Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

|| Não ter a noção do ridículo

por josé simões, em 09.11.11

 

 

 

É ainda haver quem ache útil a sua presença num grupo que se propõe trabalhar sobre uma coisa para a qual o Governo já tem há muito os objectivos e as metas definidas.

 

 

 

 

 

 

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (IV)

por josé simões, em 11.01.08

 

(Continuação)
A organização em rede
 
A greve geral do Porto em 1903 é um caso fascinante do sucesso dos anarquistas e que foi varrido da memória do movimento social do país (por pertencer à história dos vencidos). Essa greve foi uma das maiores e mais longas de sempre em Portugal. Terminou com êxito para os operários. Surpreendeu Governo, polícia, patrões, imprensa e os próprios socialistas moderados, que a ela se opuseram. Os dirigentes – se assim lhes podemos chamar – não apareciam porque, de alguma forma, não existiam: nas negociações com o patronato, mediadas pelo governador civil do Porto, os representantes dos operários têxteis mudavam em cada reunião semanal, o que surpreendia os próprios socialistas. Isso contrasta com os actuais sindicatos ainda de inspiração leninista: Carvalho da Silva é dirigente da CGTP há décadas. Não é o único.
 
Na organização anti-organização dos anarquistas desde o século XIX surpreende o carácter que hoje diríamos pós-moderno: em vez da hierarquia e da rigidez, eles optavam pela estrutura em rede, celebrada hoje como forma ideal de revolta pela multitude sem liderança leninista proposta por Harém e Negro (Multidão, Campo de Letras, 2005). Ao contrário do que pensam muitos crentes da religião Internet, o conceito de rede já se usa há muito. No romance naturalista de 1901 Amanhã, de Abel Botelho (Lello & Irmão, 1982), o dirigente anarquista defende a «rede como «modelo» de «organização» que «funciona… sobranceira e independente às chamadas fórmulas políticas; não obedece a nenhum poder central; não tem parlamentos, nem reis, nem padres, nem fidalgos nem guarda municipal. Governa-se por si… O seu mecanismo é completo, porque a sua solidariedade é perfeita!» este anarquista ficcional passa da teoria à prática, conseguindo «ligar os proletários daqui (de Lisboa Oriental) com os do Oeste e alongar a rede». Duas vezes o romancista compara a «rede» à «teia de aranha». Teia, em inglês web. Com a Internet o modelo revela-se de grande eficácia: os anarquistas mais facilmente prescindem de dirigentes e de organizações firmes, bastando-lhes os sites, os blogues e endereços de e-mail. A rede está feita também para eles. As «acções directas» dos anarquistas correspondem a essas anti-estruturas em rede, sem direcção e com poucos militantes, mas com grande impacto pela surpresa e pelo valor «simbólico».
 
M 1895, um repórter de O Século ouviu o que dizia um anarquista preso num calabouço policial depois do boicote eficaz a uma manifestação ultramontana na Baixa de Lisboa: «Somos ainda poucos mas dispomos de muita força! A sede da nossa associação é nas praças públicas, ao ar livre.» E em 1903 os grevistas reuniam-se na rua.
 
A rede era móvel, e é. O Público trouxe em 29. 08 um interessante artigo de Jorge Pinto que era absolutamente claro a este respeito: «A revolução vai ter lugar noutro nível, na Rede, na Internet». Nem por acaso, o artigo respondia a um outro nesse jornal, de António Vilarigues, do PCP e leninista. Jorge Pinto manifestava-se pela caducidade do modelo organizativo e de acção do leninismo, defendia a supremacia dos sindicatos sobre os partidos (como os anarco-sindicalistas do inicio do século XX) e, tal como o citado libertário preso em 1895, defendia a organização dos «descontentes e espoliados (…) na rua». E, depois de prever a revolução na «Rede», dizia num final apocalíptico, que mereceria explicação: «Mas a luta, talvez pacífica na rua, poderá tornar-se sangrenta noutros locais, onde aqueles que dominam os novos meios podem reagir em nome de um mundo melhor.» Há libertários mais apocalípticos do que outros. A «talvez pacífica» na previsão da futura luta na rua talvez se explique pela atracção mútua entre anarquistas e polícias: em Silves, o VE atraiu a GNR 8e depois o SIS), da mesma forma que a manif na Rua do Carmo atraiu a polícia de intervenção.
 
O secretismo dos anarquistas e libertários, afinal semelhante ao das maçonarias e Opus Dei, é inevitável dado o seu apego à «acção directa» e à «desobediência civil». De certa forma, é uma pena, pois o anarquismo é não só uma ideologia interessante nos seus inúmeros desdobramentos e grande discussão, como tem pontos de vista interessantes que dariam contributos mais positivos ao debate democrático (que eles defendem) se saltassem da obscuridade da web e de encontros semiclandestinos para o espaço público. Porventura os anarquistas receiam deixar de ser anarquistas vindo para o debate democrático aberto. E acharão que mais vale continuar a haver um punhado de apocalípticos do que mais uns quantos integrados. Continuará por isso o jogo do gato e do rato em volta de operações-relâmpago, a surpresa e do esquecimento.
(Fim)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.
 
 

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (III)

por josé simões, em 10.01.08

 

(Continuação)
O VE nasce em 15 de Agosto numa iniciativa de tipo libertário: um acampamento ecológico. A SIC mostrou-o numa reportagem em 18 de Agosto, logo depois do assalto em Silves. Os anarquistas têm iniciativas deste género há largas dezenas de anos. Um romance de Mário Domingues, interessante como fonte de informação sobre o início dos anos 20, descreve a criação, logo falhada, de uma comunidade ecológica na Caparica por um grupo de anarquistas. Em 2007, o Ecotopia em Aljezur está feito para não falhar: só dura uns dias, é uma experiência liminar. Um Vilar de Mouros agrícola sem música eléctrica.
Surpreendeu-me que ninguém nos media tradicionais – salvo erro – tenha visto no Verde Eufémia (VE) uma marca anarquista ou libertária, mas, na verdade, tem sido o anarquismo que se remete ele mesmo para o limbo. A semiclandestinidade não permite uma identificação imediata pela opinião pública e pelos actores do sistema democrático, incluindo os mediáticos.
 
A estrutura ideológica do anarquismo, a ausência de dirigentes, de organização (e de arquivo?) e ainda o apagamento público das suas pessoas e acções passadas ajudam ao esquecimento colectivo do anarquismo e da sua história. Em Portugal, os anarquistas têm momentos de intervenção vitoriosos. O período final da Monarquia e da 1.ª República então marcados pela acção dos anarquistas. Todavia, enquanto partidos como o PS ou o PCP consagraram passados (republicano um, comunista o outro) e mantêm viva a sua memória mesmo quando fracassaram (31 de Janeiro de 1891, 18 de Janeiro de 1934), os anarquistas desaparecem da história. Isso sucede até quando eles vêem as suas acções como vitórias. O VE em Silves é micro-história, mas é um inegável conseguimento dos objectivos a que se propunha. O mesmo se pode dizer das manifestações antiglobalização ou das lutas vitoriosas dos anarco-zapatistas de Chiapas, México (também encapuzados).
 
Houve pelo menos duas acções públicas em 2007 dos anarquistas portugueses ou em que estes participaram: a manif que terminou com repressão policial na rua do Carmo a 25 de Abril e o assalto em Silves. A surpresa é um factor importante das iniciativas. Não resultando de uma organização permanente e gerando-se numa semiclandestinidade, os anarquistas conseguem facilmente surpreender o resto da sociedade.
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.
 
 

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (II)

por josé simões, em 09.01.08

 

(Continuação)
Mediatização, sim, organização vertical, não.
 
A principal diferença entre estes dois eventos separados quase um século é a da grande mediatização do caso de Silves. Ela foi ponderada: os envolvidos explicaram que foi um “risco calculado” para dar visibilidade máxima à acção. Como disse Batista na SIC Notícias, tratou-se de fazer uma acção “simbólica”. A criação de símbolos – que exigem divulgação mediática – e um dos tipos de activismo defendido actualmente pelos libertários internacionais. A invocação de não-violência era necessária a Batista para realçar o carácter simbólico.
 
A linguagem do VE e dos sites libertários sobre o assalto de Silves coincide com a do anarquismo actual: a «acção directa» visou «restabelecer a ordem democrática, moral e ecológica»; a «acção de desobediência civil» foi «acompanhada por um desfile para dar visibilidade à acção, com música, teatro e outras expressões artísticas e políticas». Tudo isto – prática, teoria, linguagem – é próprio dos anarquistas contemporâneos (ver Ruth Kinna, Anarchism, Routledge, 2005).
 
O anarquismo de hoje está longe de corresponder ao tom terrível que a palavra desperta. O anarquismo terrorista nunca foi mais do que uma minoria do movimento entre finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, mas vários assassínios espectaculares e o anarquista terrorista ficcionado por autores de renome (Zola, Abel Botelho, Henry James, Conrad, Chesterton) ampliaram o mito. As experiências de poder dos anarquistas terminaram da pior maneira, como em Espanha nos anos 30. Dividido ontem como hoje em inúmeras tendências que seria fastidioso enumerar e descrever (houve até um grupo que colaborou com Alan Greenspan na Reserva Federal dos EUA), o anarquismo perdeu de vista a tomada do poder e optou por formas de intervenção na sociedade – que reconhece mais democrática do que antes – no sentido de conseguir alterar realidades de acordo com os seus ideias. A ecologia é nisso um campo privilegiado e corresponde a uma tradição histórica com mais de um século. Algumas “acções directas” estão ligadas à violência, como os ataques em Seattle e noutras cimeiras dos mais industrializados. Mas há também uma preocupação em evitar a violência física mesmo quando há desobediência civil. Foi também o que disseram os libertários após a acção de Silves.
 
A falta de organização permanente dos anarquistas é histórica, pois esta corrente político-filosófica realça o individualismo. Todavia, nos últimos tempos alguns libertários portugueses na Internet têm defendido a organização. Não é fácil pretender-se ao mesmo tempo organização e ausência de «estruturas revolucionárias», como se pode ler em http://luta-social.blogspot.com. Gualter Batista disse a Kathleen Gomes (Público, 25. 08) que no VE «não há uma hierarquia de decisão» e em várias entrevistas desprezou os partidos. Na minha interpretação, o BE nada teve a ver com a iniciativa em termos organizacionais, mas simpatizou politicamente com a acção. Para os libertários, o por dos esquemas partidários é o da estrutura vertical leninista, como a do PCP. É certo que no conseguimento de objectivos próprios, Lenine foi muito mais eficaz do que os anarquistas. Inventou o partido de vanguarda: com uma minoria minoritária de minoritários, tomou o Palácio de Inverno em 1917 e foi o que se viu até aos anos 90. Mas, para os anarquistas, o totalitarismo soviético e o partido leninista são as duas faces da mesma moeda.
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.
 
 

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (I)

por josé simões, em 08.01.08

 

Seiscentos aldeãos encapuzados com máscaras negras entram em Valpaços em silêncio, sem um grito nem um viva, atravessam a vila até à repartição de Finanças. Um grupo arromba a porta, a buscar os livros das matrizes e toda a papelada oficial. Trazido tudo para a rua, aí foi banhado em petróleo e consumido pelo fogo. Assim como chegaram, partiram.
 
Aconteceu em Maio de 1909 e lembrei-me do episódio aquando do assalto ao campo de milho transgénico em Silves em Agosto de 2007. Ambos os casos estão marcados pelo tipo de intervenção política dos anarquistas. A minha fonte para o assalto à Fazenda de Valpaços foi João Campos Lima (1887 – 1956), um importante intelectual anarquista português, quase esquecido, como quase todos.
 
Os camponeses não sabiam ler nem escrever, mas a organização do evento foi, para Campos Lima, perfeita: encapuzados, nem mesmo se reconheceriam entre si; surpreenderam; cumpriram os objectivos; não foram capturados. «Esses lapónios que entraram em Valpaços e atacaram a Fazenda Nacional não têm nome nenhum, não são ninguém. Não pertencem a um partido nem têm credo político.» E acrescentava: «Só os levantamentos populares é que são organizados com perfeição, exactamente porque não requerem um longo preparo e nascem espontaneamente da massa, sem discursos e sem sugestionadores.»
 
O tipo de discurso é muito semelhante ao que envolveu o Verde Eufémia (VE). Não teve organização. O grupo apresentou-se como “informal” e formado dois dias antes, julgo que no acampamento da Ecotopia em Aljezur. O nome foi inventado para a ocasião. Logo depois, o VE extinguiu-se. Não teve líderes. Como escrevia Campos Lima em 1909, «os chefes dispensam-se por inúteis». Teve apenas um porta-voz, necessidade imposta pela implicação dos media. A acção do VE foi organizada, como o assalto a Valpaços, mas não implica uma organização do tipo partidário, a que quase sempre e quase todos os anarquistas têm sido avessos. Nos comunicados do VE e nas declarações do porta-voz, Gualter Batista, reconheceu-se o discurso dos libertários ou anarquistas.
 
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na Atlântico de Janeiro.