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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Mário Soares on the beach

por josé simões, em 08.01.17

 

Mário Soares Praia do Vau Algarve.jpg

 

 

Uma vez, aí por alturas de Mário Soares eurodeputado, fui passar umas mini-férias da Páscoa a casa de uns amigos na Praia da Rocha, uns dias de sol, frios como o camandro, num Algarve inusitadamente deserto, até de velhos bifes e holandeses, e com o mar chão, como se diz na doca das Fontainhas em Setúbal, flat, como dizem os betos no Guincho. Só para sacudir o pó e tirar as teias de aranha levei o fato e o equipamento de mergulho. Um belo dia saí, ainda escuro e com toda a gente a dormir, meti-me no carro e cheguei à Praia do Vau por volta das seis da manhã, para aproveitar a maré e ver como era ali o fundo do mar. Estava eu na praia a vestir o fato e vejo vir, lá ao fundo, alguém com um cão atrás, a aproximar-se pela espuma da água [cão que posteriormente vim a saber ser um vadio que vivia ali à roda dos restaurantes e bares]. Mais uma melga daquelas que não podem ver um neoprene que não venham fazer perguntas de quem não sabe distinguir um robalo de uma tainha na pedra do mercado, pensei. Estava já equipado e a encher a bóia torpedo quando ouço “bom dia!”, levanto a cabeça e era o Mário Soares, sozinho mais o belo do rafeiro vadio a abanar o rabo. “Bom dia!” respondo eu. “Já aqui tão cedo?”, “é para aproveitar a maré...”. “E o meu amigo não tem medo do frio?” e eu “quem tem medo compra um cão...” e ele “exactamente, mas este não é meu” apontando para o dito “nem lhe sei o nome”. Risos. “E o meu amigo é daqui?”, “não, sou de Setúbal” e ele atalhando “boa terra e terra de boa gente” e eu “às vezes...” risos, e continuando “estou em casa de uns amigos, e tal, venho dar banho ao fato, que aqui não deve haver vivalma debaixo de água desde que começaram aqui a construir casas por tudo o que é encosta e falésia sem respeito nenhum pela natureza e pelo ecossistema e a massificar o turismo” [Mário Soares tem uma casa mesmo ali na rampa de acesso à praia] e ele “é pá... é pá...”, risos de ambos. “O meu amigo vai ver que vai fazer uma bela duma pescaria e eu vou estar aqui à sua espera para a irmos comer ali àquela casa construída na encosta”, disse ele a apontar para a dita e risos de ambos. “Combinado”, remato eu enquanto acabava de calçar as barbatanas. Meto-me à água e não é que numa das zonas mais batidas do país, onde nem as pulgas do mar aparecem, ali à roda das rochas do lado direito da praia, sem sair do pé, no espaço de meia hora apanhei a maior sacada de chocos de toda a minha vida?! Era disparar e armar, disparar e armar, disparar e armar, deixei de apanhar porque era um exagero tanto choco para sete ou oito pessoas dentro de casa lá na Rocha e ainda assim fizemos duas refeições. Quando saí da água o Mário Soares já lá não estava, não chegou a ver e não chegou a comer.

 

Albert's always sincere; he's a sensitive type
His intentions are clear -- he wanna be well liked
Well, if everything is nothing, then are we anything?
Is it better to be better than to be anything?


[Imagem e título do post inspirado na ópera de Phillip Glass]