"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Isto é absolutamente maravilhoso! O argumento que o Governo usou para desvalorizar a adesão a greve - transações bancárias, é o argumento a que os ilusionistas liberais recorreram para dizer que estava toda a gente em greve - o shopping cheio.
A espinha dorsal do taberneiro é qualquer coisa... E ao mesmo tempo um indicador de que a greve geral foi um sucesso: era a favor, agora é contra o pacote laboral.
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A espinha dorsal do taberneiro é qualquer coisa... Quando polícias e GNR's derrubaram as barreiras, galgaram as escadas, quase até à porta da Assembleia da República, não se lhe ouviu uma palavra, hoje, quando meia-dúzia de bandalhos tomaram conta do que restava da manif, depois das centrais sindicais se terem retirado. quer à força ouvir a condenação de toda a esquerda pelos incidentes, insinuando uma ligação da esquerda aos arruaceiros.
A gente fica sem perceber se alguns títulos são gozo puro ou se a desvalorização das relações laborais e a desresponsabilização do patrão já estão de tal forma entranhadas que as coisas já saem naturalmente. "Colaboradores".
É um greve política. E isso é que não pode ser. Porque não é político o pacote laboral que a motiva, não é política acção do Governo, não são políticos os deputados que a vão votar. "A minha política é o trabalho" é o que esta direita ressabiada que se alçou ao poder nos quer meter dentro da caixa craniana outra vez.
Se explicarem às pessoas, muito bem explicadinho, entre outras, que podem ser despedidas sem justa causa; que podem ficar a contrato ad aeternum; que uma vez efectivos podem ser suibstituídos por externos ou temporários; que podem fazer até 50 horas semanais, com redução do tempo de descanso e sem pagamento de trabalho extraordinário; que os mecanismo de arbitragem desaparecem, elas percebem muito bem percebido, não fazem greve e ainda começam a injuriar os sindicatos.
Gonçalo Lobo Xavier fala antes de "alguma má comunicação e falta de habilidade" para a explicar que "tem sido aproveitada, de alguma maneira, pelos sindicatos para fazerem valer os seus pontos de vista".
Vai a UGT roer a corda, como manda a tradição, assinar por baixo o que os patrões e o governo lhe dizem para assinar, cumprir o destino para o qual foi criada, ser o braço político do patronato dentro dos sindicatos?
A UGT vai à luta, greve geral conjunta com a CGTP, contrariada, porque "há sempre impactos nos rendimentos dos trabalhadores". A UGT que integra os trabalhadores social-democratas, "estrutura autónoma para o mundo laboral e o movimento sindical, e que constitui uma organização especial enquadrada programaticamente no PSD com militância específica e autonomia nas suas actividades". A autonomia é tanta que acabam a fazer greve mandados pelo PCP e pelo PS. Veio lesto o sobrinho de Álvaro Amaro, que é o ministro deste governo a quem cabe dizer coisas, que os portugueses "vão ficar apeados na estação de comboio, e vão ficar apeados à porta de serviços públicos", fingindo não perceber que ninguém vai ficar "apeado" coisíssima nenhuma, pela simples razão que estão de greve e quem está de greve não fica "apeado", e no estado lastimoso em que o "Luís a trabalhar" tem os serviços públicos mais apeadeiro menos apeadeiro para eles é 'pinares'. E disse mais o sobrinho ministro, que o governo está de portas abertas, e não é apenas de portas e de braços abertos: é numa atitude de procura e aproximação. Uma aproximação do caralho, segundo a sua colega, alegada ministra do Trabalho, que há coisa de um mês afiançou que com ou sem acordo a lei do trabalho deverá ser enviada à Assembleia da República. Continuam a gozar com os portugueses...
Alegar que alguém com salários entre o miserável e o remediado, mais as contas e a renda da casa para pagar, faz greve, que alguém se dá ao luxo de perder um dia de trabalho, sem razão para isso e só porque o PCP ou o PS lhes mandaram parar, é só passar [mais] um atestado de estupidez aos portugueses, depois do país estar melhor na saúde e na educação "do que há um ano atrás" [como se houvesse há um ano à frente ou há um ano ao lado].
"Vai fazer greve geral? Não. Não?! Não, se o problema deste país são os ciganos e os imigrantes porque é que vão perder tempo e desperdiçar energias com pacotes laborais?"
Para quem não percebe o papel que cabe ao partido da taberna na conjuntura política.
O corpo de intervenção da PSP que, na greve geral de Novembro de 2012, suportou, para lá do limite do insuportável, a chuva de pedras frente à Assembleia da República, dito de outra forma, permitiu que a "intifada" começasse e tomasse proporções inimagináveis quando a podia ter "morto" logo à nascença, é o mesmo corpo de intervenção da PSP que enquadra os manifestantes, à moda de Aljubarrota, e os encaminha para um ponto onde, inevitavelmente, o trânsito da auto-estrada seria cortado.
Coisas que não batem certo. Ou se calhar até batem:
O Governo Cavaco Silva/ Passos Coelho/ Paulo Portas já percebeu que não é pelo lado das centrais sindicais [CGTP/ UGT], pelos trabalhadores, sindicalizados ou não, enquadrados em manifestações e eventos organizados pelos sindicatos, que a coisa vai descambar. E também não é pelo lado dos anarkas, anti-sistema, okupas, anti-globalização, outsiders, uma miríade sem apoios ou estruturas de apoio, sem hierarquias institucionalizadas, sem relações de organização entre si [vários grupos]. Fazem mais barulho, mais estrago e ganham mais visibilidade mediática, mas não é por aí. São os idiotas úteis ao Governo PSD/ CDS-PP. Para mostrar serviço, como exemplo e como pressão psicológica sobre os outros, para ganhar a batalha da opinião pública, de pantufas em casa no sofá, ciosa da tranquilidade e da ordem pública.
Ninguém inventa nada de novo.
[Na imagem o Corpo de Fuzileiros da Marinha ocupa a sede nacional da PIDE/DGS, Rua António Maria Cardoso, Lisboa, 26 de Abril de 1974, Alfredo Cunha]
Mais de um milhão de desempregados e umas centenas de milhar de emigrantes depois, o Governo Cavaco Silva/ Passos Coelho/ Paulo Portas vem dizer que respeita "muito" quem está a trabalhar.
A 48 horas de uma greve geral convocada pelas duas centrais sindicais [CGTP e UGT], o melhor, e mais bem conseguido, manifesto de apelo à greve saiu do gabinete do ministro Nuno Crato: quando há justeza nas reivindicações vale sempre a pena lutar, sem medo, por aquilo que se acredita. Dignidade no trabalho.
Foi quando dois polícias fardados puseram as liberdades de Abril em perigo e a Direita, à boleia da Esquerda, saiu em peso para o Facebook, Twitter e blogocoisa, para fazer uma revolução por minuto. Agora 'elementos estranhos' à paisana vasculham na televisão pública e "toda a gente sabe que" e no pasa nada…