Em ponto de rebuçado

"Esses malandros do rendimento mínimo", "andam aí de BM", "passam o dia no café e na pastelaria", "andamos a pagar impostos para esses chulos", "os socialistas", "estão a dar cabo disto tudo", "somos um povo de mansos", "se houvesse amanhã eleições ganhavam outra vez", "filhos da puta da função pública", trabalhar não é com eles", "vivem à nossa conta", "quem os ouve falar pensa que são uns mártires", "os socialistas", "aproveitaram-se da covid para meter as pessoas fechadas em casa e fazerem o que bem quiseram", "aquela gaiata armada em ministra", "estão infiltrados em todo o lado", "enchem-se com indemnizações como na TAP e para os professores não há dinheiro", "o socialismo está a enterrar o país". As conversas que ouvi enquanto esperava a minha vez no concessionário da marca na ida do carro à revisão. Parecia um concurso, um largava uma bisca e respondiam todos em coro. E continuou até me vir embora. Está mesmo a ficar em ponto de rebuçado.
"Depois há-de receber uma chamada telefónica para aferir da qualidade do atendimento, entre 9 e 10 era bom aqui para a minha avaliação. Continuação de bom dia".
[Imagen de autor desconhecido]