"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
O Talude em Loures é terreno privado. A câmara municipal, que não tem autoridade para intervir em casas ao abandono, fechadas há anos, para as recuperar, reabilitar, e meter no mercado por forma a suprir carências habitacionais, [era o "socialismo" e a "Venezuela" e as "Mortáguas" e o "novo PREC" e o caralho , estão lembrados?], é a mesma câmara que, numa blitzkrieg municipal, vai erradicar as barracas de um terreno privado e deixar meia centenas de famílias ao relento. Percebem?
[Na imagem a famosa Casa Okupada ao Bairro Salgado em Setúbal. Foi-o durante 19 anos, em 2019 foi desocupada por ordem judicial, está assim em 2025. Não quero dizer nada com isto, é o que é.]
Horas de directos nos telejornais, de reportagens, de comentários, de painéis de especialistas, que ainda ontem estavam a comentar os drones na Ucrânia e que amanhã, se preciso for, estão a comentar as eleições no Benfica, e nenhum, nem um só, foi capaz de fazer uma pergunta simples a um morador do bairro do Talude Militar em Loures: que vida tinha antes, o que é que aconteceu, que voltas é que a Terra eu ao Sol para ter de ir morar para uma barraca e agora se encontar na pele do personagem da canção do Gabriel, O Pensador, "Eu queria morar numa favela, O meu sonho é morar numa favela"?
Querem saber o que é um pantomineiro? Ouçam as declarações de José Luís Carneiro, secretário-geral do Partido alegadamente Socialista, sobre as demolições em Loures, câmara governada por um também alegadamente socialista. Encheram a cabeça de Pedro Nuno Santos que as eleições se ganhavam ao centro, e Pedro Nuno Santos, contra natura, auto domesticou-se e meteu-se ao centro. Foi o que se viu, o PS a descer, muito, e o "centrista" Chega a subir, muito. Agora, como as eleições se ganham ao centro, elegeram secretário-geral um engomadinho com tanto carisma quanto um molho de nabos, e que aparece barbeadinho, penteadinho, a tentar respirar o ar dos tempos na questão da imigração e dos "pretos que enxameiam o país com barracas", sem tomates para se assumir ou, pior que isso, a ser mesmo o que aparenta ser. Mário Soares, sem conversa de merda, tinha ido ao terreno e tinha chamado o Ventura wannabe de Loures ao Rato.
[Imagem: Setúbal, Barracas no primeiro piso do Forte Militar, Setúbal. Arquivo da Associação de Moradores 1975 [?], do livro "Fartas de Viver na Lama", Jaime Pinho/ Fernanda Gonçalves/ Leonor Taurino, Edições Colibri]
As autárquicas são a 12 de Outubro, há não tanto tempo quanto isso, por estas alturas, tínhamos presidentes de câmaras numa azafama, de chaves na mão, a entregar casas a famílias carenciadas. Hoje temos uma câmara presidida por um alegadamente socialista a fazer gáudio de desalojar famílias sem lhes dar uma solução, e ainda com o desplante de meter uma técnica, uma vereadora, ou o raio que a parta, no telejornal a argumentar que é para bem das crianças, para a sua salubridade, ficarem sem tecto, a viver na rua. Puta que pariu esta nova normalidade, este talude que estamos a construir à nossa volta.
No "Altos e Baixos" do jornal do militante n.º 1 aka Expresso é assim que aparece classificado o taberneiro do PS, no alto, a subir. Não há muito mais para dizer. O vómito. Dois vómitos. De quem vomitou, e de quem comeu e regurgitou.
“A Câmara Municipal de Loures entregou hoje a 82 famílias do Bairro da Torre em Camarate as chaves das suas novas habitações no bairro social da Quinta das Mós situada mesma freguesia.”
“Isto é inadmíssivel! Somos 2 pessoas e dão-nos uma casa só com 1 roupeiro!”, dizia para as câmaras do telejornal, uma cidadã que anteriormente morava numa barraca onde eu não punha o meu cão…
(*) Ditado popular; aqui na versão "Pobre e mal agradecida".