O Quarto Poder
por josé simões, em 24.02.08

Regresso à entrevista a Sócrates. Escolho três exemplos do que foi o comentário geral nos blogues, e depois nos jornais, no pós-pós-entrevista. Não faço uma recolha exaustiva. Restrinjo-me ao Expresso, hoje.
“(…) esperar-se-ia que um chefe de Governo fosse à televisão fazer o trabalho das oposições? (…) quererão que os jornalistas tenham o condão de obrigar Sócrates a dizer o que não pensa e o contrário do que lhe convém?”
Uma Espécie de Cavaco, por Fernando Madrinha.
“Sócrates pode dar-se ao luxo de falar deste modo porque não tem oposição de jeito (e já agora não peçam aos jornalistas que sejam eles a oposição).”
O País Irreal e o ‘Pentium’ de Sócrates, por Henrique Monteiro.
“Segundo parece, a direita entende que cabe aos jornalistas, e não à oposição, fazer o trabalho que a oposição não faz.”
O Estado da Direita, por João Pereira Coutinho.
Não fosse a inclusão de João Pereira Coutinho no rol, e poderíamos estar perante uma reacção corporativa às críticas generalizadas, pela forma como Ricardo Costa & Nicolau Santos conduziram a entrevista. Mas já que vamos por aqui, permitam-me, a mim, que não me considero de direita nem “da oposição”, mas que fui aluno de Jornalismo, que vos diga que, o que eu esperava era ver os jornalistas fazerem o seu trabalho.
Serem, por exemplo e só por exemplo, acutilantes e incisivos nas questões. Que confrontassem o nosso primeiro com questões como por exemplo e só por exemplo, os salários reais; a justiça; as desigualdades; a corrupção e o trafico de influências; a administração central; e não fazerem figura de “ponto” à entrevista. E por aqui me fico.
É pedir muito? É pedir que façam o trabalho da oposição? Antes pelo contrário; é exigir que façam o seu (deles) trabalho. Justifiquem o dinheiro que ganham. Façam jus ao denominado Quarto Poder.
E isto aplica-se não só a Sócrates, como a todos os outros antes de Sócrates, e a todos os que vierem depois.
(Foto de Reginald Coote)