"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
O ministro da Economia do Governo dos entraves em Lei à entrada de imigrantes diz que falta mão-de-obra em Portugal e que pode ser uma das razões para a falta de habitação. Agora é recuperar aquela moção, em tempos levada ao congresso da jota do CDS, defendida por João Almeida, Miguel Morais Leitão, Adolfo Mesquita Nunes, Leonardo Mathias e Vânia Dias da Silva, entre outros que continuam a andar por aí, de baixar a escolaridade obrigatória para o 9.º ano, e ala trabalhar que se faz tarde. O ministro, esse, vai dar o exemplo, já tinha mandado os motoristas de jerrycan para a porta da maternidade no dia do apagão, vai agora mandá-los para a serventia a pedreiro nas grandes obras públicas prometidas por Sócrates e reprometidas por Montenegro depois de convenientemente maquilhadas.
No Bairro do Talude em Loures moravam motoristas da Carris Metropolitana. Todos sabemos os problemas com a falta de motoristas que a Carris Metropolitana teve no arranque da operação, foram sobejamente noticiados nas televisões. Portanto, o argumento da "imigração à toa" e ilegal cai já por terra, "afuera!", como diz o outro.
O salário médio de um motorista da Carris Metropolitana anda à roda dos 1 100/ 1 200€ mensais, com horas e folgas, que é nesta base que as chapas de serviço são elaboradas, leva 1 300/ 1 400€ para casa.
A casa cuja renda não podem pagar. Nas várias reportagens que as televisões passaram aparecem moradores do Talude a dizer que até 400€ de renda conseguem pagar e abandonar a barraca. Como diz o sobrinho do Álvaro Amaro que é ministro [nos idos do PS havia uma hastag para isto, #ComPrimos], a economia vai ter de se adaptar. E o país pode esperar.
Entretanto a televisão do militante n.º 1, SIC Notícias, organiza um debate em cima do joelho com autarcas da Área Metropolitana de Lisboa.
"Moedas a funcionar", como diria o Espírito Santo, abre a boca e invariavelmente a conversa vai parar à polícia e à polícia municipal. Que incompetente, benza-o Deus. Não tem mais nada.
O chegano, militante do PS que é presidente da câmara de Loures, depois de andar pelas redes a meter likes em quem o incentivou a mandar os pretos para a terra deles, os macacos para a selva, Portugal para os portugueses, diz que "não podemos [a câmara] deixar o problema alastrar". Pois. Construiram uma barraca, construiram duas, construiram três, construiram 10, e às 90 barracas a câmara deu por isso.
Pelo meio insinua que há uma rede mafiosa que vende barracas a dois/ três mil euros, como se isso fosse argumento, como se alguém que trabalha 9, 10, 12 horas por dia, nos trabalhos de merda que os portugueses não querem fazer, se sujeitasse a viver na imundice só porque sim e para se fazer ao bife a uma casa da câmara, sabe-se lá com quantos anos na lista de espera.
Afinal a maior imundice, a merda até ao tecto, não está no bairro da lata.
O Talude em Loures é terreno privado. A câmara municipal, que não tem autoridade para intervir em casas ao abandono, fechadas há anos, para as recuperar, reabilitar, e meter no mercado por forma a suprir carências habitacionais, [era o "socialismo" e a "Venezuela" e as "Mortáguas" e o "novo PREC" e o caralho , estão lembrados?], é a mesma câmara que, numa blitzkrieg municipal, vai erradicar as barracas de um terreno privado e deixar meia centenas de famílias ao relento. Percebem?
[Na imagem a famosa Casa Okupada ao Bairro Salgado em Setúbal. Foi-o durante 19 anos, em 2019 foi desocupada por ordem judicial, está assim em 2025. Não quero dizer nada com isto, é o que é.]
10 000 casas num ano. Leram bem, 10 000 casas num ano, contando que este Governo é o Governo anterior a este, com um interregno para campanha eleitoral e eleições. E este ritmo de construção nem na China. Mentira e propaganda ou, como diz o pagode, "com as calças do meu pai também eu sou um homem".
Horas de directos nos telejornais, de reportagens, de comentários, de painéis de especialistas, que ainda ontem estavam a comentar os drones na Ucrânia e que amanhã, se preciso for, estão a comentar as eleições no Benfica, e nenhum, nem um só, foi capaz de fazer uma pergunta simples a um morador do bairro do Talude Militar em Loures: que vida tinha antes, o que é que aconteceu, que voltas é que a Terra eu ao Sol para ter de ir morar para uma barraca e agora se encontar na pele do personagem da canção do Gabriel, O Pensador, "Eu queria morar numa favela, O meu sonho é morar numa favela"?
Querem saber o que é um pantomineiro? Ouçam as declarações de José Luís Carneiro, secretário-geral do Partido alegadamente Socialista, sobre as demolições em Loures, câmara governada por um também alegadamente socialista. Encheram a cabeça de Pedro Nuno Santos que as eleições se ganhavam ao centro, e Pedro Nuno Santos, contra natura, auto domesticou-se e meteu-se ao centro. Foi o que se viu, o PS a descer, muito, e o "centrista" Chega a subir, muito. Agora, como as eleições se ganham ao centro, elegeram secretário-geral um engomadinho com tanto carisma quanto um molho de nabos, e que aparece barbeadinho, penteadinho, a tentar respirar o ar dos tempos na questão da imigração e dos "pretos que enxameiam o país com barracas", sem tomates para se assumir ou, pior que isso, a ser mesmo o que aparenta ser. Mário Soares, sem conversa de merda, tinha ido ao terreno e tinha chamado o Ventura wannabe de Loures ao Rato.
[Imagem: Setúbal, Barracas no primeiro piso do Forte Militar, Setúbal. Arquivo da Associação de Moradores 1975 [?], do livro "Fartas de Viver na Lama", Jaime Pinho/ Fernanda Gonçalves/ Leonor Taurino, Edições Colibri]
As autárquicas são a 12 de Outubro, há não tanto tempo quanto isso, por estas alturas, tínhamos presidentes de câmaras numa azafama, de chaves na mão, a entregar casas a famílias carenciadas. Hoje temos uma câmara presidida por um alegadamente socialista a fazer gáudio de desalojar famílias sem lhes dar uma solução, e ainda com o desplante de meter uma técnica, uma vereadora, ou o raio que a parta, no telejornal a argumentar que é para bem das crianças, para a sua salubridade, ficarem sem tecto, a viver na rua. Puta que pariu esta nova normalidade, este talude que estamos a construir à nossa volta.
Mais caos urbanístico, mais atentados ambientais, mais população para as periferias, cada vez mais periferias das cidades, mais perda de qualidade de vida no calvário das horas no trânsito casa-trabalho-casa ou escola, os centros das cidades para a especulação Disneyland, a satisfação da clientela político-partidária do pato-bravismo e do betão. É "a economia a funcionar", onde todos ganham menos o tanso do costume, o contribuinte. Quem é amigo do povo, quem é?
Toda a gente com um mínimo de formação sabe que as cidades com história, em geral, e a cidade de Lisboa, em particular, cresceram a partir do centro, na base do turismo, dos alojamentos locais, e de lojas de artesanato diversas, que a partir de uma determinada hora as ruas ficam vazias de gente e não se vê vivalma, que os conceitos "lisboeta", em particular, e "bairrismo" e "tradição", no geral, são uma invenção ideológica, que os verdadeiros cidadãos, em geral, e os "alfacinhas", no particular, viviam fora das cidades, é por isso que em algumas cidades ainda é possível encontrar vestígios de muralhas e nalgumas até muralhas completas, desde esses tempos áureos, da divisão dos cidadãos genuínos, nos guetos, e dos cidadãos fake, os que fazem a cidade renovar e prosperar, no centro, sendo que a questão da mobilidade nem se colocava, não havia o caos do trânsito como nos tempos que correm, o tempo tinha outra velocidade e outro ritmo, uma pessoa metia-se rapidamente em qualquer lado a cavalo num burro, numa carroça ou até mesmo a penantes.
Cavácuo saiu do sarcófago na Coelha para apodar de "marxistas ignorantes das regras da economia de mercado que vigora na União Europeia" quem em 2023 quer aplicar legislação de 2014, era o PSD governo com Passos Coelho primeiro-ministro e Cavácuo Presidente da República, e logo apareceram milhares de bots nas redes, secundados por grunhos, mais ou menos anónimos, e totós de bisnaga de vaselina na mão em defesa da boa governação e honestidade do sonso que começou a vida com uma marquise clandestina em Lisboa e se retirou com uma vivenda trafulhada no Algarve, por causa de uma lei de 1993, imposta a Cavácuo numa Presidência Aberta de Mário Soares, e executada por Jorge Sampaio e João Soares. Não os deixemos ficar na sua chico-esperta e sonsa "ignorância".
"O primeiro-ministro explicou, no Parlamento, que o Executivo está a trabalhar em “respostas diferenciadas” para residentes e para trabalhadores sazonais e assegurou que irá garantir “soluções de habitação” para todos os trabalhadores."
Dito de outra forma, o Governo do Partido Socialista vai meter o dinheiro dos contribuintes a financiar a precariedade, os baixos salários e o trabalho semi-escravo. Diz que é um partido socialista.
É a ver os "puros", a esquerda "verdadeira"/ "verdadeira" esquerda, como gostam de se denominar, recuperar uma medida emblemática do Estado Novo de Salazar nos 60s do século XX, então a cargo da Caixa de Previdência, os famosos "bairros da caixa" que povoaram o país de norte a sul, e em que trabalhadores [na altura não havia "colaboradores"] de uma mesma empresa se juntavam e construíam um prédio, normalmente com 4 andares, rés-do-chão incluído, e ficavam a pagar uma renda fixa durante 25 anos, renda fixa sim, sem variáveis "taxas de juro" e/ ou aumentos salariais vs. inflação, e ver a direita, herdeira directa mas descendente envergonhada do Estado Novo e da "primavera marcelista", saudosa da ordem e do respeitinho e das coisas arrumadinhas nos seus devidos lugares, que trata Salazar por "o doutor Salazar" com um temor e um tremor reverencial na voz, recusar essa mesma ideia com o argumento dos "custos" e das "implicações" e das "desvantagens para os trabalhadores", para os trabalhadores, leram bem.
Enquanto o pagode anda entretido com a habitação social, o rendimento mínimo e os subsídios públicos de sobrevivência - um triângulo cosido no peito e um alvo colado nas costas, porque é pago com o dinheiro dos nossos impostos, não pensa nos condomínios privados, no rendimento máximo, no sigílio bancário, nos fundos de investimento registados em offshores, nem nas empresas de administração e distribuição de fundos comunitários constituídas com base no acesso a informação privilegiada – uns botões de punho e um título académico, mais o dinheiro dos nossos impostos e a mais-valia da força de trabalho.
[Imagem de "Roxie Hart", William A. Wellman, 1942]