"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
António José Seguro vai ser António José Seguro e pressionar a UGT a assinar uma lei laboral cozinhada na sede dos patrões? A UGT vai ser UGT, cumprir o desígnio para o qual foi criada, e assinar de cruz o que os patrões lhe metem à frente para assinar?
"Não vou falar por tudo e por nada" disse António José Seguro na noite da vitória. Ouvimos todos. Todos menos os jornalistas. Tem sido um festival, uma manada deles atrás do Presidente na vã esperança de uma intriga, de uma velhacaria, de uma marcelice, resumidamente. Vai ser terrível o desmame do vazio marcelista. Depois de ser medalhado "Marcelo agradeceu a paciência dos jornalistas nestes últimos 10 anos". Ler: Marcelo gozou com a cara dos jornalistas até depois do último minuto, já tinha passado a pasta a Seguro. Mas eles gostaram/ gostam de ser gozados e por isso já vamos com a terceira "entrevista exclusiva" ao taberneiro, só nesta semana.
Jornal que não vende, perdão, jornal que escolheu "deixar de ter as vendas auditadas", faz manchete com Augusto Santos Silva excluído de órgão onde nunca teve assento - Conselho de Estado, prontamente replicado e amplificado nas redes por uma horda de contas anónimas e bots, para gáudio dos eleitores do partido da taberna, "xuxalismo", "bandalheira", "mama". Coitados. Mission accomplished junto dos tristes da sociedade. Se o pasquim saísse em papel ainda servia para forrar o balde do lixo.
[Imagem de autor desconhecido]
Quem vai ser excluído do Conselho de Estado é Marques Mendes, que António José Seguro não precisa do moço de recados de Marcelo para nada.
E sim, no que respeita ao partido da taberna podemos comparar os actos eleitorais, é sempre o chefe que aparece em todos os cartazes, de norte a sul e ilhas adjacentes.
E a partir de agora o país vai ter como Presidente da República alguém que, sem ninguém dar por isso, visitou Leiria no dia imediatamente a seguir à passagem da depressão Kristin para ver in loco os estragos e falar com o poder autárquico, e outrem, primeiro-ministro que,´ para se inteirar do nível das águas visitou Peso da Régua de surpresa, com um batalhão de rádios e televisões à espera.
A derrota do taberneiro foi anunciada ainda faltava uma hora para o fecho das urnas: diminuição da abstenção num país a ressacar de sucessivas depressões, tornados, cheias, temporais, intempéries, sem electricidade, saneamento básico, internet, depois de ter passado uma semana a pedir o adiamento das eleições por causa das depressões, tornados, cheias, temporais, intempéries, falta electricidade, de saneamento básico, de internet.
O circo da falta de respeito: o taberneiro fala para as televisões antes da missa na porta da igreja, o taberneiro fala para as televisões depois da missa na porta da igreja. O taberneiro vai à missa, papa a hóstia, reza o Pai Nosso e a Avé Maria, sai limpo para mais uma enxurrada de mentiras e de vomitar ódios. É para isto que serve a religião.
Era a vitória do povo contras as elites, atendendo às percentagens e ao número de votos parece que somos um povo de elites. Era a vitória do povo contra o socialismo atendendo às percentagens e ao número de votos parece que somos um povo de socialistas. Era a vitória da direita contra o socialismo, mesmo que toda a direita tenha apelado ao voto contra o taberneiro, mesmo que todo o povo de direita tenha votado contra o taberneiro mais que a favor de Seguro. Ainda assim o taberneiro aparece a reclamar o título de líder da direita, na porta da igreja.
Montenegro, o segundo derrotado da noite, derrotado pela segunda vez num mês, derrotado na primeira volta depois do apoio a Marques Mendes, derrotado na segunda agora por falta de comparência, aproveita o momento de endossar cumprimentos ao novo Presidente eleito para arengar uma espécie de programa de Governo e um projecto de intenções. Falta de nível.
O taberneiro, que era suposto ter uma entrada triunfal pela porta da frente do hotel, fintou os jornalistas e entrou pela porta dos fundos, para um piso inferior, de onde só saiu terminado o jogo do Benfica, falta de respeito, para repetir a arenga ensaiada na porta da igreja. Acabou a mentir, a reclamar mais votos que a AD nas legislativas. Tinha papado a hóstia, rezado o Pai Nosso, é um homem limpo, é a primeira mentira a começar do contador a zeros por indulgência divina.
O debate ficou decidido 15 minutos antes de começar. Seguro chegou, evocou António Chainho, grande vulto da música e da cultura portuguesa, lamentou a morte do alferes dos rangers, manifestou solidariedade com os afectados pelo mau tempo. O taberneiro chegou, falou de Seguro, falou de Seguro, tornou a falar de Seguro, acenou para uma claque de hooligans que tinha na porta, entrou, teve uma entrevista rápida, falou de Seguro, voltou-se para a porta e acenou novamente para os hooligans acampados na entrada.
O taberneiro, eufórico em cima do estrado, no hotel na noite do rescaldo da primeira volta, que a direita não tinha perdido, tinha ganho as eleições, era só fazer contas de somar: ele + o Cotrim + o Mendes e, se calhar, + o almirante = "para o infinito e mais além", que agora é ele o líder da direita, vão ver como elas doem.
Com o passar dos dias António José Seguro vai arrecadando apoios atrás de apoios, vindos da entourage da conta de somar feita de cabeça na cabeça do taberneiro, e afinal o taberneiro já não quer saber daqueles apoios para nada, os mamões dos sistema, quer é o apoio do pagode.
E com o passar dos dias o taberneiro vê António José Seguro líder da direita, sem o pedir. E no próximo rescaldo vamos ver onde, e como, o taberneiro, o artista de variedades, vai encaixar o nicho de apoio do pagode, contra as elites, depois de três semanas a chorar por ele.
O taberneiro falou logo na abertura do telejornal, a seguir às notícias do ICE no Minnesota, "o Seguro, o Seguro aquilo, o Seguro aqueloutro, e outras habituais inanidades"; Seguro, que venceu a primeira volta com larga vantagem sobre o taberneiro, entrou no telejornal aos 45 minutos, a seguir ao futebol e ao andebol. Primeira semana de campanha eleitoral, e estamos a falar do serviço público de televisão.
Domingo, dia 18, António José Seguro vence a primeira volta das Presidenciais. Segunda-feira, dia 19, a RTP entrevista o taberneiro. Terça-feira, dia 20, a televisão do Correio da Manha [sem til], entrevista o taberneiro. Quarta-feira, dia 21, o taberneiro é de novo entrevistado pela RTP. Primeira semana de três em campanha eleitoral. Quanto dá 1143 a dividir por 60?
[ Vídeo mostra como o movimento do neonazi Mário Machado usou os meios do Chega para viajar gratuitamente à manifestação. Num dos autocarros seguia o deputado do Chega Rui Afonso]
Começou o spin nas televisões, disfarçado de "comentário", frente aos pés de microfone, também chamados jornalistas ou pivot de telejornal: António José Seguro tem uma ligação umbilical ao Sócras, o manhoso, o bandido, subentende-se. O taberneiro não tem nada a ver com o PSD e muito menos com Pedro Passos Coelho.
Quatro dias antes das eleições a Intercampus apresentava uma sondagem com o taberneiro a vencer a primeira volta, seguido de Marques Mendes e Cotrim Figueiredo, apresentada na homepage do Sapo pela ex comissária da direita radical no Diário de Notícias.
O taberneiro, que não queria o apoio das elites para nada, queria o apoio do povo e nada mais que o povo, uma hora antes do final da campanha estava em directo no telejornal da RTP1 a dizer que conta com o apoio de Passos Coelho para a segunda volta.
Cotrim ter dito que era homem para votar no taberneiro para depois dizer que não tinha dito o que todos ouvimos dizer, Freud explica, mas isso é areia a mais para a camioneta do pessoal do economez.
António Filipe tem exactamente o mesmo paralapié que o comissário que não é militante tem no Soviete das Bicicletas, outrora um blogue decente das esquerdas várias, e assim vão continuar até à irrelevância total e assaltos a palácios de inverno é coisa que já lá vai.
Todos os candidatos, e respectivas famílias, são escrutinados, mas o taberneiro não tem pai nem mãe e a pastorinha, dona da casa onde dorme, não tem passado nem futuro, não sabe falar nem tem pensamento político.
Marques Mendes, que ganhava dinheiro para dizer merdas semana após semana, sem contraditório, e a desdizer na semana a seguir o que tinha dito na anterior, passou as últimas horas da campanha a criticar quem ficou em silêncio.
Marques Mendes, que ia meter "um jovem" no Conselho de Estado, ler um Bugalho ou um Duarte Marques, apresentou como trunfo eleitoral o pior que o país político já teve, a tralha cavaquista, Cavácuo [não é gralha] incluído.
A RTP abriu a noite do rescaldo eleitoral a dizer que o taberneiro estava na missa. Foi-se confessar das mentiras que disse nas últimas semanas e do ódio que vomitou. A partir de agora começa do zero, é para isto que serve a religião.
Uma das boas notícias da noite foi a de que Marques Mendes - o pior que o 25 de Abril produziu: compadrio, amiguismo, promiscuidade, o interesse privado acima do interesse público, desapareceu. [E quando lá chegares manda saudades que é coisa que cá não deixas].
A questão que agora se coloca é: o que é que vai passar pela cabeça do Cotrim nas próximas semanas?
Entre um democrata e um anti-democrata Marques Mendes não sabe em quem votar. Pequenino até na hora da morte.
Entre um democrata e um anti-democrata Luís Montenegro também não sabe em quem votar. A sua área política perdeu, diz. A sua área política não é a democracia, quer isto dizer. A direita que anda com a boca cheia de Sá Carneiro.
O almirante, que jurou bandeira e a Constituição, diz que ainda é cedo para decidir entre o apoio a um democrata e ficar calado e deixar um saudoso de três Salazares à solta. O almirante afinal é um cabo sonso.
Andaram, alegados social-democratas, centristas, liberais, durante anos a alimentar a imbecilidade do "espaço não socialista", agora a disputa não é entre democratas e anti-democratas, é entre socialistas e não socialistas, a democracia que se foda.
O taberneiro reivindica a liderança da direita com os líderes da direita - Montenegro e liberais calados, de orelhas baixas e rabo entre as pernas. O "pensamento político de Sá Carneiro", dizem, todos os anos no dia da morte do saudoso.
No entanto ganhou o langonha, desculpem o meu inglês, mas fui criado perto das docas, em Setúbal, e na homepage do Sapo, agora gerido pela ex comissária da direita radical no Diário de Notícias, a foto é a do taberneiro a sorrir.
A verdade é que António José Seguro desistia a favor de Luís Marques Mendes, ou Luís Marques Mendes a favor de António José Seguro, tanto faz, até podiam decidir quem desistia a favor de quem por "um-dó-li-tá", e só se estragava uma casa.