"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Setembro de 2012, Julho de 2025. Treze anos separam estas duas primeiras páginas, dois ministros da educação de governos coligação PSD/ CDS. Como o inteligente das barbas continua a aparecer nas televisões, com a maior candura a comentar o estado da escola pública em Portugal, e como a ideia parece ser Make Troika Great Again, o Álvaro regressado, a legislação laboral que se cozinha, e que a UGT vai assinar por baixo, talvez mandar este senhor para a UNESCO seja o prémio merecido.
Os meninos vestem de azul, as meninas de cor-de-rosa, os meninos têm pilinha, as meninas têm pipi. Abuso sexual, violação? Pôs-se a jeito. Doenças sexualmente transmissíveis? Galdérias, oferecidos. Gravidez na adolescência? A virgindade é para o casamento. A masturbação é pecado e provoca a cegueira. Sexo? Aprendemos uns com os outros e no Pornhub depois de chegar a casa, que na escola o telemóvel é proibido. Respeito pela diferença? São doentes, precisam de tratamento.
A imbecilidade de ser saudoso de um tempo em que não se viveu e onde um erro de "portuguez" deste calibre dava chumbo no exame da 3.ª Classe e 20 réguadas em cada mão. O fascismo é inimigo da cultura e da educação, medra entre a merda.
Pela televisão ficámos a saber que "existem mais de 4 000 livros na Amazon com referências a Ró náldo [como se diz na televisão]", um gajo que nunca na vida leu um livro.
Pela televisão ficamos a ver o eleito presidente da maior potencia mundial com um léxico ao nível de uma criança de 7 anos a assinar decretos com um marcador de ponta 2,0 mm, ele que não sabe interpretar um texto literário do 9.º ano de escolaridade.
Depois dizemos aos putos para estudarem, lerem, cultivarem-se, para serem alguém na vida.
A FOX News do PSD - SIC/ SIC Notícias, em formato papel replica a propaganda do ministro da Educação do Governo PSD. Na realidade são mais de 30 mil os alunos sem professores. E o que o padrão nos diz é que de hoje, data da saída do jornal, até à noite do próximo domingo, com a homilia do ex líder do PSD Marques Mendes, todos os telejornais e blocos de noticias da FOX News do PSD vão abrir com "segundo o Expresso". "Segundo o Expresso". Na época das fake news e do pós-verdade está dito, está dito. Já foi um jornal fiável.
"Quem sabe faz, quem não sabe ensina" e quem não sabe ensinar vai para professor de Educação Física. Durante o PREC havia oficiais do exército nas aulas de 'ginástica' e formados em Direito nas de Português, por exemplo. E o PREC só já voltava nas efemérides.
Apareceu no dia 26 de Abril de 1974 na parede da fábrica de conservas 1.º de Março, à Rua Camilo Castelo Branco em Setúbal, e ainda lá está. E diz muito da escolaridade obrigatória do Estado Novo, até à 4.ª Classe, grande melhoria sobre a anterior, obrigatória até à 3.ª Classe. "Vai mazé trabalhar que é para te fazeres um homem", mais que uma máxima um princípio de vida então instituído. 50 anos depois há quem o continue a apregoar.
O ex-líder da bancada parlamentar de suporte ao Governo do ministro Nuno Crato visitou uma escola em Lisboa, sem manifs Fenprof nem STOP's na porta de entrada [quem é amigo, quem é?], para dizer que a culpa da falta de professores é de António Costa e que está muito preocupado com os seis anos, seis meses e vinte e três dias dos stores. Se ele ganha votos entre a classe, porque precisa dos profs, é o que as sondagens não dizem acerca da fraca memória.
Chega meados de Junho e com ele regressa o circo do ranking das escolas. Comparar escolas onde não há dinheiro para nada com colégios onde há dinheiro para tudo. Comparar notas inflacionadas pelos docentes e pela direcção da escola com notas vítimas da inflação e da falta de poder aquisitivo da família. Comparar estabilidade do corpo docente e do calendário escolar com ensino a soluços dependente dos humores do ministério e das reivindicações sindicais. Comparar oito horas dentro da escola e pausas preenchidas com actividades educativas e disciplinas complementares à escolha do freguês com meio-dia de aulas, a outra metade em casa frente ao computador ou ao telemóvel, com um bocado de sorte um apoio ao estudo no final do dia, com muito sacrifício para a família. O ranking que não é feito é o do percurso no ensino superior depois da saída dos colégios e das escolas públicas. Se calhar as surpresas iam ser mais que muitas.