"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
João Cotrim Figueiredo foi acusado de "assédio sexual", Julio Iglesias também. Num instante trinta mulheres saíram em defesa de João Cotrim Figueiredo, que nunca vivenciaram ou presenciaram comportamentos inadequados, Julio Iglesias, sem se esforçar muito, é capaz de arranjar trinta e uma a dizerem que ele é um bom rapaz. Mas a questão não é essa, a questão é que entre o mulherio que deu a cara por João Cotrim Figueiredo não consta Mariana Leitão, líder da agremiação, nem Carla Castro, antiga vice-presidente da bancada parlamentar. Vale o que vale. "Y te empecé a querer, sin imaginarme qué podía perder".
Antes da "calúnia ao bom nome de uma pessoa decente", da "cabala para decapitar a liderança do Partido Socialista francês", uma "conspiração contra um homem de esquerda", um ror de alarvidades à roda da ideologia, como aconteceu quando o nome de Dominique Strauss-Kahn caiu na boca do mundo e na abertura dos telejornais; antes da "luta por um mundo melhor” e do "neoliberalismo", invocado como defesa de alguém que se considera vitima de 'argumentum ad hominem', não o conseguem destruir pelas ideias é pelo carácter que o querem enlamear, logo com um exército de aios e escudeiros prontos para a luta nas redes, tal e qual como no affair Dominique, que invariavelmente vai desaguar, era para escrever desabar, no vox pop "eles encobrem-se uns aos outros", na academia e na política, ainda para mais quando o lugar na academia tem projecção na política, e quando os casos na academia já são mais que muitos, agora que a grande maioria dos portugueses tomou conhecimento da existência de um Boaventura Sousa Santos não era de equacionar uma 'comissão independente' para apurar a verdade dos factos e a dimensão da coisa, à imagem do que aconteceu com os crimes de abuso sexual na igreja católica?
A Courtney Love, uma cabeça no ar, maria-vai-com-as-outras, que até andou agarrada ao pó e tudo, um mau exemplo para as boas filhas de família, sabia de tudo. Sabia de tudo e até deu pistas, publicamente e em directo.
Já a Oprah Winfrey, uma líder das mulheres do mundo livre, uma fazedora de opinião, um exemplo a seguir, uma voz temida pelos poderes instituídos, alguém que conhece este mundo e ainda mais metade do outro, não só não sabia de nada como até foi apanhada de surpresa. Vai daí, vestiu-se de preto, foi ao circo fazer um discurso, e até já está na calha para as presidenciais de 2020.
Nesta história do assédio, a todos os níveis condenável, que rapidamente se vai transformar, à imagem do que aconteceu com a pedofilia e o abuso de menores, numa enxurrada de falsas acusações motivadas por vinganças varias, descredibilizando as verdadeiras vítimas de abuso, inocentando os verdadeiros abusadores, arrastando para a lama o nome e a vida de inocentes e banalizando o tema que, a páginas tantas, passou a entrar por um ouvido da opinião pública a 100 e a sair pelo outro a 200, há um pormenor a reter: aquilo que era um negócio de compra e venda, "o mercado a funcionar" em Hollywood, com contratos implícitos e explícitos, já que, pelo que nos é dado a ver, toda a gente à boca pequena saber o que tinha de vender para comprar o que pretendia, passou, num click, a ser um rebanho de virgens nas mãos de predadores sexuais, que é como quem diz, uma "lavagem da alma", com as virgens putas convertidas em putas virgens, ou vice-versa.