"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Talvez com excepção do Estado do Vaticano e dos Estados Unidos da América, um cidadão quando elege os seus representantes fá-lo na convicção de que implementem políticas e adoptem medidas que contribuam para lhe resolver os problemas do dia-a-dia, que é como quem diz, para a boa governação do país, e não para que espere sentado em cima da sua fé que os problemas se resolvam com a ajuda do divino, mesmo os imponderáveis e que escapam ao controlo da espécie humana como o sejam as calamidades meteorológicas.
E assim vamos nós, com fé, ou à espera que Paulo Futre faça chover no próximo programa na TVI, ou que o Conselho de Administração da Assembleia da República apresente um documento a provar que a água engarrafada é mais barata que a água da chuva.
Faz sentido multar a Power Balance por publicidade enganosa enquanto o Papa e o Vaticano, explorando a fé e a credulidade do povo, lucram milhões com o comércio abençoado dos santinhos e das santinhas, e mais as velas acendidas e as orações impressas em papelinhos de trazer dentro da carteira e pôr em cima da mesa de cabeceira, e as águas milagrosas de Fátima e Lourdes devidamente acondicionadas em frasquinhos e terços?
Ainda sou do tempo das casas de banhos públicas como lugares dados às meditações filosóficas e onde era possível encontrar escrito nas paredes e nas portas máximas tão profundas como o best-seller «neste lugar solitário onde a vaidade se apaga todo o cobarde faz força todo o valente se caga», isto antes do boom das novas tecnologias e dos não sei quantos telemóveis per capita que proporcionaram as mensagens “sms on the wall” género «faço broche» seguida do respectivo número para contacto. Frases a insultar Saramago nunca li, nem coisas do género "John 6:50" como nos estádios de futebol, e o mais próximo de uma revelação divina é encontrar alguém que sai da casa de banho com um sorriso de orelha-a-orelha: “estava mesmo mal. Parece que renasci. Ressuscitei!”. Talvez seja isso.