssima juíza que acha haver "um conflito entre a vida intrauterina e o direito da mulher dispor do seu corpo", Hugo Soares, um bronco carreirista com zero de substância que acha que os direitos, o bem estar e a felicidade de terceiros, devem ser referendados, no caso da co-adopção e adopção de crianças por casais do mesmo sexo, proposta prontamente chumbada pelo tribunal Constitucional, e que enquanto líder da jota defendeu o fim da educação e saúde gratuitas, apareceu feito sonso com o "motivo de desprestígio das instituições" e que o chumbo de Maria Tomé "coloca em causa aquilo que é o normal funcionamento deste tipo de eleição", sabendo perfeitamente que as instituições se prestigiam aos olhos dos cidadãos quando as matérias são decididas e votadas às claras, sem arranjinhos de bastidores, com os deputados a votarem de acordo com o que a sua consciência lhes dita.
O guião seguido pelo Partido Republicano nos States, de a pouco e pouco ir minando o Constitucional com, entre outros, "juízes de visões conflituosas entre a vida intrauterina e o direito da mulher", até ao ponto da maioria republicana que o domina considerar Trump inimputável por crimes cometidos enquanto presidente, para já está a falhar em Portugal.
A nebulosa dura há tantos anos quantos anos tem a democracia, ainda o Sá Carneiro liderava, com um encolher de ombros, "deixa arder que o meu pai é bombeiro", não havia o escrutínio das redes, picado por populistas 5G, ao pé deles Paulo Portas é um menino. E enquanto foi com o PS era "a justiça a fazer o seu trabalho" e ai de quem se atrevesse a questionar os timings, o método, os avisos antecipados à comunicação social para os directos nos telejornais, era o socialismo a pressionar e a condicionar a justiça, já chegámos à Venezuela, ou o quê? Ou o quê, uma nulidade a liderar o maior partido da oposição, um histórico da democracia, coadjuvado por um bando de palermas.
Hugo Soares, apoiante de Montenegro e critico de Rio, aproxima-se de Rio porque acha que em caso de vitória nas eleições para a comissão política do partido o nome a indicar para integrar a lista de candidatos a deputados por Braga nas próximas legislativas deve ser o dele.
Semanas a fio com "os socialistas" e "os secretários de Estado socialistas" e "os ministros socialistas" e "a promiscuidade do partido socialista" na boca. A boca toda cheia.
A anedota do cigano "aiii, merreu o Zureeede... E merreu do quêee? Merreu com um cancro das costas... Aiii, logo vi cu malandre não era homem para ir para ele pela frenteee!" materializada no PSD, logo no dia a seguir aos apupos e às assobiadelas como por artes mágicas aparece a notícia da ex-bastonária da Ordem dos Advogados e Hugo Soares, que há mais de um mês vinha a receber desenhos de Rui Rio e de Marcelo, via Mindinho Mendes nas noites de domingo na SIC, caiu na real, como dizem os brasileiros, e não gostou, só se pode queixar de ser de compreensão lenta e de tentar esticar a corda quando do lado dele é só ele a puxar. Partido do Cancro nas Costas, por acso até nem é um mau nome.
Pegamos na deixa do rapazola, alçado a líder da bancada parlamentar do PSD: "esta frase encerra uma verdade", uma verdade de que já todos desconfiávamos desde sempre, que para o PSD, as retribuições, os salários, as pensões, o Estado social, os direitos e garantias, são "coisas comezinhas", são "coisas pequeninas", "que não trazem reforma estrutural" [que não cortam, definitivamente, salários e pensões], das "coisas que não apontam caminhos para o futuro" [que não apostam num modelo de baixos salários e de precariedade] e para isso o PS não conta com o PSD como conta com o BE e com o PCP. O que o rapazola, alçado a líder da bancada parlamentar do PSD, fez nesta entrevista foi medalhar o BE e o PCP e "amesquinhar" e "apoucar" o cidadão anónimo que vive do rendimento do seu trabalho, até eleitor do PSD, e isso "são contas com que o PSD se tem de entender", internamente, e externamente, nas urnas. E só por isso esta entrevista, nesta parte específica, devia passar em repeat todos os dias naqueles blocos "humorísticos" com música a condizer" e que servem de separador aos canais noticiosos no cabo.
Nem Pedro Passos Coelho nem Hugo Soares vieram pedir desculpa aos portugueses por durante três dias terem andado a alimentar uma teoria da conspiração, uma espécie de "x-files" à portuguesa, com base no jornalismo do "diz que disse" nas "redes sociais" e de uma "empresária" contadora de cadáveres, do Expresso, amplificado pela SIC e pela SIC Notícias, instrumentalizando as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, e seus familiares, com o intuito de capitalizar politicamente. Escroques.
Se o PSD não sabe se a lista das vítimas do incêndio em Pedrógão Grande está ou não em segredo de justiça primeiro pede um esclarecimento à Procuradora-Geral da República e depois, consoante a resposta recebida, pede ou não ao Governo para o levantar, não faz chicana política nem tenta capitalizar com a desgraça e o sofrimento alheios. E, em caso de dificuldade, faz pedagogia e pede ajuda à comunicação social militante que desconhece a separação de poderes num Estado liberal democrático, acampada à porta do primeiro-ministro e da ministra da Administração Interna, ao invés de ir bater às portas certas [que não são propriamente as das "redes sociais" e as das empresárias elaboradoras de listas].