Reféns do passado
Escreve Henrique Raposo:
“O ministro da administração interna serve para quê? Num país decente, num regime decente, Rui Pereira já estava com a carta de demissão na mão. O principal responsável pela morte daquela pessoa é das autoridades, a começar por Rui Pereira. Porque permitiram que os piquetes fora-da-lei actuassem de forma impune durante 3 dias.
E o Presidente anda a fazer o quê? Está à espera do quê para dar um grito? Democracia não é a abolição da autoridade. É a legitimação da autoridade.
Chama-se a isto estar “refém do passado”. Um passado comum que dá pelo nome de “buzinão”. O Presidente, então primeiro-ministro, pela célebre carga policial e pelas imagens que as televisões (à época já no plural) passaram até à exaustão. O actual Governo, à época na oposição, pela participação activa no “buzinão”.
Quando as pessoas não conseguem acertar contas com o (seu) passado, é nisto que dá.
E muito mais que corporativismo ou sindicalismo, salazarismo ou PREC, é à roda desta dualidade e/ ou ambiguidade passado-presente, oposição-governo que as coisas vão girando. E não só nesta situação específica. Para mal dos nossos pecados.
(Foto AFP / Getty Images via Daily Telegraph)