Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

|| O mundo ao contrário

por josé simões, em 24.10.13

 

 

 

É a ver os "puros", a esquerda "verdadeira"/ "verdadeira" esquerda, como gostam de se denominar, recuperar uma medida emblemática do Estado Novo de Salazar nos 60s do século XX, então a cargo da Caixa de Previdência, os famosos "bairros da caixa" que povoaram o país de norte a sul, e em que trabalhadores [na altura não havia "colaboradores"] de uma mesma empresa se juntavam e construíam um prédio, normalmente com 4 andares, rés-do-chão incluído, e ficavam a pagar uma renda fixa durante 25 anos, renda fixa sim, sem variáveis "taxas de juro" e/ ou aumentos salariais vs. inflação, e ver a direita, herdeira directa mas descendente envergonhada do Estado Novo e da "primavera marcelista", saudosa da ordem e do respeitinho e das coisas arrumadinhas nos seus devidos lugares, que trata Salazar por "o doutor Salazar" com um temor e um tremor reverencial na voz, recusar essa mesma ideia com o argumento dos "custos" e das "implicações" e das "desvantagens para os trabalhadores", para os trabalhadores, leram bem.

 

[Imagem]

 

 

 

 

 

 

|| Manobras de diversão

por josé simões, em 03.06.13

 

 

 

Enquanto o pagode anda entretido com a habitação social, o rendimento mínimo e os subsídios públicos de sobrevivência - um triângulo cosido no peito e um alvo colado nas costas, porque é pago com o dinheiro dos nossos impostos, não pensa nos condomínios privados, no rendimento máximo, no sigílio bancário, nos fundos de investimento registados em offshores, nem nas empresas de administração e distribuição de fundos comunitários constituídas com base no acesso a informação privilegiada – uns botões de punho e um título académico, mais o dinheiro dos nossos impostos e a mais-valia da força de trabalho.

 

[Imagem de "Roxie Hart", William A. Wellman, 1942]

 

 

 

 

 

 

|| Eu hoje acordei assim

por josé simões, em 01.05.13

 

 

 

 

 

 

 

Uma Casa portuguesa (Do Estado social no Estado Novo)

por josé simões, em 25.10.08

 

Não explica tudo mas ajuda a perceber.

 

Estive esta manhã na esplanada do café à conversa com um senhor de quase 80 anos, que me disse ter votado em Salazar n’Os Grandes Portugueses porque quando era novo e precisou de uma habitação para «constituir família», juntou-se com «mais uns quantos» que trabalhavam «lá na fábrica», pediu um empréstimo à Caixa de Previdência, comprou o terreno, construíram o prédio, e ficaram a pagar 450 escudos (2 euros e vinte e picos cêntimos) por mês durante 25 anos. «Nem mais um tostão; só pagámos o que pedimos». «Não é como estes filhos da puta de agora que dizem que são democratas, e o meu filho, veja lá o senhor, pediu um empréstimo ao banco para pagar em 25 anos e vai pagar 15 casas até a casa ser dele!».

 

E vou para casa a pensar no mercado de arrendamento tão caro à Direita e nos empréstimos bancários e na Euribor e no Fundo Imobiliário e que segunda-feira vou trabalhar outra vez e que é só uma questão de tempo até parecer por aí um Haider qualquer.

 

(Na foto de Américo Ribeiro, uma das habitações do Bairro dos Olhos de Água em Setúbal em 1954)

 

 

 

A Nobreza republicana

por josé simões, em 01.10.08

 

Declaração de interesses: fui estudante de jornalismo, fui 10 anos roadie de bandas e artistas vários (entre os quais Vitorino), trabalhei 7 anos em Lisboa.

 

Vamos lá a ver se eu percebi, ou se houve aqui uma falha de comunicação:

 

Há a “habitação social” – lá para os arrabaldes da cidade; antes do sol nascente – e há o “património disponível” – uns quaisquer quatro mil fogos espalhados pela cidade. Por um qualquer princípio que desconheço ou que me escapa, há esta distinção.

 

Quatro mil fogos, contas por baixo, dá pelo menos habitação para quatro mil pessoas. Quantas pessoas é que foram escondidas em cada um desses guetos antes do sol nascente?

E há também o fenómeno construção civil. É necessário construir, nem que seja nos arrabaldes, nem que sejam bairros sociais. A tal promiscuidade financiamentos das campanhas eleitorais e dos partidos/ empresas. O fenómeno é interessante. A Câmara perde dinheiro com os terrenos e a construção de baixa qualidade na “habitação social”, e deixa de ganhar nas zonas nobres, com o bodo “aos pobres” no “património disponível”.

 

Como já não há condes nem marquesas, o espaço social foi ocupado pela nova nobreza arts & press, e, por esse princípio que desconheço ou que me escapa de atribuição de “património disponível”, estipulou-se que, por exemplo, a Rua do Salitre era o local indicado para morar uma vereadora, ou que a Rua Ferreira Borges é perfeita para um artista. Onde é que já se viu um preto das obras ou um cigano das feiras habitar um prédio em downtown? Dito de outra forma, o bairro do Padre Cruz ou o da Boavista ou Chelas são lá sítios para um homem da política das artes e da cultura?

 

Tomemos o exemplo de Vitorino. Compreende-se o critério. É do Alentejo, e como todos os dias úteis dá espectáculos em Lisboa, e no pouco tempo de sobra grava discos também na capital, para se evitar o vaivém diário, recebe uma habitação. Mora em Lisboa com renda controlada e tem casa de férias na terra natal. O outro tem em Constância. E toda a gente sabe como morar em Lisboa é essencial para se ter acesso à rede de amiguismo e cumplicidades, perdão, é essencial ao processo criativo.

 

Cada um tem a casa que merece. E alguns merecem morar antes do sol nascer.

 

Adenda: Leituras complementares aqui e aqui.

 

 

 

“Quem não chora não mama” (*)

por josé simões, em 26.08.08

 

“A Câmara Municipal de Loures entregou hoje a 82 famílias do Bairro da Torre em Camarate as chaves das suas novas habitações no bairro social da Quinta das Mós situada mesma freguesia.”

(Link)

 

Isto é inadmíssivel! Somos 2 pessoas e dão-nos uma casa só com 1 roupeiro!”, dizia para as câmaras do telejornal, uma cidadã que anteriormente morava numa barraca onde eu não punha o meu cão…

 

(*) Ditado popular; aqui na versão "Pobre e mal agradecida".

 

(Foto de Maciej Lebiedowicz)