"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
E andamos nisto, não há 50 anos, como diz o taberneiro, mas há 40, com uma ajudas do Partido Socialista à festa pelo meio. O taberneiro, que foi crescido, engordado e parido neste meio, para agora aparecer a berrar que isto está tudo podre, omitindo o meio onde se fez "homem".
O Pacote Laboral mostrou, até agora, três ou quatro coisas sobre o Governo e nenhuma é boa. A primeira é a de que o Governo despreza o debate democrático. Não submeteu o tema a sufrágio eleitoral e enfraqueceu a sua legitimidade política. A segunda é a de que a sua noção de negociar significa apenas impor a sua vontade. Com enorme arrogância, tentou encostar a UGT à parede com um simulacro de negociação. A terceira, está na sua confirmada vocação para governar em sintonia com os interesses dos lóbis mais poderosos. É assim com o patronato, com os construtores civis, com os interesses do imobiliário. A quarta está na forma como despreza o trabalho assalariado, tentando convencer-nos da maravilha que será uma vida precária, de salários baixos e mais trabalho, com limitação de direitos de defesa. Por fim, o preconceito político, quando uma greve é diminuída na sua dimensão social e transformada em mera arma de arremesso da oposição de esquerda. Estamos mesmo muito perto da direita mais tacanha de que há memória. Só isso!
O Correio da Manha faz meia primeira página em letras garrafais, *** EXCLUSIVO *** MONTENEGRO ADVOGADO EM NEGÓCIO DE CASINOS, com a foto do dito de braços cruzados e olhar de caso. Lá dentro, Armando Pereira, Director-Geral Editorial Adjunto, assim mesmo, com iniciais maiúsculas, explica que não há mal nenhum nisso, tudo normal nessa ligação contratual. Percebem porque é que Correio da Manha não leva til?
O Correio da Manha faz primeira página com uma alegada sondagem que dá 46,2% a Carlos Moedas contra 27,1% de Alexandra Leitão numa corrida à câmara de Lisboa, e na autarquia do Porto 29% a Manuel Pizarro, numa disputa com Pedro Duarte, que se fica pelos 26%. Lá dentro, Carlos Rodrigues, "director-geral editorial" e alegado jornalista, explica a alegada sondagem - o universo nacional a opinar sobre uma determinada câmara municipal onde só votam os residentes, tipo uma sondagem europeia sobre quem deveria ser o próximo inquilino na Casa Branca em Washington.
A primeira função já foi cumprida - os que lêem as gordas ao balcão do café, a segunda, que é a replicação em todos os telejornais desta "sondagem fidedigna", está em curso. Percebem agora porque é que Correio da Manha não leva til?
No dia em que milhares desciam desde a Alameda até ao Martim Moniz num protesto contra o racismo, a xenofobia, e a instrumentalização política das forças da ordem, a televisão do Correio da Manha, sem til, optou por cobrir uma contra manifestação convocada pelo líder do partido da taberna, contra a imigração e, alegadamente, em solidariedade com as polícias, onde as ramonas da polícia eram em maior número que os contra-manifestantes.
Os votos dos emigrantes valem zero, vamos começar a ouvir os partidos, schnell, schnell, mesmo em coligação, que essa coisa das coligações terminarem no dia a seguir às eleições é coisa que não dá jeito a Marcelo. Até dia 20, o dia em que são apurados os votos que não valem nada, os dos emigrantes, tem de ficar o assunto despachado, schnell, schnell. Os cofres estão cheios àespera de Montenegro. Afinal somos um país rico. Viva!
A alegria do PSD no Twitter e no Instagram com a sondagem do Correio da Manha [sem til] dar Luís Montenegro a ganhar "a todos os "sucessores" de Costa". Estas coisas não se inventam.
No dia a seguir ao início das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril: "Medina nas Finanças. Mulher lidera Defesa. João Costa na Educação". A mulher sem nome, se calhar por serem coisas da tropa, onde há o soldado desconhecido.
André Ventura foi dispensado da televisão do Correio da Manha [sem til] por ter ultrapassado algumas "linhas vermelhas" e porque "as suas posições colocavam em causa direitos previstos na Constituição, como o direito à vida e a igualdade dos cidadãos perante a lei", diz com a maior cara de pau, Octávio Ribeiro, director geral editorial do grupo Cofina, que todos os dias, na imprensa escrita e na televisão, ultrapassa linhas vermelhas e coloca em causa direitos previstos na Constituição, como o direito à vida e a igualdade dos cidadãos perante a lei.
[Na Imagem Lon Chaney, Laugh Clown Laugh, 1928, autor desconhecido]
Nenhuma linha de saúde em nenhum país do mundo está preparada para receber um fluxo de chamadas decorrente de uma pandemia global como a que estamos a viver. Nem nenhum serviço de saúde está preparado para receber um tão elevado número de doentes com uma doença específica, como o que está a acontecer em Itália com a pandemia do novo coronavírus. Nenhuma cadeia de supermercados está preparada para receber num só dia o fluxo de clientes que recebe numa semana e apostado em comprar de uma só vez o que habitualmente compra durante um mês. Assim como é impossível fazer uma chama telefónica ou a ceder ao wi-fi num ponto onde esteja concentrado um elevado número de pessoas de telemóvel na mão, já todos passámos por isso, numa passagem de ano ou num festival de verão. E é do senso comum e nem devia ser passível de discussão e de comparações parvas. E depois há a irresponsabilidade da televisão do Correio da Manha que passa uma manhã agarrada ao telefone para o Saúde 24 para poder dizer no telejornal que o tempo de resposta foi de xis horas, enquanto entupiu ainda mais o sistema e tirou a vez a alguém realmente necessitado. E isto devia dar prisão sumária e cassação da licença de emissão.
[Na imagem "An Iranian man uses a provided toothpick to press an elevator button in an office building in Tehran on March 4, 2020, as a preventative measure against viral transmission", Atta Kenare/ AFP]
"Tenho uma prima que morreu por negligência médica e estou a pensar em ir para a investigação do Correio da Manhã para ver se consigo alguma coisa". Telefonema para o Opinião Pública/ SIC Notícias aos seis dias do mês de Janeiro do Ano da Graça de 2020.