"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Nos 80s de Setúbal, os betos, da ganga Wrangler, malha vermelha Sidney pelos ombros e com aqueles panamás brancos ridículos enfiados pelos cornos abaixo, mais as suas vespas, paravam no Largo da Misericórdia, frente à Gelataria Valenciana. Os betos e as betas que os namoravam. Eram para aí 15 ou 20, genuínos, descendentes das famílias da burguesia industrial conserveira que fez fortuna com as duas guerras, e a pagar pouco, e com o chibata da GNR em cima dos pés descalços, que empregavam até ao 25 de Abril de 74, mais alguns despachantes oficiais, e outros, doutores, da elite do Clube Setubalense.
Depois havia mais 30 ou 40, não eram betos, apesar de usarem panamá e restante indumentária, e alguns tinham vespa. Pensavam que ao pararem por ali também eram betos como os outros, por osmose, sem perceber que o mais que conseguiam eram o mimetismo. Acabaram todos nas fábricas da industrialização da península. Ou pior. A trabalhar para o pai do beto ou da beta, e a chamar "sô dotor" ao filho.
Hoje assistimos a um fenómeno semelhante, agora expresso pelo voto em urna. Vamos votar neles e ficamos como eles. Ricos. Importantes. Boa roupa, grandes carros, casa no Algarve. Para acabarem a levar com postas de pescada nas trombas. Sem voz para exigir, vítimas do enviesamento ideológico, a arcarem com as culpas da degradação dos serviços e instalações, motivada pelo desinvestimento dos sucessivos governos. Declarações como as do ministro da Educação, Jornal da Tarde, minuto 31:49. O ódio aos pobres. Votaram neles? Temos pena.
Menos candidatos ao ensino superior, 12%. Dizem nas televisões os especialistas em tudo que não foi por dificuldades financeiras das famílias. Foi lá agora. Propinas descongeladas e os mestrados sem limites à subida de preço. Isto também não vai ter nada a ver com os resultados dos próximos anos. Mais uma baixa de IRS a beneficiar quem recebe mais. Economia circular é isto. Há muitas maneiras de baixar a escolaridade obrigatória sem levar a proposta a congresso de partido ou sequer a votos. A economia vai ter de se adaptar, dizem eles.
Setembro de 2012, Julho de 2025. Treze anos separam estas duas primeiras páginas, dois ministros da educação de governos coligação PSD/ CDS. Como o inteligente das barbas continua a aparecer nas televisões, com a maior candura a comentar o estado da escola pública em Portugal, e como a ideia parece ser Make Troika Great Again, o Álvaro regressado, a legislação laboral que se cozinha, e que a UGT vai assinar por baixo, talvez mandar este senhor para a UNESCO seja o prémio merecido.
Os meninos vestem de azul, as meninas de cor-de-rosa, os meninos têm pilinha, as meninas têm pipi. Abuso sexual, violação? Pôs-se a jeito. Doenças sexualmente transmissíveis? Galdérias, oferecidos. Gravidez na adolescência? A virgindade é para o casamento. A masturbação é pecado e provoca a cegueira. Sexo? Aprendemos uns com os outros e no Pornhub depois de chegar a casa, que na escola o telemóvel é proibido. Respeito pela diferença? São doentes, precisam de tratamento.
No Governo com o maior número de incompetentes da história da democracia os ministros mentem todos os dias com quantos dentes têm na boca como forma de esconder a sua incompetência e disfarçar a sua incapacidade. Tudo isto na era do escrutínio em menos de um fósforo e dos polígrafos. É o primeiro Governo pós-verdade a Ocidente, antecipando-se ao que aí vem do outro lado do Atlântico com epicentro em Washington.
Adenda: o ministro da Educação mentiu. E na semana em que o ministro da Educação mentiu Marques Mendes na homilia semanal na FOX News do PSD explicou que o ministro da Educação não tinha mentido, antes pelo contrário. Esta semana Marques Mendes vai assumir que mentiu em cima da mentida do ministro da Educação?
A FOX News do PSD - SIC/ SIC Notícias, em formato papel replica a propaganda do ministro da Educação do Governo PSD. Na realidade são mais de 30 mil os alunos sem professores. E o que o padrão nos diz é que de hoje, data da saída do jornal, até à noite do próximo domingo, com a homilia do ex líder do PSD Marques Mendes, todos os telejornais e blocos de noticias da FOX News do PSD vão abrir com "segundo o Expresso". "Segundo o Expresso". Na época das fake news e do pós-verdade está dito, está dito. Já foi um jornal fiável.
Luís Montenegro mentiu, Paulo Rangel mentiu, Carlos Moedas mentiu, como antes tinha mentido a ministra da Saúde, e como antes tinha mentido o ministro da Educação. Isto não é um Governo, isto não é um presidente de câmara, isto não é um partido, isto é um episódio do Pinóquio.
"Quem sabe faz, quem não sabe ensina" e quem não sabe ensinar vai para professor de Educação Física. Durante o PREC havia oficiais do exército nas aulas de 'ginástica' e formados em Direito nas de Português, por exemplo. E o PREC só já voltava nas efemérides.