"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Para o ano comemoramos os 50 anos da primeira Constituição democrática, aprovada com os votos a favor do PCP, a "ditadura comunista" derrotada no 25 de Novembro de 1995, e com os votos contra do CDS, a "democracia" vitoriosa nesse mesmo mesmo dia. É isto, não é?
25 de Novembro, a data em que os derrotados do 25 de Novembro de 1975 comemoram aquilo que gostavam que o 25 de Novembro tivesse sido. 25 de Novembro my ass.
[Devido ao 25 de Novembro de 1975] foi possível realizar em 25 de abril de 1976 as primeiras eleições livres e democráticas em Portugal, por sufrágio direto e universal, Diário da República, Resolução do Conselho de Ministros n.º 132-A/ 2025.
As primeiras eleições livres e democráticas em Portugal, por sufrágio directo e universal, tiveram lugar precisamente um ano antes, a 25 de Abril de 1975, eleições que elegeram os deputados dos vários partidos à Assembleia Constituinte, que elaborou e aprovou a Constituição, não tendo o 25 de Novembro absolutamente nada a ver com isso.
Um Governo de mentirosos que não hesita em manipular a história a seu bel-prazer para justificar uma narrativa.
[Na imagem o boletim de voto no dia 25 de Abril de 1975]
Veio Nuno Melo invocar "falência moral" que explica "a decadência do debate público" por Luís Paixão Martins ter amplificado uma conta paródia no Xis, checkada como verdadeira por um polígrafo também ele inventado, onde o alegado ministro da Defesa reclamava um dia para a celebração de Salazar, o grande responsável pela "resiliência do povo português", ou coisa assim. O "avençado histórico de certa esquerda" [ler PS], diz, sem se dar conta da razão para tantos milhares terem papado como verdade esta associação Nuno Melo + Salazar, duas vezes ministro de dois governos do avençado mais famoso da história da democracia, dois governos que valorizam as percepções que as pessoas têm da realidade em detrimento da realidade, e sem fazerem a devida pedagogia. Estas coisas nem inventadas.
No dia 25 de Abril de 1974 as ruas de Lisboa estavam entupidas de povo, do dia 25 de Novembro de 1975 estava toda a gente fechada em casa de norte a sul do país.
No dia 26 de Abril de 1974 o Governo era outro e os governantes que não tinham fugido estavam presos, no dia 26 de Novembro de 1975 o Governo era o mesmo e a única diferença que as pessoas notaram no seu dia-a-dia foi deixarem de se ver militares guedelhudos nas ruas.
Para assinalar o 25 de Novembro, esse dia lindo e maravilhoso que segundo a direita foi tão ou mais importante que o 25 de Abril na restituição da liberdade e da democracia ao povo português, a câmara de Lisboa convida José Miguel Júdice, o tal que nos idos do fascismo liderava um bando que considerava Marcello Caetano um perigoso esquerdista enquanto se entretinha a "incendiar Coimbra" e que, derrubada a ditadura, integrou uma organização terrorista ao lado do camarada chegano Pacheco Amorim, para debate moderado pela moderada Helena Matos, que já o 25 de Abril ia alto foi para o alto da Sierra de Estrela, a Maestra tuga, de armas na mão "combater os activistas burgueses, contra-revolucionários, que queriam instaurar um regime democrático em Portugal", agora escriba no online da direita radical, o Observador, palco de alucinados que fazem o Milei argentino parecer um tipo sensato, frente ao Álvaro, que em beleza podia ser militante do PSD mas agora que está no PS deixa-me [ele] estar. "Excelente iniciativa de @Moedas", deixa no Twitter Paulo Pinto Mascarenhas, ex dirigente do malogrado CDS e adjunto de gabinete de Paulo Portas nos idos em que andou a ministeriar pela Defesa e pelo Mar. "Espetáaaaaclooo!", parafraseando "o gordo" do Preço Certo.
Ana Gomes, que entre Abril de 1974 e Janeiro de 1976 estava no MRPP ao lado de Durão Barroso [na imagem] diz no Twitter que "Celebrar o #25Novembro [ocorrido em 1975] é também celebrar o #25Abril. Diz quem, como eu, o viveu activamente. Ao lado do @psocialista de Mário Soares. @padaoesilva [Pedro Adão e Silva] ainda nem gatinharia, mas não devia distorcer a História. Aquele dia não dividiu: de facto uniu todos os que queriam #Democracia."
No dia em que "o comunismo foi dominado e o 25 de Abril finalmente cumprido", segundo a narrativa da direita radical, por tropas que previamente juraram fidelidade à cadeia de comando e ao Presidente da República, general Costa Gomes, suspeito de simpatias pelo PCP. E no dia em que a direita radical conseguir explicar isto sem rococós e realidades alternativas vai ser um grande dia.
Depois de uma aliança com o Chaga para a governação nos Açores, o cartaz da juventude do Chagada JSD para assinalar o 25 de Novembro. Não ter a puta da vergonha na cara é isto.
"Comunismo nunca mais!" uma frase que não posso gritar. Lamento. Nunca vivi sob um regime comunista, não sei o que isso é. Do marcelismo fascista lembro-me, era puto mas lembro-me. Lembro-me de familiares presos e torturados por reivindicarem coisas tão banais como a liberdade de expressão e de associação, lembro-me dos meus pais a ouvirem rádios estrangeiras à socapa, com o som muito baixinho dentro da própria casa. Lembro-me dos homens de plantão 24 sobre 24 horas na porta da rua, semanas seguidas, só porque o pai acompanhou o Vitória de Setúbal na Taça UEFA com o Spartak de Moscovo, "lá está ele", dizia a mãe depois de espreitar por detrás do cortinado. Tinha estado com os russos era comunista merecedor de vigilância, a lógica da PIDE. Lembro-me das cargas da GNR a cavalo no 1.º de Maio na "Ladeira das Fontainhas", a rua das conserveiras em Setúbal. Lembro-me dos tiros disparados contra as varinas vestidas de preto e de tamancos, em dias de greve pelo aumento de 2 tostões, "hoje não vais brincar para a rua", dizia a mãe. Lembro-me da fome e da miséria no Bairro Santos Nicolau do ir ao mar antes da moda do peixe assado no carvão ao preço dos olhos da cara, e lembro-me de ser o único a usar sapatos na turma de filhos de pescadores e de varinas das fábricas, na "escola do Sousa" ao lado do agora Rei do Choco Frito, à época uma taberna de chão de areia, calcetada a caricas de gasosa AUA para traçar tintos goelas abaixo, nas bocas de cigarros Três Vintes, Quentuques [de Kentucky] e Definitivos. Descalço o ano todo quando o Inverno ainda não tinha morrido às mãos das alterações climáticas. Os mais afortunados usavam chinelos de enfiar no dedo, se fosse hoje era bué chic, usavam Havaianas. Lembro-me dos funerais no cemitério da Nossa Senhora da Piedade dos soldados mortos na Guerra Colonial, com as salvas de G3 pelo pelotão formado no meio da rua, trânsito cortado, e as varinas que andavam sempre de luto, o luto eterno porque morria sempre algum familiar e o luto nunca acabava, a chorarem atrás do caixão que ninguém abria. Lembro-me das bolas de futebol caídas no quintal da PIDE, frente onde é hoje a sede do PSD ao Bairro Salgado, do tempo de jogar à bola na rua, tocarmos à campainha "olhe, se faz favor, a bola caiu no quintal" e do PIDE regressar de sorriso de orelha a orelha com a bola rasgada à navalhada na mão "toma lá". O tempo dos filhos da puta. Lembro-me do dia das matrículas, e das carradas de folhas que era preciso entregar, a mãe preencher as minhas e ainda mais algumas de colegas meus que depois eram assinadas "com o dedo" pelas respectivas mães. Lembro-me dos meus amigos que, terminada a 4.ª Classe, foram para o mar com o pai ou ser servente numa qualquer profissão, que sempre era melhor futuro que andar ao sabor das marés. Lembro-me dos rapazes para um lado e raparigas para outro na escola, e lembro-me do padre de Moral e Religião, avesso a Jaroslav Hasek, que distribuía carolada pela turma como se não houvesse amanhã, e que andou depois a distribuir propaganda do CDS. E não me esquecendo disto mas não conseguindo lembrar-me de outras memórias mais dolorosas, por mais que me esforce, é um mecanismo de defesa do cérebro, dizem, reparo que de cada vez que os suadosistas querem desvalorizar a importância do 25 de Abril aparece sempre uma palhaçada qualquer a evocar o 25 de Novembro. Portanto, 25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!
"Sobre a grande novidade de se pedirem comemorações oficiais do #25denovembro Há muitos e muitos anos que o CDS as pede. A memória é que é curta.". Nuno Melo no Twitter
Na próxima legislatura depois a gente fala, Capítulo I.
Mais um ano com a direita radical a celebrar o dia em que o comunista Álvaro Cunhal ordenou aos militantes do PCP que ficassem quietinhos em casa e não se misturassem com os radicais "m-l", futuros militantes do PSD, alguns, de forma a evitar um banho de sangue e o país trucidado por uma guerra civil. O karma é tramado...
Evocação do 25 de Novembro a propósito dos 40 anos da data, e dos 41 anos e dos 42 anos e dos 43 anos e dos 44 anos e dos 45 anos e anos por aí fora, e 27 de Janeiro de todos os anos, dia da morte de S. Jaime, morte morrida de causas naturais na luta contra o comunismo, Santo Condestável da Nação, Beato Jaime de Santa Maria. É a direita tradicionalista e patriótica que temos. A bem da Nação. Tudo pela Nação, nada contra a Nação. Amém.