"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Os comentários e as publicações nas redes são exactamente as mesmas de quando o Sadiq Khan ganhou a câmara de Londres, vírgulas e tudo, só mudou o nome e a latitude do vencedor. Até os bueiros de onde saem são os mesmos.
Há dois tipos profundamente chateados com as vitórias de Sadiq Khan em Londres e Zohran Mamdani em Nova Iorque: a direita e os fundamentalistas islâmicos. Vitórias que estragam a narrativa aos irmãos gémeos que se alimentam um ao outro pelo ódio.
Continua a ladainha das eleições ganhas ao centro quando temos os resultados do "centrista" partido da taberna, os resultados do PSD, com a agenda do "centrista" partido da taberna, de Moedas em Lisboa e Duarte no Porto, aliados a esse partido centrista que é o Ilusão Liberal, que uma das razões para a derrota da Leitão em Lisboa foi estar aliada aos "radicais" do Bloco e do Tavares [!], e se têm incluído os comunistas o descalabro ainda era maior, porque o "centro" só funciona para um lado.
Carlos Rodrigues, director do Correio da Manha, chega ao ponto de falar em "partidos da velha esquerda" e em "maioria sociológica de direita". Errado. É maioria psicológica de direita, que vivemos na era das percepções, sempre nova, sempre jovem, ainda que a cheirar a bafio e naftalina dos armários de Santa Comba e dos rapazes de Chicago no Chile de Pinochet, agora recauchutada de pop star com moto-serra.
A câmara de Lisboa, PS, partilha dados dos organizadores da manif contra invasão russa da Ucrânia, é o fim do mundo, a direita toda em cima do Medina e do PS, aberturas de telejornais, constitucionalistas, professores de direito, debates, rios de tinta nos jornais, uma macacada nunca vista. A câmara de Faro, PSD/ CDS + uns trafulhas avulso, partilha dados dos organizadores da manif pró Palestina. A TSF falou qualquer coisa, o Rodrigues dos Santos deu conta disso a seguir ao intervalo do telejornal da noite, umas notas em rodapé na televisão do militante n.º 1. Nem constitucionalistas, nem stores de direito, nem comentadeiros, nem Comissão Nacional de Protecção de Dados. Nada.
Nayib Bukele, um dos ídolos da direita radical e dos ilusionistas liberais, arranjou maneira de se eternizar no poder, tal e qual Nicolás Maduro, um dos ódios de estimação da direita radical e dos ilusionistas liberais. E ainda há quem diga que a Terra não é redonda.
São os professores de democracia, sempre prontos a dar lições aos outros, sempre uma superioridade moral em relação à esquerda.
A verdade é que Mário Centeno foi o ministro das Finanças que a direita sempre quis ter, por inépcia, e pela cegueira ideológica que que padece e está sempre a apontar aos outros, não conseguiu nem soube. A história da mudança de cadeira, das Finanças para o Banco de Portugal sem passar pela casa da partida, é conversa para enrolar anjinhos. A mesma direita que antes teve em José Sócrates o chefe democrático que sempre ambicionou, depois veio o que veio e encontrou a desculpa para se descolar. É o ressabiamento.
[Imagem "British prime minister Margaret Thatcher covering her face with her hand at the 1985 Conservative Party Conference"]
Por um lado temos a direita-extrema com a agenda da extrema-direita, que os emigrantes devem ir para a terra deles, que há cá demais para as necessidades, que têm que vir com contrato assinado e com habilitações necessárias; por outro lado temos os patrões, que faltam cem mil - 100 000 - cem mil imigrantes em Portugal para suprir as necessidades, e ainda nem sequer começaram as obras do novo aeroporto, da nova ponte sobre o Tejo, do TGV, tudo assente nas sub empreitadas e sub sub empreitadas, para maximizar lucros e fugir às obrigações fiscais, com a cumplicidade do poder político, e resta saber como se vão identificar os pedreiros, os carpinteiros, os serralheiros, etc, etc, com diploma passado que os habilite a trabalhar na obra.
Por um lado temos o controlo minucioso de fronteiras, por causa dos alegados bandidos que vêm de fora, para se aproveitarem dos subsídios, do Serviço Nacional de Saúde, para as mulheres parirem à pala e ficarem logo a receber abonos, como diz o líder do partido da taberna, e como repetem acéfalamente os que estavam na abstenção e resolveram sair de casa para meterem o país na merda com o seu direito ao voto; por outro lado temos os "investidores" que dizem desistir de Portugal por causa da exagerada burocracia e da caça ao imigrante nas fronteiras.
É a direita no seu labirinto a ganhar eleição atrás de eleição com um discurso em choque com a realidade do país mas ao sabor da bolha.
A direita, cada vez mais extrema, desde o Ronald até ao Donald, com uma passagem pelo Tea Party, assume o poder e o controlo e contagia a Europa, a esquerda não pode encostar à esquerda porque o eleitorado vota ao centro. E encontram idiotas úteis, na liderança de partidos alegadamente de esquerda, dispostos a repetir o mantra.
[A imagem não é IA, é mesmo real. Clicar na imagem]
"Não há espaço para os moderados, só há espaço para o populismo e para o extremismo, de direita e de esquerda" diz Zé Eduardo, um lugar cativo da direita no frente-a-frente na FOX News do PSD no telejornal inventado pelo Mário Crespo, a atirar areia para os olhos dos distraídos... err... a esquecer-se de que foram os alegados moderados que tanto preza que nos trouxeram até aqui.
Ver espécimes que desde os idos do hi5, passando pelas batalhas nos blogues e o apogeu como comentadeiros e especialistas televisivos depois de uma passagem pelas redes, professam a globalização selvagem, uma fonte interminável de riqueza e bem estar, os novos amanhãs que cantam, exultarem com a vitória de Trump, que fez toda uma campanha a prometer acabar com a globalização. O mérito de ser milionário herdeiro de milionário que fez toda a fortuna na sombra do Estado e que agora promete acabar com o pouco Estado que resta. Porque Trump falou às pessoas, porque Trump se aproximou da classe operária, porque Trump soube ler a alma do povo americano, porque Trump refundou a direita e o conservadorismo [glup], por causa do wookismo, uma quantidade de justificações filosóficas e políticas para a vitória de um cadastrado, racista, homofóbico, bully sexual, misógino, mentiroso compulsivo, quando a explicação é mais simples: é a estupidez, estúpido!
Há um partido político que anda a minar o sistema por dentro. E por "sistema" entende-se Estado de direito democrático. Tropa, polícias e agora bombeiros. Na fase embrionária e ascensão era o PS poder e não quis saber. Agora é o PSD poder e cala. E cala porque lhe interessa. Incorpora as bandeiras no discurso com vista a capitalizar nas urnas. No meio estamos nós, o povo.
A direita, que mais que não querer eleições tem medo de ir a votos, a propósito de um hipotético chumbo do Orçamento do Estado no Parlamento, paulatinamente vai construindo a narrativa de que ninguém, o pagode, quer ir a votos, e que ninguém, o pagode, percebe que se queira ir para eleições. É como aquelas canções foleiras que passam na rádio e de que ninguém gosta mas que ao fim de tocadas uma vez por hora toda a gente as canta na rua.
Quando os juros elevados serviram para equilibrar as contas públicas e reduzir a divida, para a direita ilusionista liberal era o "ilusionismo socialista", agora que os juros elevados fazem disparar os lucros dos bancos, caladinhos, a esquerda tem ódio ao lucro.
A arte destes artistas consiste em meter os miseráveis e remediados a votarem neles enquanto repudiam outros miseráveis e remediados como eles.
"A dona de casa Emilita é muito esperta e desembaraçada, e gosta de ajudar a mãe.
- Minha mãe: já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.
- Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa."
«Respeitai as autoridades»
"O pai é a autoridade na família. Os filhos são obrigados a ter-lhe amor, respeito e obediência. O professor é a autoridade na escola. Todos os meninos devem obedecer às suas ordens e estar com atenção às suas lições.
É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obedecer às autoridades."
Ano 24 do século XXI e a luta é entre o humanismo e o trogloditismo da direita.
A direita que convive bem com a propaganda dominical de Luís Marques Mendes e Paulo Portas em horário nobre - Velhos de Portugal, mascarada de análise isenta e desinteressada, é a mesma direita que ficou em estado de alerta com os Jovens de Portugal nas redes e no tubo, pela desmontagem da propaganda da direita, com recurso à memória do que foi a anterior governação da velha direita, agora regressada e apresentada como nova. Uns estarão a incorrer em várias infracções, os outros não estão a incorrer em infracções nenhumas e ainda são pagos para isso.
[Na imagem a cerimónia tomada de posse de Carlos Moedas como presidente da câmara na Praça do Município em Lisboa]
Com o país a crescer acima de média da União Europeia, a Segurança Social com um excedente de 5,46 mil milhões de euros, a dívida pública abaixo dos três dígitos - 98,7%, Portugal como o sétimo país mais seguro do mundo, o partido da taberna vai passar a campanha eleitoral a berrar nas ruas "Isto é monhés por todo o lado! Alguns até rezam virados para Meca!", "Um gajo quer sair à rua e não pode que é logo assaltado!", e o irmão gémeo Ilusão Liberal a martelar contra a carga fiscal, a AD - Anedota de Direita, contra o "gonçalvismo" que nos esbulha com impostos, coadjuvados pelos ex líderes partidários, agora comentadores "independentes", nas noites de domingo da televisão do militante n.º 1 e na CNN Portugal, mentira azar, a "carga fiscal foi de 38% em Portugal em 2022, abaixo da média europeia". Daqui até 10 de Março vai ser terrível com os "Goebbels" de pacotilha nas televisões.