"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Shakespeare, Cervantes, e Camões, os três autores perceberam bem que em dado momento é possível que figuras enlouquecidas emergidas do campo da psicopatologia assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência. Quando ficarem em causa os fundamentos constitucionais, científicos, éticos, políticos, e os pilares de relação de inteligência homem-máquina entrarem num novo paradigma que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano? Consta que em pleno séc. XVII dez por cento da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui, e nos miscigenámos . O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade, cada um de nós é uma soma, tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro, e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou, filhos do pirata e do que foi roubado, mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas. Um ser humano é um ser de resistência e de combate, é só preciso determinar a causa certa.
Em Lagos, Lídia Jorge, comissária para as comemorações do Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas, num dos mais brilhantes discursos proferidos desde que o Dia da Raça morreu, explica também porque é que a cultura, a educação, o conhecimento, são os primeiros alvos dos fascistas quando tomam o poder. E nem é preciso recuar até à imagem que ilustra o post, vamos só até ali à América, e às universidades e museus sob ataque da administração Trump.
Ser disruptivo no Dia de Portugal era a RTP, televisão pública, em tempos de ódio ao estrangeiro como os que vivemos, abrir o telejornal desde Lagos, como a terra onde chegavam os escravos para serem comerciados no mercado, e não a cidade de onde partiram portugueses para outras demandas na "aventura" dos descobrimentos.
Manifestantes nacionalistas e antifascistas envolveram-se em confrontos junto ao Padrão dos Descobrimentos, "nacionalistas" é a maneira bonita que alguns media arranjaram para referirem os fascistas, e a polícia, para pôr cobro à refrega, escolheu o lombo dos antifa para largas à bastonada. Depois descobriram que a polícia é amiga dos fascist... dos nacionalistas. E até há fotos a circular pelas redes onde se vêm ambos, a polícia e os fascist... nacionalistas, em alegre confraternização, antes e depois da peleja. A seguir vão descobrir que o Partido alegadamente Socialista esteve 8 anos no Governo e não quis acabar com os zeros, com os amigos fardados do senhor Machado, pôr ordem nas polícias.
Com cartaz, foleiro e de mau gosto, que já circula nas manifs desde Março e que na mais mediática e escrutinada de todas desceu a Avenida no 25 de Abril sem ter levantado ondulação quanto mais ondas, a questão é outra: Bush filho e Obama, com um intervalo de 5 anos, foram caricaturados como macacos [é googlar que ainda se encontram por aí], com um o pessoal riu-se bué, com outro foi considerado racismo. António Costa tirou a carta da manga e atingiu o objectivo pretendido, conseguiu isolar o STOP, o sindicato mais mediático e mais inorgânico, menos confiável aos olhos do poder, o que tem feito mais barulho e mais estrago. Podia ter ido pela stora que aos 53 anos acha que os profs atingiram a idade da reforma, fartos de trabalhar, tadinhos, não como os motoristas, empregados de mesa, pedreiros, bancários, médicos, ou outros, de vida descansada e costas direitas, que podem muito bem trabalhar até aos 66 anos, 6 meses e 23 dias. Mas as coisas são o que são.
O índice de normalidade, aceite pela sociedade, que é ter um Presidente da República em Londres a condecorar um enfermeiro tuga com uma ordem honorífica portuguesa por ter tratado um primeiro-ministro inglês. Um povo que não se dá ao respeito não merece ser respeitado.
A partir deste dia, 25 de Abril de 1974, quando o patriotismo foi confinado, deixou de haver o desfile dos mutilados, das viúvas e dos órfãos, das mães carregadas de luto, para receberem uma medalha no Dia da Raça no Terreiro do Paço. O Chicão, que já morreu e não sabe, cheira mal que tresanda.
Ver Marcelo, com ar de sonso e olhar vazio, a falar com três meses de antecedência das comemorações do dia de Portugal, este ano em modo Cavaco Silva no 5 de Outubro, à porta fechada, e ainda a perorar sobre o 10 de Junho de 2021, em como vai falar com o seu sucessor, caso não seja candidato, ou com ele próprio, caso seja reeleito, sem ninguém lhe ter perguntado nada e sem que alguém esteja a ponta de um chavelho minimamente preocupado com isso. Foram quatorze dias de sossego em que quase se ouvia cantar os passarinhos.
Marcelo queria dizer coisas [é mais forte que ele] mas como não podia dizer as coisas que queria dizer industriou o Tavares para dizer o que ele, o Marcelo, não podia. Só que o Tavares padece do mesmo problema do Marcelo, tem de dizer coisas, em vox pop "tem gosto o burro em ouvir o seu zurro", também é mais forte do que ele e além disso é pago para dizer e se não disser é esquecido e deixa de poder dizer, ou passa a dizer anonimamente, o que vai dar no mesmo, e deixa de receber, a tal da meritocracia. E, neste circulo vicioso do Tavares dizer coisas que o Marcelo diz mas que não pode dizer, alguma vez o circuito havia de ser desmontado pela encomendado que saiu melhor. Apanha-se mais depressa um Marcelo, ou um Tavares, para o caso tanto faz, que um coxo.
Há uma coisa que não percebi no discurso do "mérito" do Comissário para o Dia da Raça: João Miguel Tavares acredita genuinamente que chegou onde chegou pelo mérito, que o "amiguismo lisboeta" não teve nem tem nada a ver com isso, ou só nos está a atirar areia para os olhos?