"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Sabendo do que a casa gasta, que é como quem diz sabendo das divagações na enxurrada palavrosa sem nexo que sai da boca de Pedro Passos Coelho de todas as vezes que se apanha com um microfone à frente, toda a reacção ao acordo do Eurogrupo com a Grécia vinha previamente escrita num papelinho que o primeiro-ministro obedientemente leu mas, mais uma vez, a Lei de Murphy fez prova de vida e confirmou o pior. Assim que o guião acabou e sem o ponto dentro da casinha à frente do palco para o trazer de volta à realidade Pedro Passos Coelho entrou em roda livre. Nem sequer foi Portugal, foi ele, o grande líder, que foi além dele próprio e conseguiu ajudar quem ele julgava e condenava por não querer ser ajudado:
"Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o último problema que estava em aberto, que era justamente a solução quanto à utilização do fundo [de privatizações], partiu de uma ideia que eu próprio sugeri. Quer dizer que até tivemos, por acaso, uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema"
A gente vê nos filmes e, pior do que a gente ver nos filmes, a gente ouve testemunhos de viva-voz de quem passou por elas. Os alemães chegavam e ocupavam, escolhiam as casas, as melhores, os terrenos, as quintas, corriam com os legítimos proprietários dali para fora, quando não passavam a criados de servir dos novos amos, o melhor que lhes podia acontecer. Alguns tiveram a sorte de poder comprar a vida e a liberdade e ficar eternamente gratos ao ocupante, senhor clemente e misericordioso.
A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: O CEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos.»
O problema não é Angela Merkel voltar atrás, dar o dito por não dito na questão grega, para não ficar para a história coma a chanceler alemã que destruiu a Europa pela terceira vez em 100 anos, que a senhora até tem suficiente golpe de rins para o fazer e já percebeu que é precisamente isso que pode acontecer. Não. O problema é Angela Merkl ter de explicar aos cidadãos alemães que o dinheiro dos seus impostos não está a ser usado coisíssima nenhuma para sustentar os malandros dos gregos, antes pelo contrário, e que têm sido vítimas de doses maciças de propaganda como não se via por aquelas paragens desde os idos do chanceler do bigodinho que a antecedeu no cargo.
Agora fazemos como na Irlanda, repetimos o referendo, tantas vezes quantas as necessárias, até os gregos dizerem o que os alemães querem que eles digam.
Sem sequer conseguir uma linha de raciocínio, mínima que seja, sobre a anormalidade que é a normalidade, a nova, como consequência da “velha”, e sem nunca perceber que o objectivo, principal e único, deviam ser as regras de um jogo viciado em favor de um dos participantes.
A arte de deitar vento da boca para fora enrolado em palavras, com laivos de mentiras para que o discurso pareça credível e verosímil.
Andaram anos e anos e anos, pelos menos 50, com a boca cheia de Churchill, que a democracia era o pior de todos os sistemas com execpção de todos os outros para, afinal, a democracia ser o melhor de todos os sistemas com execepção do sistema do Deus mercado. A Europa morreu, viva a Europa!
"Muita gente já esqueceu, e muita outra não valorizou o golpe, mas foi Merkel, com a aquiescência dos parceiros, que em Novembro de 2011 impôs uma mudança de Governo em Itália, tirando Berlusconi, três vezes eleito, e pondo no seu lugar Mario Monti, um homem que nunca tinha ido a votos, e teve de ser feito (num domingo) senador vitalício para ocupar o lugar de primeiro-ministro. Isto aconteceu na Itália, que não é exactamente a República das Maldivas. Foi logo a seguir (cinco dias de intervalo) ao golpe grego, quando Papandreu se viu substituído por Lucas Papademos, que vinha do BCE e também nunca tinha ido a votos. Papandreu tinha cometido a heresia de dizer em voz alta que ia propor um referendo sobre a permanência da Grécia no euro. Em 48 horas estava na rua. No Outono de 2011 andava toda a gente distraída, e não devia, porque foram dois golpes de Estado decididos em Berlim, com a cumplicidade de Sarkozy e o beneplácito da tropa fandanga a que chamamos líderes europeus. A opinião pública internacional assobiou para o lado.
O actual folhetim grego é um remake foleiro. É deprimente ouvir os comentadores a esgrimir números sobre a Grécia, sabendo-se que os números gregos, sensatos ou delirantes, não importa, são a última preocupação de Merkel, Juncker, Dijsselbloem, Lagarde, Draghi, Tusk e parceiros menores. Nenhum deles quer saber de números para nada. Tsipras podia fazer espargata em plena Cimeira e o mais que conseguia era pôr Schäuble a bocejar. A UE não aceita um Governo do Syriza e o overacting de Varoufakis desobrigou toda a gente de boas maneiras."
E eis que chegamos ao ponto em que a responsabilidade e o 'sentido de Estado' estão do lado dos "irresponsáveis esquerdistas" do Syriza. É a Europa que segura a Grécia ou é antes a Grécia quem não quer deixar cair a Europa?