"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
A pergunta que importa fazer é se pagou todas as obrigações fiscais no país, se cumpre escrupulosamente todos os procedimentos legais porque é que leva o dinheiro para uma offshore? O resto é conversa.
Primeiro o aviso de que nem todo o Panama Paper é Panama Paper resultante de esquemas fora-da-lei e de lavagens mas também de esquemas juridicamente perfeitamente legais e de lavagens, que a moralidade não é para aqui chamada.
Depois rios de caracteres, escritos nos jornais do economês e nas redes e na bloga, que está de regresso depois de 4 anos de interregno, pelos ideólogos liberais do “social-democrata, sempre!”, o primeiro-ministro no exílio Pedro Passos Coelho, pedagogicamente a ensinar ao pagode ignaro que planear fiscalmente a fuga ao pagamento de impostos, altos, é uma coisa bué louvável, compreensível e aceitável face ao Estado ladrão, e que a fuga aos impostos, baixos, também, que o Estado, ladrão, só atrapalha o direito do mais forte à liberdade no capitalismo que se quer selva.
Este é só um escritório de advogados, esta é só uma offshore, esta é a primeira de uma das faces, agora conhecida, do "não há dinheiro para nada" e do "andámos demasiado tempo a viver acima das nossas possibilidades", o jargão usado em todo o mundo e em todas as línguas para justificar retirada de direitos e garantias, o embaratecimento dos custos do trabalho, a fragilização das relações laborais, o aumento das desigualdades e os Estados colocados ao serviço de interesses privados.
Nem os bolcheviques sem saber ler nem escrever em 1917 no ministério das finanças russo foram tão incompetentes como o douto partido do contribuinte à frente da Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais portuguesa em 2015.
Mas é exactamente o contrário. A haver uma lista de contribuintes VIP [e se não há devia haver] e nela inscritos todos os nomes de titulares de cargos políticos, sem excepção, devia ser aberta, sem filtros ao escrutinio público, como forma de transparência, responsabilidade e credibilidade.
Ontem o Público dava conta do embuste que é a escolha dos dirigentes do Estado por parte da Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública, segundo o método introduzido por Pedro Passos Coelho em 2012.
As notícias sobre a morte do Partido do Contribuinte eram manifestamente exageradas. Continua vivo e de boa saúde, só não se aconselha, caída que foi a máscara que tapava o V de VIP, entre parentesis à frente do Partido do Contribuinte, resquícios do PREC num partido nascido no PREC, quando a esquerda era m-l, entre parêntesis e não tinha vergonha, nestes tempos de PREC da direita. CDS/ PC (VIP).
A culpa foi do mordomo que prontamente abandonou o cargo. "Mentira e Cobardia" é o lema escrito por detrás dos pins com a bandeira de Portugal que os ministros e secretários de Estado usam na lapela.
Do Estado mau e totalitário, pago com o dinheiro dos cidadãos e a "pesar na economia", para o Estado bom e liberal, ao serviço do privado pago com o dinheiro do contribuinte, opressor do cidadão para benefício de meia dúzia de famílias.
“Mais de 2000 funcionários do fisco na cobrança das portagens”