"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
O FMI não defende que os patrões e accionistas abdiquem de uma pequena parte das mais-valias, da distribuição de lucros e dividendos, não.
O FMI não defende um aumento das contribuições das empresas para a segurança social/ fundos sociais por forma a que os Estados melhor combatam as desigualdades sociais e a manter os níveis de estabilidade de quem está na reforma e de quem se encontra no desemprego, não.
O FMI tira da cartola o argumento da direita radical dos velhos reformados com a vida regalada por oposição aos novos miseráveis e desempregados e, para que não o acusem de apelar ao conflito geracional, defende a redução das contribuições sociais para os salários mais baixos, assim, só.
O FMI não defende que os patrões e accionistas abdiquem de uma pequena parte das mais-valias, da distribuição de lucros e dividendos, e as canalizem para as seguranças sociais/ fundos sociais, não.
O FMI defende mais uma etapa na descapitalização das seguranças sociais e dos fundos sociais dos Estados para depois o FMI vir defender que as pessoas não podem estar à espera do Estado na velhice, que o dinheiro não chega, que o melhor é os mais novos, os miseráveis que não vão ter uma reforma regalada como os mais velhos, com o dinheiro que poupam pela redução das contribuições sociais que invistam em seguros privados e em planos poupança reforma.
Mas em todos os aspectos e em todas áreas da vida dos portugueses, para o caso. De um burro carregado de livros ser um doutor, passando pelo "foge cão" do tratamento por doutor a todo e qualquer burro, até a todo o doutor, senhor ou não, carregado de gravatas e a debitar o que a opinião privada gosta de ouvir, brincar impunemente com o dinheiro dos outros, dos que não são doutores nem têm para onde fugir, nem sequer supervisão prudencial ou interesseira ou comprometida que zele pelos seus interesses.
E do Deutsche Bank nunca mais ninguém ouviu falar depois de se saber que há problemas nos bancos portugueses que são um risco global, mais o crédito na China, a seca em África e o vírus Zika na América Latina e nas Caraíbas.
O Administrador Plenipotenciário do capitalismo financeiro para o sul da Europa mandou em seu nome dois sabujos a uma reunião que ele próprio marcou com os indígenas do país tutelado que, tendo alguns entrado como servos da gleba e outros como vassalos, saíram todos sabujos, como os sabujos enviados com procuração, por terem aceite participar na reunião. Lá diz o povo que quem não se dá ao respeito...
O timing é perfeito para a novilíngua vir com "a fadiga das reformas" que é o eufemismo escolhido para suavizar o enjoo, o desagrado e a revolta que as pessoas começam a mostrar com o esbulho fiscal, o saque à classe média, o "elevador social" a funcionar sempre em sentido descendente com a diminuição de salários e pensões, com a fragilização e a precarização das relações laborais, por via do incentivo à rigidez patronal, em nome dos amanhãs que cantam e na melhoria das condições de vida de 1% da população mundial em offshores.
Só por si o jornalismo engagé e a imprensa do pensamento único dominante explicam que o relatório do éfe éme i "mau" tenha tido honras de primeiras páginas e de aberturas de telejornais e o outro, o do éfe éme i "bom", tenha passado pelos intervalos da chuva?
Não só a estapafúrdia regra dos 3% é cumprida como até fica abaixo da linha de água e o resto é conversa. A conversa dos dois éfe éme is que ciclicamente aparecem para nos atormentar, o éfe éme i bom, com o relatório a apontar o erro de reduzir salários e pensões, o éfe éme mi mau, a avisar que não só é preciso conter salários e pensões como é urgente cortar ainda mais. Siga.
Nada de novo em o FMI vir, mais uma vez, assumir falhas no programa da troika e não se fala mais nisso o que lá vai lá vai, FMI, subtítulo "Chover no Molhado".. Nada de novo nos partidos do "não podemos diabolizar o FMI", "não precisamos de programa de Governo para nada porque o nosso programa é o programa da troika", "o Governo pode surpreender e ir mais além que as metas acordadas com a troika", "é impensável sequer pensar em colocar em cima da mesa a hipótese de uma reestruturação da dívida pública sem primeiro dar um sinal de boa-fé e empenho aos nossos credores" continuarem a papaguear que foi feito o que devia ser feito e que muito ficou por fazer mas que, apesar de tudo, correu tudo bem, que foi um sucesso e não se fala mais nisso o que lá vai lá vai. Nada de novo, portanto.
"Expectativas demasiado elevadas em relação ao efeito imediato das reformas estruturais, consolidações orçamentais feitas de forma excessivamente rápida, expectativas irrealistas em relação a uma estratégia de curto prazo de desvalorização interna e cedências no princípio de reestruturar logo à cabeça dívidas públicas pouco sustentáveis."
Como diria a primeira-dama, pela boca do marido, já de abalada, Deus os proteja e quando lá chegarem mandem saudades que é coisa que cá não deixam, "com a ajuda da Nossa Senhora de Fátima":
«Fundo junta-se aos que duvidam que a receita líquida do IVA possa continuar a crescer ao mesmo ritmo nos próximos meses, uma condição essencial para que ocorra uma devolução da sobretaxa de IRS.»
Descontando aquela parte do estudo do FMI abranger o período compreendido entre 2008 e 2012 e o acção de propaganda do Governo reportar a 2011/ 2015, a gente faz de conta que acredita, que é "gralha".