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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Piruns

por josé simões, em 06.02.07

 

 Até há alguns anos atrás, era praticamente impossível entrar em terras de sua Majestade com qualquer tipo de comida que não fosse embalada industrialmente e, mesmo essa, sujeita a apertadíssimo controlo nas fronteiras.

E não me refiro só aos camiões TIR ou a porta contentores; ao comum dos viajantes eram impostas regras apertadíssimas – um amigo meu que visitava familiares imigrantes viu umas deliciosas linguiças de Montemor-o-Novo apreendidas na fronteira inglesa, na entrada do túnel da Mancha.

 

(Em Pas-de-Callais, na aduana inglesa em território francês, é bem visível um enorme placard com os géneros alimentares a que é vedada a entrada.)

 

Também há alguns anos atrás, foi divulgado na imprensa britânica, o resultado de um inquérito efectuado nas escolas da Grã-Bretanha em que, uma percentagem elevadíssima dos inquiridos, defendia a manutenção das restrições à entrada de géneros alimentícios, como defesa contra a propagação de doenças e vírus na ilha e que, segundo as respostas, teriam a sua origem na Europa continental, qual incubadora de todo o género de pragas e doenças.

 

Vem isto a propósito de, também há não muitos anos atrás, se ter assistido ao aparecimento da BSE – não o maravilhoso branco seco José Maria da Fonseca; duas dessas garrafas foram em tempos apreendidas ao dono deste blogue na fronteira inglesa – a vulgarmente conhecida doença das vacas loucas. Onde? – Em terras de Sua Majestade; e daí exportada para o resto do mundo.

 

No domingo, somos atordoados pela notícia que dava conta da descoberta de 160 mil perus numa quinta em Holton – Suffolk, contaminados pelo H5N1 – Gripe da Aves – e respectivo abate. Onde? – Em terras de Sua Majestade; desta vez com a atenuante de o vírus não ter nascido por lá, mas com a agravante de surgir com uma dimensão ao nível do mais subdesenvolvido país asiático; coisa impensável (até ontem) num país com um nível de cuidados de saúde dos mais elevados da Europa e do ocidente.

 

No jornal das 20 h na RTP1, vejo António Esteves Martins (AEM) num directo, a menos de 500 metros das paredes da quinta onde foi detectada a contaminação, quando os limites de segurança estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde são de 10 quilómetros; o mesmo AEM que descontraidamente diz que até há bem pouco era possível ver patos e gansos das quintas vizinhas, a passearem-se por ali…

 

Também pelo microfone do enviado da RTP1 ficámos a saber que os únicos cuidados de saúde preventivos, ministrados aos milhares de trabalhadores da quinta – portugueses ou não – foram comprimidos Tamiflu e, apenas ao que se dispuseram a troco de 30 libras/ hora, participar nas operações de matança das aves e esterilização dos terrenos; nem análises sanguíneas para a despistagem foram feitas!

 

E enquanto todo este brincar com o fogo se desenrola sem aparente preocupação de maior, o que faz a Comissão Europeia? Que medidas concretas são tomadas? Onde pára o comissário da Agricultura? Onde está o comissário para a Saúde?

 

Markos Kyprianou apela aos Estados membros para não avançarem com embargos…

Afinal sempre estamos a tratar com a toda poderosa Inglaterra e malgrado a potencial pandemia para a ilha e para o continente, infelizmente e na balança de Bruxelas, estas coisas não têm o mesmo peso que aplicar sanções às vacas loucas dos Açores, região ultra-periférica dum país da segunda divisão europeia.

 

No calão alentejano quando se quer identificar um “cabeça-no-ar”, um irresponsável ou um vaidoso, utiliza-se a alcunha de Pirum (o mesmo que peru). Termino o post socorrendo-me dessa expressão: Quem é que são os verdadeiros Piruns nesta história?

 

Post-Scriptum: Ficou-se a saber que o Ministério da Saúde português vai enviar um delegado para monitorizar, acompanhar e verificar se as medidas adoptadas pelo Governo inglês são as adequadas.

(A notícia foi dada sem ninguém se rir!)

Sabendo a sobranceria com que os ingleses tratam todas as outras nações – e não só os portugueses – nestas e noutras matérias, é caso para perguntar: Se havia alguém no Ministério da Saúde, merecedor de umas férias pagas em Inglaterra, pelo erário público, não teria sido melhor esperar por uma estação de clima mais ameno?