"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Não podem rezar na via pública. E não é autorizada a construção de novos lugares para o culto. Vão rezar em garagens, armazéns, caves, na clandestinidade. Entregues a imames, clérigos radicais, sem escrutínio, fora dos radares. E assim se "alimenta a radicalização, a guetização e a hostilidade aos valores democráticos". Exactamente o que se argumenta para a proibição. É o círculo perfeito de que se alimenta a extrema-direita, irmã gémea do islamofascismo. O ódio alimenta o ódio, a raiva alimenta a raiva, o medo alimenta o medo.
Continua a ladainha das eleições ganhas ao centro quando temos os resultados do "centrista" partido da taberna, os resultados do PSD, com a agenda do "centrista" partido da taberna, de Moedas em Lisboa e Duarte no Porto, aliados a esse partido centrista que é o Ilusão Liberal, que uma das razões para a derrota da Leitão em Lisboa foi estar aliada aos "radicais" do Bloco e do Tavares [!], e se têm incluído os comunistas o descalabro ainda era maior, porque o "centro" só funciona para um lado.
Carlos Rodrigues, director do Correio da Manha, chega ao ponto de falar em "partidos da velha esquerda" e em "maioria sociológica de direita". Errado. É maioria psicológica de direita, que vivemos na era das percepções, sempre nova, sempre jovem, ainda que a cheirar a bafio e naftalina dos armários de Santa Comba e dos rapazes de Chicago no Chile de Pinochet, agora recauchutada de pop star com moto-serra.
Há quatro dias o director do Expresso, João Vieira Pereira, escrevia "A dificuldade em lidar com o Chega é sentida dentro da redacção do Expresso. Estamos longe de ter certezas de como lidar com uma organização para a qual a verdade não é linear ou onde os factos podem ser adulterados à medida de um qualquer objectivo".
O Expresso, no dia em que viu um jornalista agredido num evento do partido da taberna na Universidade Católica viu o taberneiro convidado pela televisão do militante n.º 1 - SIC Notícias, do mesmo grupo do Expresso, para debitar alarvidades no jornal da noite. A SIC Notícias que andou com o taberneiro ao colo desde o dia em foi eleito deputado único, directos, entrevistas, interrupções de programação para o directo, às vezes mais que uma vez no mesmo telejornal, a televisão do militante n.º 1 que mandou uma comitiva à porta do estúdio para trazer o líder do partido da taberna pela mão até à mesa do debate para as legislativas, por oposição a Rui Tavares que fez todo o caminho sozinho, sem comissão de recepção, nem sorrisos manhosos de Bernardo Ferrão e Ricardo Costa.
Estes são os tretas que andam com a extrema-direita ao colo mas que no fim acabam em modo Travis Bickle, "you talk' in to me?" mesmo depois de quem pariram e engordaram acabar a apoda-los "inimigos do povo".
A "grande substituição" está efectivamente a acontecer, mais rápido do que se supunha. Os 230 deputados, responsáveis, educados, cultos, de pensamento estruturado, com cultura democrática e sentido de Estado, que nos habituámos a ver nestes 50 anos de democracia, estão a ser gradualmente substituídos por hordas de grunhos, ignorantes, uma grande maioria com cadastro criminal, mal-educados, irresponsáveis, zero de cultura e noção de democracia, a vomitarem ódio de cada vez que abrem a boca, com o cérebro tamanho de uma ervilha, incapazes de anteciparem três jogadas de xadrez, se o soubessem jogar, saudosos de um tempo anterior à democracia que não viveram e onde, curiosamente, os deputados, à excepção do cultura democrática, eram o oposto do que eles são.
E não são só 60, o mal está a propagar-se pelas bancadas ao redor e pelo Governo da Nação. Este sim é o drama da "grande substituição" que assola Portugal.
A seguir vão descobrir uma barbearia onde dormem vinte gajos do Punjab. Trabalham todos na restauração mas como a renda da casa é maior que o ordenado em vez de viverem em vinte apartamentos vivem vinte numa barbearia dum compatriota. Mas a culpa é deles que são imigrantes. E lá vamos vivendo alegremente com a extrema-direita a fazer-nos a barba e o cabelo todos os dias.
Um partido de oportunistas, saudosos do antes do 25 de Abril de 1974, saídos de dois partidos da alegada direita democrática, herdeiros da União Nacional, o partido único do regime deposto no dia 25 de Abril de 1974 e que se reclamam da "fundação do regime democrático", infiltrado, com conhecimento e bênção do líder, por grupelhos fascistas e neo nazis com ampla aceitação nos fóruns e nas redes sociais das polícias, as polícias que carregam em ombros o líder da agremiação de oportunistas saudosos do antes do 25 de Abril. Obviamente que as polícias e um Governo liderado pelos partidos-mãe iam concordar em "martelar" o relatório. A notícia é dada pelo "jornal" que durante anos promoveu o oportunista na primeira página, por tudo e um par de botas. "No tempo do Salazar é que era bom" e do "o Salazar é que faz falta" esta conta de somar aprendiam-na com a Tabuada do Ratinho, com a escola publica democrática não é preciso tanto para contar os ratos que entram nesta soma.
A direita, cada vez mais extrema, desde o Ronald até ao Donald, com uma passagem pelo Tea Party, assume o poder e o controlo e contagia a Europa, a esquerda não pode encostar à esquerda porque o eleitorado vota ao centro. E encontram idiotas úteis, na liderança de partidos alegadamente de esquerda, dispostos a repetir o mantra.
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Um grande antifascista, e dono do 25 de Abril, paga para poder escrever no outrora Twitter folhas A4 a culpar a NATO e a União Europeia pela bela vida sossegada que leva, a Europa pela "Donroe Doctrine", e a Ucrânia pela alucinação imperialista estalinista de Putin, "ia de mini-saia do que é que estava à espera? pôs-se a jeito...", enquanto brandem a Constituição, falam do "direito dos povos à autodeterminação e independência", e invocam a famigerada Acta de Helsínquia, que diz precisamente isso, que os países são livres de escolherem blocos e alianças sem terem que dar cavaco a ninguém, muito menos ao vizinho do lado. E depois destas enxurradas diárias de folhas A4 escritas e pagas, prontamente retuitadas por dezenas de acéfalos, o dono daquilo tudo, Elon Musk, agarra no dinheirinho destes grandes antifascistas e financia o fascismo em todos os cantos do globo. ¡Viva la libertad, carajo!
Somos [são] bué revolucionários, democratas, acima de tudo antifascista, e alguns somos donos até fizemos [fizeram] o 25 de Abril, mas pagamos [pagam] 21 paus de mês para, em vez dos 280 caracteres no X, usarmos [usarem] 4000 em postas contra o imperialismo, o capitalismo, o fascismo, e outra coisas terminadas em ismo como NATO e União Europeia, para depois o Musk agarrar no dinheirinho e financiar tudo o que é organização e partido fascista no planeta, enquanto manipula o algoritmo para dar visibilidade ao ódio da extrema-direita. É esta a qualidade do alegado antifascismo do teclado militante tuga.
Em menos de uma semana Luís Montenegro aparece nas televisões a surfar uma rusga policial descabelada num bairro de imigrantes, que nunca dorme, onde é possível encontrar sempre alguma loja aberta, desde a conveniência à quinquilharia diversa passando pela restauração, gente de trabalho, com as contribuições em dia, cujo resultado foi a detenção de um indígena tuga com droga numa algibeira e um canivete na outra, e que ocupou durante uma manhã dezenas de polícias numa rua que não fora a demissão da câmara de Carlos Moedas da recolha do lixo era dos sítios da capital mais aprazíveis para circular.
Luís Montenegro eclipsou-se quando, sem aparato policial, uma unidade de polícia deteve no Parque das Nações sete homens com armas de fogo de calibre 6.35 e 7.35 e várias caixas de munições dentro do carro em que circulavam. É o Parque das Nações, onde um apartamento está por 5.630 €/m2, não vivem 10 num T0, não há monhés, nem dos "qué flô?", só portugueses de bem, ou vistos gold da lavagem de dinheiro, a criminalidade que não faz comichão à direita da lei e da ordem.
Luís Montenegro não aparece no prime-time das televisões para explicar a razão da deslocação de um carro patrulha para acudir a um evento onde 500 hooligans de uma claque de futebol faziam merda dentro de um restaurante. Pirotecnia, insultos, agressões físicas. Escapuliram-se todos, vão agora usar as câmaras de vigilância, diz a polícia.
Em menos de uma semana.
Martim Moniz foi aquele palerma que ia na cabeça da turba numa investida ao castelo, agora de S. Jorge, mais excitado que todos os outros, queria ficar para a história e para a recompensa real como o primeiro cristão a entrar, lixou-se porque, empurrado pela turbamulta que vinha atrás de si, ficou entalado na porta. Entalou-se com éfe grande, literalmente. Corria o ano de 1147. Para a construção da história ficou que, desapegado da vida, se atirou para a frente num acto heróico. Deve ser o primeiro loser da história com direito a nome de porta, a nome de estação de metro, a nome de bairro.
Luís Montenegro em 2024 também vai na cabeça da turba, a cavalgar a percepção de insegurança criada e alimentada pela extrema-direita, na esperança de lhe ganhar o eleitorado, ao invés da atitude pedagógica de desmontar uma narrativa, como competia a um primeiro-ministro com um mínimo de sentido de Estado e um máximo de educação cívica e democrática. Também vai ser empurrado para a frente e morrer entalado. Não vai ficar para a história como o outro, já ninguém vai em histórias de heróis inventados para servir uma religião ou uma política de Estado, quanto muito daqui por uns anos será lembrado como o homem que escancarou as portas à direita totalitária, xenófoba e racista, uma bela medalha para se ter ao peito.