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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Saúde e futebóis

por josé simões, em 14.09.07

 

No mesmo dia em que somos confrontados com a notícia (aqui) que uma administração hospitalar recusou a prescrição de um fármaco a um doente com cancro por motivos puramente economicistas, uma vez que implicava despender entre 2 500 a 3 000 euros/ mês, leio no trissemanário O Setubalense:
 
“A partida de preparação para a temporada 2007/ 08 que decorria anteontem à noite entre o Comércio e Indústria e a Juventude Sarilhense, no Campo da Bela Vista, teve de ser interrompida quando eram passados dez minutos do segundo tempo devido à necessidade de libertar o relvado para que um helicóptero do INEM que transportava um doente em situação de emergência para o Hospital de São Bernardo ali pudesse aterrar. O Comércio e Indústria foi contactado por telefone para facilitar o acesso do «heli» para pouco depois das 21. 00 horas, o que foi prontamente feito, e, entretanto, o jogo não recomeçou. (…)”
 
O insólito, na notícia, não reside na interrupção de um jogo, para a utilização das “quatro linhas”, pela necessidade de atender uma emergência médica; o insólito é que até há alguns anos atrás, o hospital de São Bernardo em Setúbal tinha um heliporto que foi pura e simplesmente riscado do mapa pela administração hospitalar. Talvez para construir nos seus terrenos um pavilhão que aumentasse sua capacidade em camas; ou para construir algum anexo para albergar um laboratório clínico ou um centro de radiologia ou de TAC; ou talvez para dotar o hospital de um novo bloco operatório, perguntam-me vocês. Não! O heliporto foi riscado do mapa para dar lugar a um parque de estacionamento (!). Assim se evita o incómodo aos senhores médicos – doutores, na vox populi – e enfermeiros, de procurar lugar para aparcar a viatura no exterior do hospital…
 
Não será tempo de se tornar a questionar o ministro Correia de Campos pelas opções tomadas, e pelas prioridades definidas – agora pelas administrações dos hospitais –, com a saúde dos portugueses?
 
Post-Scriptum: É para isto que eu pago os meus impostos? Se é – e pelos vistos é mesmo –, há alguma forma de, em vez do meu dinheirinho entrar nos cofres do ministério da Saúde, ir directamente – e como no Monopólio – sem passar pela Casa da Partida, para os cofres dessa Instituição de Utilidade Pública que dá pelo nome de Comércio e Indústria Futebol Clube?

 

 

Alguém que me explique isto, s. f. f.

por josé simões, em 22.06.07

Vejo na televisão o ministro da Saúde, Correia de Campos, vir dizer candidamente que vão estar isentas do pagamento de taxas moderadoras todas as mulheres que resolverem interromper voluntariamente a gravidez. O mesmo ministro que há umas semanas atrás disse que estava em estudo a possibilidade de vir a aplicar taxas moderadoras às crianças com menos de 12 anos, e… às grávidas!

Vamos lá a ver se nos entendemos: eu tenho, por exemplo, uma terrível dor de cabeça, uma terrível dor de estômago, ou sou atacado por uma gripe fortíssima; não estou doente porque me apetece ou porque sim. Dirijo-me ao SADU ou ao Hospital, e, zás! levo com a taxa em cima. Uma mulher engravida e decide trazer o filho ao mundo. Ao longo de 9 meses necessita de regular assistência e acompanhamento médico; toma lá com a taxa! Uma mulher que resolve abortar porque sim; não interessa aqui invocar a justeza ou não justeza da decisão, ou os factores por detrás, que a levaram a tomar tal opção; resolve abortar, e está automaticamente isenta. Alguém que me explique isto, s. f. f. Se é que isto é passível de alguma explicação assente no bom senso.

 

Post-Scriptum: Não sei qual é a ideia que passa pelas cabecinhas dos que fizeram campanha pelo NÃO no referendo ao virem invocar que as recomendações à lei feitas pelo Presidente da República não foram cumpridas. Acaso sabem que no nosso sistema político as recomendações do senhor Presidente não passam mesmo disso; de recomendações que têm tanto valor como a opinião do cidadão comum? Acaso não sabem que o Presidente da República não tem poder para fazer recomendações legislativas ou regulamentares; que esse poder compete ao Governo e à Assembleia da República? O poder que o Presidente tinhapromulgar ou não – foi exercido. Promulgou a Lei. Ponto final parágrafo.

 

Adenda: Houve uma altura em que me convenci de que as ideias deste Governo e deste ministro, para a saúde em Portugal, fossem acabar de vez com o Serviço Nacional de Saúde. Chego agora à conclusão que a ideia deste Governo e deste ministro, para a saúde em Portugal, é não terem ideia nenhuma.

Picar o ponto

por josé simões, em 03.01.07
Correia de Campos, Ministro da Saúde decidiu avançar com a colocação de relógios de ponto nos hospitais. A ideia ao contrário do que tem sido ventilado não é controlar os horários dos médicos, mas disciplinar os serviços hospitalares.
 
Até aqui nada de novo. A grande maioria, senão mesmo todas as empresas do sector privado, trabalham nessa base.
 
Mas os médicos, essa casta superior da sociedade, torce o nariz e, para começar, 19 directores de serviço do Hospital Pedro Hispano de Matosinhos, ameaçam com a demissão caso a medida seja implementada.
 
De que têm então medo os médicos? Para quem trabalha, é responsável e chega a horas, a medida em nada vai afectar, ou vai?
 
A este propósito, Pedro Nunes, Bastonário da Ordem:
 
“Este sistema não vai acrescentar nada ao bom funcionamento dos hospitais. Acabam por ser brinquedos inúteis. Os médicos são contratados não à hora mas para desempenharem um trabalho”.
 
E não só os médicos. Excluindo os “biscateiros”, toda a gente que trabalha e pica o ponto é paga ao mês. Quanto ao nada acrescentar ao bom funcionamento dos hospitais, duvido. Talvez a partir de agora, quem tem uma consulta marcada para as 8 horas da manhã passe efectivamente a tê-la à hora marcada e não uma ou duas horas depois, como é tradição.
E talvez assim, deixemos definitivamente de ouvir falar em horas extraordinárias que não são pagas. O médico passa a chegar a horas e, por consequência, a sair a horas também. Não tem de ficar uma, duas, ou mais horas no hospital, em serviço extraordinário, para compensar as que não trabalhou, por atraso seu e de mais ninguém.
 
Teresa Marçal da Ordem dos Enfermeiros:
 
“A Ordem não tem nada contra este tipo de sistemas”
 
Mas; o infalível mas,
 
“O que pretendemos é que os aparelhos sejam flexíveis, para que um profissional não tenha de interromper a meio o seu trabalho para ter de marcar a hora de saída”.
 
Os aparelhos devem ser flexíveis o suficiente para permitir ao profissional, quando for o caso, dar um salto ao consultório ou à clínica privada, ganhar uns cobres extra (que a vida está má para todos) e, depois voltar e acabar o que tinha começado.
 
Pois!

Abdicação de principios

por josé simões, em 30.10.06

Primeiro foi Jorge Coelho a contestar o encerramento de urgências hospitalares, “se calhar há outros sectores que mais facilmente podem ser desengordurados (…)”. Seguiu-se-lhe António Vitorino na RTP1, dizendo que o défice orçamental não pode ser alcançado através de economias na área da saúde, advertindo para a necessidade de “explicar melhor” a decisão de aumentar as taxas moderadoras; mas mais subtil que Jorge Coelho, finta o adversário e chuta a bola para canto; o Governo “tem de fazer a demonstração da conformidade constitucional” do aumento das taxas moderadoras; e aconselha o Governo a reivindicar que “um serviço universal não é incompatível com o critério de equidade com as responsabilidades de cada um”.

 

Correia de Campos, Ministro da Saúde, agradece a (in)esperada mãozinha e anuncia que vai pedir ao grupo parlamentar do PS que proceda à verificação da constitucionalidade da proposta das taxas moderadoras.

 

Isto não é mais que uma habilidade de transpor para o plano técnico, uma discussão que deveria ser do campo ideológico.

A ver: Sendo o PS um partido que se reclama da área do socialismo democrático, preocupado com a solidariedade e justiça social, ao encaminhar a questão para a possível constitucionalidade ou falta dela, liberta totalmente o acto governativo de qualquer pendor ideológico, e o que deveria ser uma questão de princípios políticos passa a ser uma mera questão tecnocrática, não diferenciando o PS de qualquer outro partido de direita e/ ou de ideologia neo-liberal.

O famoso esbatimento de fronteiras entre esquerda e direita.

 

Existe alguma diferença entre constitucionalidade e justeza de actos governativos.

Não é por ser constitucional que a medida passa a ser justa.

 

Assim, se for declarada a constitucionalidade da medida, o processo é para avançar, e a ideologia é atirada às urtigas.

 

É a versão século XXI, do Partido Socialista que já havia metido o socialismo na gaveta.