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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

|| Uma questão de “bicos”

por josé simões, em 11.03.10

 

 

 

Ainda que por razão diversa, eu também acho rasca, absurdo e estúpido que uma derrapagem de 1, 655 milhões de euros, saídos directamente – e sem passar pela casa da partida (Monopoly rules) - dos impostos pagos pelos contribuintes portugueses seja motivo de polémica.

 

Tão rasca, tão absurdo e tão estúpido que se Portugal fosse um país a sério nem estes “bicos” se faziam nem a questão se colocava.

 

(Imagem de Gaudenzio Marconi)

 

 

 

|| O idiota útil que dá (o corpo) a cara

por josé simões, em 20.10.09

 

 

 

Martim Moniz ficou para a História de Lisboa e de Portugal como o herói que se sacrificou morrendo entalado no portão do castelo de S. Jorge para impedir que o mesmo fosse fechado e assim possibilitar que D. Afonso Henriques e os Cruzados tomassem a cidade aos mouros. A verdade é outra: é que Martim Moniz era o que ia à frente e foi empurrado pela turba. No PSD e no que toca a coisas das letras em particular e das artes em geral há sempre um Martim Moniz que é empurrado para morrer na aduela do portão. Foi assim com Sousa Lara, o ajudante de Santana Lopes no Governo de Cavaco Silva – também falou em nome individual, e foi assim na Assembleia Municipal de Mafra – o PSD nacional também não teve nada a ver com o caso.

 

(Imagem de autor desconhecido)

 

 

 

|| Esperteza saloia

por josé simões, em 11.07.09

 

 

 

O diagnóstico foi bem feito. Perdemos “a” Esquerda, “à” Esquerda e para “a” Esquerda.

E partindo do mesmo ponto, aliás correctíssimo, que levou Gonçalo Reis a escrever um excelente artigo na defunta Revista Atlântico sobre a boa / má relação Esquerda / Direita com os actores e agentes culturais, deixa-se escapar: «deveríamos ter investido mais em cultura». Não é inocente, nem era suposto ser e nem daí vem algum mal ao mundo.

 

O receituário para “a cura” é que está ao nível da mezinha e não de um especialista formado em Medicina por uma Universidade conceituada. O princípio (válido) é do que há uma identificação entre o povo anónimo e o artista líder de opinião. Vai daí, lê-se na última página do Expresso de hoje: «Sócrates reúne gente da cultura (…) Os músicos António Pinho Vargas, Luís Represas, Rui Veloso e João Gil, as actrizes Inês de Medeiros e Beatriz Batarda (…)” e etc. e etc. e etc. . Só faltam os Xutos & Pontapés, mas esses (afinal não) estão “de castigo” por motivos que me dispenso recordar.

 

“Só grandes músicas!”. Podiam ter convidado o director de programas da RFM que ia dar no mesmo. Isto não é investir na cultura; isto é agarrar o mainstream. Manuel Alegre, por muitos defeitos que possa ter, pelo menos percebeu a diferença ao fazer a escolha do Mandatário para a Juventude na sua candidatura à Presidência. A Cultura nasce na rua antes de ser absorvida e moldada no sistema, e é a verdadeira e única ditadura da minoria sobre a maioria. E direcciona o soprar dos ventos.

 

Assim não “vamos” lá.

Uma dica: para a próxima falem com os programadores de espectáculo da Festa do Avante!.

 

(Na imagem Shwarzenneger at Cannes via Associated Press)

 

 

 

 

A propósito das 1 000 edições do JL que deixei ontem passar sem uma palavrinha

por josé simões, em 29.01.09

 

Eu tenho um problema com o JL; digamos assim, um ódio de estimação. Mais com a forma do que com o conteúdo. Não com a forma física do jornal que até me parece bastante simpática e agradável de ler ao tacto; é daqueles que se pode segurar com ambas as mãos e abrir sem precisar de ter uns braços da largura dos do Cristo-Rei de Almada. Mas a forma como o JL ficou colado a uma determinada fauna num determinado período da vida político-cultural tuga (e agora que penso nisso, ou como eles se colaram ao JL. Adiante). Passo a explicar.

 

Quando o JL sai para as bancas no Ano da Graça de 1981, não havia cão nem gato com uma boina basca no alto da pinha, uma barba mal semeada, óculos à John Lennon, sapatos de camurça bico-de-pato e uma mala de lona verde à tiracolo, daquelas compradas na Feira da Ladra, que não passeasse pela baixa com ele debaixo do sovaco. E depois fumavam SG ventil, só gostavam ouviam música brasileira e discos da ECM, que insistiam em classificar como jazz. Só de me lembrar já me está a apetecer beber uma garrafa de Água das Pedras!

 

É que naquela altura, acabadinhos de sair do Punk e a começar a ressacar com a New Wave, ainda calçávamos botas da tropa, fumávamos SG Filtro com mistura, usávamos o cabelo descoberto e arrepiado, e alguns tinham o mau hábito de ler o Expresso, o jornal dos fassistass.

 

Convenhamos, Cozido à Portuguesa não vai com Galão.

 

Quando não há dinheiro para nada, mas há dinheiro para tudo

por josé simões, em 14.11.07

 

Não há dinheiro, não há palhaço” é um ditado muito antigo. Como não há dinheiro, alguns museus viram-se na contingência de fechar alas por falta de verba para pagar aos vigilantes. Reacção pronta da ministra da Cultura: A culpa é do Instituto dos Museus e da Conservação!
 
Não entrando pelo ridículo que é alguém, para o caso uma ministra, passar as culpas de uma determinada situação para um organismo que depende directamente da sua tutela; vejamos a coisa por outro prisma:
 
# Não há dinheiro, a menos que seja para fazer negócios com a Fundação Berardo.
# Não há dinheiro, a menos que seja para gastar com uma exposição do Hermitage.
 
Não gosto muito – não gosto nada – de misturar estas coisas; até porque são áreas diferentes, diferentes ministérios, mas a experiência diz-me que mais tarde ou mais cedo a situação será extensível a outros ministérios e departamentos do Governo:

# Não há dinheiro, a menos que seja para comprar viaturas topo de gama.
 
E também pode parecer completamente descabido e que não tem nada a ver com nada mas leio hoje na P2 do Público sobre Micas, a herdeira de Salazar e do livro que acaba de lançar: “ (…) que incutia o espírito da “poupança” em casa (a governanta fazia saias com o tecido das velhas calças do então Presidente do Conselho e aproveitava os antigos roupões para fazer vestidos para a criança); que ordenou à criada para fechar a sete chaves todos os pertences do Palácio de São Bento (“entendia que aquilo era do Estado, não devia utilizar-se”); que Maria era “uma pessoa austera” e implacável com as criadas, recrutadas em orfanatos da província (transformou os jardins de São Bento num aviário cuja produção até dava para fornecer as despensas de alguns hotéis de Lisboa)”
 
Não digo para Isabel Pires de Lima aproveitar as calças velhas de Sócrates para fazer umas saias; nem tão pouco para Sócrates fazer “criação” em São Bento que dê para dispensar ao Ritz, nem que vista os seus filhos com restos de tecido de roupão, nem tão pouco que vá recrutar criadagem à Casa Pia… Já quanto ao: (“entendia que aquilo era do Estado, não devia utilizar-se” lembrei-me de Paulo Portas, vá-se lá saber porquê?.. Mas é por causa destas e de outras como estas que depois anda por aí tudo de boca aberta por Velho Botas ter ganho o concurso…
 
(Foto via Mary Evans Picture Library)
 

Um "Viva!" ao fim da Festa

por josé simões, em 27.11.06
Correndo o risco de ser politicamente incorrecto, estou de acordo com o fim da “Festa da Musica”. E nem sequer vou entrar pela questão da subsdio-dependencia tão na agenda politica nacional.
 
Poder-se-iam pedir a Isabel Pires de Lima explicações do porquê, mas sendo a Ministra da Cultura uma das “bête noire” deste governo, por mais claros e honestos que fossem os argumentos, temo que seriam uma espécie de “Sermão aos Peixes” nos ouvidos dos opinion makers do Condado.
 
No entanto algumas pistas foram e são deliberadamente ignoradas.
Em entrevista ao “Expresso” de sábado passado, Isabel Pires de Lima, apesar da decisão de acabar com o evento não ser sua e de sublinhar que o Ministério por si presidido não interferir em questões de programação do CCB, deixa cair: “ (…) um orçamento que não deve ser esgotado em dois terços num período de três dias.”
 
Não está de parabéns António Mega Ferreira, presidente do Conselho de Administração do CCB, pela gestão da entidade. A decisão de acabar com o evento só foi tomada devido ao garrote orçamental, senão continuava tudo na mesma; vivia-se acima das possibilidades, subvertendo a ideia original (à portuguesa) da iniciativa importada de França, que é integralmente financiada por mecenas privados.
 
È caso para dizer, abençoado garrote. Ou recorrendo a uma expressão popular: “Não há dinheiro, não há palhaço!”.
 
Dois terços de um orçamento duma entidade como o CCB, é muito orçamento para gastar num abrir e fechar de olhos de 3 dias.
Passa pela cabeça de alguém a quantidade de eventos de elevadíssima qualidade, possíveis de organizar ao longo de um ano, com 1, 2 milhões de euros de orçamento que foi o custo da edição de 2006 da “Festa da Musica”?
 
 Acho que até deve passar… Mas convém ter em conta que as cabeças por onde passa, são as que acham natural que continuemos a gastar o que não temos; o Estado paga. O Estado Providência elevado ao seu mais alto expoente!
 
Ainda no “Expresso”, a propósito do fim da “Festa da Musica”, Duarte Lima: (…) muito contribuiu para levar a grande música à generalidade do público português “.
Ao menos que tenhamos regressado ao tempo de que Lisboa era Portugal e o resto era paisagem…
 
“À generalidade do público português” ?! 1, 2 milhões de euros?!
Não me recordo de ter havido “Festa da Música” em Setúbal, Évora, Braga, Guarda, etc., etc., etc.
Também não tenho memória de excursões com famílias inteiras que vieram de Bragança, Viana do Castelo, Beja ou Vila Real de Santo António ao CCB para assistir ao evento…
 
No entretanto, o mesmo semanário lança uma cruzada “Vamos salvar a Festa da Musica!” (no melhor pano cai a nódoa…) que consiste em ouvir a opinião de proeminentes personalidades da vida portuguesa (!). Obviamente todos contra o fim da Festa.
Mais interessante seria o Sr. Balsemão começar já, por disponibilizar uns euritos para a festa, dos lucros das suas empresas do ramo da comunicação social, e com esse exemplo tentar converter outros à causa.

Ocupas no Rivoli

por josé simões, em 17.10.06

 Há mais de 24 horas que o Teatro Rivoli se encontra ocupado por manifestantes que contestam a decisão da Câmara Municipal do Porto de ceder a exploração do espaço à iniciativa privada, com o argumento de que os custos, ultrapassam largamento as receitas, o que torna a situação insustentável.

 

Numa leitura atenta ao manifesto (www.juntosnorivoli.com), pode-se constatar que a argumentação dos ocupas é, "(...) a defesa de um Teatro Municipal contemporâneo, de vocação multidisciplinar, aberto à inteligência, motor do conhecimento e criatividade, capaz de ajudar o Porto como cidade cosmopolita (...)".

 

Pergunta inocente, da minha parte: E isso é incompatível com uma gestão privada da coisa?

Resposta, também inocente: É, porque o que aqui está em causa, é o direito de uns quantos auto proclamados criadores, subsidio-dependentes, a usufruírem de um espaço, em principio público para todo o género de representações supostamente culturais.

A Câmara Municipal ou o Estado subsidiam, eles levam à cena, e depois é o normal, meia dúzia de espectadores por apresentação, durante meses ou anos a fio, numa sala duma cidade europeia e cosmopolita.

Ou as pessoas são burras, ou os criadores são uns incompreendidos, porque as salas estão permanentemente às moscas.

 

Não será preciso ir por essa Europa fora para encontrar exemplos,  em que espaços do género, explorados por iniciativa privada, interagem com a comunidade e dão frutos. Nem sequer recorro ao exemplo Lisboa.

No Rivoli existe um excelente restaurante, de exploração privada.

No Rivoli existe um lounge caffé, com dj's e música ao vivo, de exploração privada.

 

Mas o caricato nesta situação é o facto de Isabel Pires de Lima, Ministra da Cultura, se ter oferecido para servir de mediadora entre os ocupas e Rui Rio. A Mesma ministra que tinha declarado guerra, através do IPPAR, a Rui Rio, aquando do caso túnel de Ceuta, em frente ao Museu Nacional Soares dos Reis!

Não quero interpretar, que Isabel Pires de Lima tem Rui Rio como inimigo de estimação, mas parece-me que todas as ocasiões são propicias à ministra para largar umas farpas.

O PS tem mau perder? Ainda não digeriu a derrota autárquica? Se Fernando Assis fosse presidente da Câmara do Porto as atitudes seriam as mesmas, ou já teríamos assistido à intervenção da Policia para repor a ordem pública?

 

Seria bom  a senhora ministra titular da cultura, não esquecer que faz parte de um governo, em que o ministro das Finanças diz preto no branco que é preciso reduzir custos, e fazer mais com menos, exactamente aquilo a que Rui Rio se propõe no Rivoli.

 

P. S. - O que é que o Bloco de Esquerda tem a haver com os rastas-tocadores-de-tambor-ocupas do Rivoli? (pergunta minha, também inocente).