"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
"Em tempos de crise invisto mais para ultrapassar a crise". "Em tempos de crise aumentei os meus funcionários para não se sentirem deprimidos com a crise".
Não dei pelo Zé Gomes 'programa de Governo' Ferreira comentar esta entrevista. Ou o João Duque. Ou o Camilo Lourenço. Ou o Caiado Guerreiro. Ou os pantomineiros liberais do "retirar o peso do Estado da economia" e os da direita radical da austeridade, de plantão nas "redes".
[Imagem "Muyeres del PCE. Mieres, 1977", autor desconhecido]
Resumo da entrevista de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, à SIC Notícias:
- O Porto vai sair da Associação Nacional de Municípios porque a Associação Nacional de Municípios, por unanimidade de votos dos seus membros, tomou posição à que, enquanto presidente da Câmara do Porto, considero contrária aos interesses da cidade, merecedora do estatuto de Estado-nação.
- O Tribunal de Contas, com o devido respeito, age como "força de bloqueio", com o devido respeito, porque, como dizem os 'amaricanos', no seu papel de "checks and balances" consagrado na Constituição da República Portuguesa, toma posições que eu, enquanto caudillo eleito, com o devido respeito, considero contrárias aos interesses da cidade do Porto, merecedora do estatuto de Estado-nação.
E remata com "o Poder político é a expressão do povo em democracia" depois de ter passado toda uma entrevista a criticar as decisões do poder político democrático. Com o devido respeito.
A seguir o PS, e o PS Porto que é uma espécie de PS-nação dentro do PS nacional, vai aparecer com falinhas mansas depois de ter andado anos a chocar o "ovo da serpente".
Pegamos na deixa do rapazola, alçado a líder da bancada parlamentar do PSD: "esta frase encerra uma verdade", uma verdade de que já todos desconfiávamos desde sempre, que para o PSD, as retribuições, os salários, as pensões, o Estado social, os direitos e garantias, são "coisas comezinhas", são "coisas pequeninas", "que não trazem reforma estrutural" [que não cortam, definitivamente, salários e pensões], das "coisas que não apontam caminhos para o futuro" [que não apostam num modelo de baixos salários e de precariedade] e para isso o PS não conta com o PSD como conta com o BE e com o PCP. O que o rapazola, alçado a líder da bancada parlamentar do PSD, fez nesta entrevista foi medalhar o BE e o PCP e "amesquinhar" e "apoucar" o cidadão anónimo que vive do rendimento do seu trabalho, até eleitor do PSD, e isso "são contas com que o PSD se tem de entender", internamente, e externamente, nas urnas. E só por isso esta entrevista, nesta parte específica, devia passar em repeat todos os dias naqueles blocos "humorísticos" com música a condizer" e que servem de separador aos canais noticiosos no cabo.
O dia em que o director de um jornal com 150 venerandos anos de existência gasta 5465 caracteres num editorial a comentar os comentários dos comentadores a uma sua entrevista ao Presidente da República na silly season onde as pessoas dantes iam para a praia por causa do sol na moleirinha como dizia o povo à época em que o Diário de Notícias foi fundado.
Pedro Passos Coelho primeiro-ministro dava entrevistas à hora do jogo do Benfica. Pedro Passos Coelho primeiro-ministro no exílio reagenda a entrevista para o dia a seguir ao jogo do Benfica. De resto não há mais nada a assinalar, apesar do esforço dos avençados opinion makers das televisões em jurarem que o jogo à defesa, perante dois entrevistadores friendly com perguntas a roçar o imbecil, ter sido um "reformular" de discurso.
Ninguém se lembrou de meter Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, a comentar o revisionismo de todo o tamanho, ao melhor estilo estalinista de reescrever a história, que deu pelo nome de "Entrevista a Cavaco Silva", a propósito do lançamento do livro "Quinta-Feira e Blah Blah Blah" [o Sexta-feira era o Lima das escutas e consta que também publicou livro]. Nem precisava de ser em modo formal, sentado mo estúdio com pivot à frente, podia ser mesmo à saída de um dos eventos em que Marcelo demonstra o seu dom para a omnipresença.
No dia a seguir a Rui Vitória se ter sagrado campeão nacional no seu primeiro ano à frente do SL Benfica, depois de uma pré-época organizada ao pontapé, a pensar no dólares amaricanos e a deitar o prestígio e o nome do clube para o caixote do lixo, depois de um início de campeonato penoso, sob constante barragem de contra-informação com origem em Alvalade e onde ainda antes do Natal já se vaticinava o SL Benfica a lutar por um lugar na Liga Europa com o SC Braga, a SIC e o Rui 'verdade desportiva' Santos entrevistam... Jorge Jesus, o treinador quase campeão.
No dia em que se assinala um ano de vida da solução governativa "Geringonça", o dia em que o partido mais votado nas urnas não formou Governo por via das regras da democracia parlamentar constitucional, o dia da morte e enterro de quase 50 anos, tantos quantos a ditadura fascista, do "arco da governação", pelas mãos do PS de António Costa, uma solução que nem o mais alucinado dos paineleiros-comentadeiros das televisões era capaz de prever ou se atrevia sequer a prognosticar, a SIC do militante n.º 1 entrevista... Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro no exílio.
Se fosse a televisão do Estado era o "malbaratar dos dinheiros públicos", como é a televisão do camarada Balsemão são "os critérios editoriais".
Passados 12 – doze – 12 dias sobre "O governo tem o dever de cumprir a legislatura que roubou" o ainda director do Diário de Notícias viu-se na obrigação de vir esclarecer via Twitter que o Governo não "roubou" mas antes "derrubou", um erro de fonética, a gravação, sonotone e o coise. Segue-se uma troca de comentários na timeline e um final feliz que confirma o "big audio dinamite" do DN [print screen na imagem]: o assessor de Pedro Passos Coelho também ouviu Pedro Passos Coelho dizer roubou e não estranhou que Pedro Passos Coelho tivesse dito roubou. Se isto não é qualquer coisa de maravilhoso…
Todas as semanas José Gomes Ferreira convida uma personalidade da vida portuguesa como pretexto para poder, durante 45 minutos, perorar na televisão do militante n.º 1 sobre economia, política económica, política monetária e alguma politica, política mesmo, deixando de quando em vez cair umas imbecilidades, pontuadas com um sorriso palerma como se fosse o raciocínio mais genial da televisão portuguesa. Pois bem, hoje calhou a vez a António Costa.
[Já que o Eurogrupo colocou José Gomes Ferreira como ministro das Finanças no lugar de Mário Centeno achei por bem ilustrar o post com a imagem do José Gomes Ferreira mesmo José Gomes Ferreira, o verdadeiro, o que não pode deixar de ser considerado lisongeiro para o outro, o "jornalista"]
No dia em ficámos a saber que o canal público de televisão fez um blitzkrieg ao melhor que a privada SIC tinha, a televisão do militante n.º 1 investe de funções o jornalista perfeito para a representação, em directo e a cores, de "O Monólogo do Pantomineiro" pelo primeiro-ministro no exílio, tal é, era, foi a argúcia do entrevistador.
O candidato independente das perguntas combinadas e os paineleiros independentes escolhidos para desempenharem o papel de comentadeiros independentes à entrevista isenta.
Cumprindo a sua sina, depois da primeira, cada qual é para o que nasce, certinho como o destino, a segunda, uma entrevista inteirinha gasta a falar de Marcelo Rebelo de Sousa, para depois os comentadores, quase tanto tempo quanto o tempo ganho por Marcelo Rebelo de Sousa com a entrevista a Maria de Belém Roseira, passarem o tempo do espaço de comentário à entrevista a falar de Marcelo Rebelo de Sousa por causa da paixão de Maria de Belém Roseira por Marcelo Rebelo de Sousa. Há liaz, raaamente "o meu adversário directo não é Sampaio da Nóvoa".