"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Independentemente do Jerónimo de Sousa que em Dezembro de 2016 no discurso de arranque do XX Congresso do PCP em Almada afirmava que a União Europeia não é uma democracia ["não se tratar de "maquilhar, refundar ou democratizar" a União Europeia", "a experiência recente demonstra que a UE constitui uma matriz política e ideológica, impossível de ser democratizada, humanizada ou refundada"] ser o mesmo Jerónimo de Sousa que em Março de 2019 a propósito da Coreia do Norte responde à pergunta com a pergunta "O que é a democracia? Primeiro tínhamos de discutir o que é a democracia" para fugir à questão, na chico-espertice da memória curta das pessoas, esquecidas do conceito de democracia definido apenas três anos antes em Almada, o que há aqui a registar é "[...] o nosso projecto de sociedade, [...] tendo em conta a nossa cultura, tendo em conta a nossa história, tendo em conta o nosso povo", os mesmíssimos mui nobres princípios da cultura, da história, do povo, da tradição [Diário de Notícias e Jornal de Notícias em 1953], que levava Salazar a martelar resultados eleitorais, a instituir a censura, a polícia política e a tortura, o chefe de família, quando um burro fala o outro baixa as orelhas, cada macaco no seu galho, o respeitinho é muito bonito, manda quem pode obedece quem deve. E tudo isto da boca de um secretário-geral de um partido que reclama o estatuto de dono do combate ao fascismo e à ditadura é absolutamente maravilhoso. Ou nem por isso.
Já não é o elogio, nem a apologia, nem a saudação, é uma notícia, em forma de notícia, atrás do "Breves", na secção "Internacional", logo a seguir à abertura, feita com um israelita bom.
"We will give the award to President Kim Jong-un because he has been consistent in carrying out the ideals of the great leader, Kim Il Sung, which is to fight imperialism.
O que é que falta a Vladimir Putin para entrar para o Olimpo dos grandes líderes do internacionalismo proletário, da solidariedade entre os povos e da luta contra o imperialismo, com direito a efígie, de perfil, ao lado das outras que o antecederam? Aparentemente só lhe falta absorver Guennadi Ziuganov.
Antes de noticiarem que a Coreia do Norte ficou sem internet por ter chamado a Obama uma coisa que toda a gente, Coreia do Norte e tudo, chamava ao W. Bush, deviam abrir parêntesis e informar também qual a percentagem de norte-coreanos que tem acesso à internet, Com um 'cadinho de esforço até conseguiam publicar o nome dos privilegiados e tudo.
Estas notícias que fazem hoje o pleno da imprensa mundial e que dão conta de que depois das ameaças de retaliação por parte dos amaricanos por causa dos medricas da Sony, cheios de miúfa, a net norte-coreana esteve em baixo durante 9 – nove – 9 longas horas [weeeee!!!], como se as pessoas do lado de fora da Coreia do Norte ficassem muito incomodadas por não poderem visitar os sítios de propaganda do camarada-gordo-num-país-de-magros, ou como se os magros do país do camarada-gordo tivessem sequer acesso à net, livremente, qual pessoa normal, ou até direito a ir rir e chorar ao cinema; como se os danos na imagem e na moral de um lado e do outro fossem comparáveis. Get a life.
«The colossal monument’s Soviet-influenced, Socialist realism style makes sense when you consider that it was built by Mansudae Overseas Projects, a division of North Korea’s government-run propaganda art factory.
Founded in 1959, Mansudae Art Studio employs around 4,000 North Koreans at its Pyongyang headquarters, 1,000 of which are artists handpicked from rigorous national institutions like Pyongyang University. These artists spend their days producing beautifully detailed propaganda, such as portraits of rosy-cheeked farm maidens, paintings of North Korea’s glorious countryside, and One Can Always Lose, a series of 10 paintings depicting North Korea’s 1-0 win over Italy during round one of the 1966 World Cup. All public images of Kim Jong-un, Kim Jong-il, and Kim Il-sung, including the enormous statues in Pyongyang, are the work of Mansudae artists.»
Não fosse a tacanhez de espírito e o sectarismo ideológico e tinham percebido a ironia de um post escrito em 4 minutos, incluindo os 30 segundos para descobrir uma imagem no Google.
Se os sintomas persistirem escrevo outro post a relacionar o título deste com a imagem do outro e os comentários na caixa.
Foi assim com os hippies nos 60s e com as ondas de choque no Portugal, sempre-uns-anos-atrasado-em-relação-ao-que-acontecia-lá-fora, nos 70s pós 25 de Abril, foi assim com as cristas moicano e os arrepiados do punk à "viste o senhorio?", foi assim com os cabelos estilizados e futuristas "Espaço 1999" da new wave, é assim com o cabelinhos à "foda-se" dos betos do CDS, prolongados até à idade da reforma até naqueles que nunca mais se reformam, ler "nunca deixam de andar a saltitar por aí", com excepção dos que vão ficando sem cabelo, era assim nos idos do velho de Santa Comba com quem ousasse ter um dedo mindinho de cabelo por cima da orelha a ser invectivado "vai cortar o cabelo guedelhudo!" nas portas das tabernas. O cabelo sempre foi uma forma de rebeldia e/ ou uma marca identitária e, apesar de o cabelo do camarada Grande Sucessor, filho do camarada Querido Líder, neto do camarada Grande Líder, ser cool e underground, digo eu que nem sou grande fã dos The Smiths, há cabelos e há cabelos e há que cortar veleidades pela raiz e passar o cabelo a ferro como faziam os palhaços Sigue Sigue Sputnik. Eu prefiro fazer coro no pop-samba, com guitarras à la Shadows [que já usavam cabelo à "foda-se" antes de haver CDS e como forma de rebeldia] e com laivos de ye-ye, de José Roberto: "Deixa meu cabelo em paz, Deixa meu cabelo em paz".