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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

“E os ladrões?”

por josé simões, em 26.06.07

Foram revelados os resultados do estudo Carga e Custos da Doença Atribuível ao Tabagismo em Portugal. Das duas vertentes trabalhadas pelo estudo: vidas humanas e custos, e partindo do princípio que cada um é livre de fazer com a sua vida o que muito bem entender, vamos à outra; aos euros. Diz o estudo que o tabaco, em 2005, foi responsável por 126 milhões de euros gastos em internamentos hospitalares; mais de 308 milhões de euros em medicamentos e consultas; e, a cereja em cima do bolo: se os fumadores tivessem cessado consumo, tinham-se arrecadado 64 milhões de euros em internamentos e 80 milhões de euros em cuidados ambulatórios.

Podíamos questionar a inocência da divulgação dos resultados do estudo em vésperas do Parlamento votar a nova lei do tabaco, mas não vou por aí. Noutro país, como os Estados Unidos, Inglaterra ou Holanda isto seria uma poderosa arma para o lobby antitabagista; mas como em Portugal ainda estamos na pré-história desta actividade, e da maneira como e quando os resultados do estudo foram apresentados, não passa de uma grosseira tentativa de manipulação da opinião pública. Passo a explicar. Este estudo vale mais pelo que não nos diz, do que propriamente pelos resultados à vista de todos.

Este estudo não nos diz quantos milhões de euros o Estado embolsou durante 2005 provenientes dos impostos sobre o tabaco e pagos pelas potenciais vítimas. Este estudo não nos diz quantos euros, provenientes dos impostos arrecadados, o Estado canalizou para o combate e prevenção ao tabagismo. Este estudo não nos diz qual o peso dos impostos sobre o tabaco no Orçamento de Estado. Este estudo não nos diz nada sobre o valor da economia à roda do tabaco; desde o sector primário (agricultores) – que os há muitos em Portugal –, passando pelo secundário (transformação), até ao terciário que, inclui não só a comercialização, mas toda uma miríade de empresas que se movem na orbita do tabaco, desde os publicitários ás farmacêuticas, abarcando inclusive aquelas que fazem do combate ao tabagismo a razão da sua existência e que no íntimo dos íntimos torcem para que as pessoas não deixem de fumar. Em suma, este estudo não nos diz o que é que na realidade tem mais peso na balança do deve e do haver do tabaco. É que quando houver um estudo com esses resultados as revelações não deixaram de ser surpreendentes. Até lá é propaganda de baixo nível.

 

Esta estória dos negócios à roda do tabaco faz-me lembrar o spot do Gato Fedorento: “E os ladrões?”; “Ladrões?!”. “P’ra cima de dez bandidos!..”