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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Memória do tempo em que as “tribos” não se misturavam

por josé simões, em 14.01.08

 

A propósito da saída se efectuar pela porta dos profs durante o horário de Inverno, veio-me à memória o Zé Miguel; o “Cabeçudo”, para os amigos.
 
Houve uma época em que as entradas e saídas do Liceu se processavam por duas portas, independentemente de se ser ou não ser prof. Uma época em que disciplina era sinónimo de ditadura; onde até nos quartéis os praças almoçavam à mesma mesa com os oficiais. Estamos a falar do período compreendido entre o 25 de Abril de 74 e início dos anos 80.
 
A porta “de baixo”, virada para o Estádio do Bonfim, actualmente encerrada; e a porta principal do Liceu por onde agora entram os profs, e que, à época, era a porta que os chamados bétos usavam como pátio nos intervalos entre as aulas. Aqueles de “boas famílias”; das famílias mais antigas da cidade, com no mínimo 8 nomes no B. I., e para quem, ter de frequentar os mesmos espaços da plebe era inconcebível e doía “com’ò caraças!”
 
Toda a gente, com excepção dos bétos e de quem morava no Bairro do Liceu (mais próximo da porta principal) entrava pela porta “de baixo”. A razão era simples: em manada, lá no “seu pátio”, os bétos eram todos heróis valentões; e vai de mandar bocas e insultar quem entrava pela “porta deles”. E o pessoal não estava para isso, não estava para se chatear, não valia o investimento, or ever, e ia dar a volta até ao outro portão.
 
Com excepção dos bétos e de quem morava no Bairro do Liceu”; e algumas outras raras excepções como aqui o escriba e o Zé MiguelCabeçudo” – e a esse já la vamos!
Eu, por duas razões. A primeira: uma herança que recebi do meu pai; “seja onde for, entras sempre pela porta da frente, dás os bons-dias a toda a gente, mesmo que não fales com as pessoas em questão”. A segunda: um argumento que usava saias, e, ainda hoje não consigo perceber porque é que parava no mesmo pátio que aqueles alarves. Até porque a menina era descendência directa dum símbolo do chamado “reviralho” anti-fascista; um senhor que cantava o hino da revolução: Grândola Vila Morena. Talvez pelo disco riscado do “choque de gerações”; quem sabe?..
 
Apesar de ser por demais óbvio que “andava à caça” no “seu (deles) território”, a mim ninguém mandava bocas. Por uma razão tão velha como a humanidade: “quem tem cu, tem medo”; e tinham medo de meu visual. Tinha mau aspecto, reconheço hoje. E possivelmente metia medo aos engomadinhos, engraxadinhos e penteadinhos. Eu que usava cabelo eriçado “angry young man”, blusão de cabedal preto forrado a pins, calças de ganga rotas nos joelhos e botas da tropa. A barba sempre por fazer.
 
O Zé MiguelCabeçudo”, como o nome indica… era torto e fazia ponto de honra em sê-lo. Fruto daquilo a que na doutrina marxista se chama lumpen proletariado. Antepassados atraídos à cidade na Primavera Marcelista atrás do El Dorado da industrialização da Península de Setúbal e que só haveria de gerar miséria, desenraizamento e exclusão social. Acabavam nos bairros de lata que despontavam como cogumelos em todas as colinas envolventes à Baía do Sado, donde só haveriam de sair depois de Abril de 74 com os programas SAAL e a habitação social. Fosse “noutro tempo” e o Zé Miguel tinha tirado a 4.ª classe e ido para as obras, para o mar numa traineira, ou para as fábricas; na melhor das hipóteses teria ingressado na Escola Industrial e Comercial para tirar um qualquer curso de serralheiro ou canalizador.
Mas o 25 de Abril, a liberdade, os cursos unificados e o ser torto, encaminharam o Zé Miguel para o Liceu; até 74 a escola das “elites” da cidade. Havia de ser Doutor como os outros; os pais dos bétos da porta principal!
O Zé Miguel era torto e militante de um dos grupelhos “m-l” da altura, e que tantos “ilustres” haveria anos mais tarde dar à governação deste país, e que tinha grande implantação nos bairros de lata da cidade, agora convertidos em habitação social: a FEC (m-l), Frente Eleitoral dos Comunistas marxistas-leninistas, que anos mais tarde haveria de se diluir nos PCP (R), Partido Comunista Português Reconstruído. (Aqui)
 
Todos os santos dias do 1.º período de aulas o Zé Miguel entra e sai pela porta principal. Todos os santos dias leva com todo o tipo de bocas em cima. Desde “comuna!”; “porco!”; até ao “pé-descalço!”; onde o “devias era de andar na estiva!” seria a menos ofensiva de todas.
 
Encheu, encheu… e um dia “arrebentou”, como se diz por aqui. “Arrebentou” no início do segundo período. Entra-me no Liceu com o jornal O Grito do Povo debaixo do braço, e pela porta principal como de costume. O que se seguiu era previsível; um béto larga a boca: “oh comuna de merda, presta aí o jornal pra limpar o cu!”. Silêncio no portão… “Queres ler?.. Anda cá buscá-lo!”; e o “inteligente” foi! Quando chegou à distância de um braço do Zé Miguel recebeu com o jornal na cara, projectado com toda a força acumulada nos músculos, por um período inteiro de bocas. Só que o Grito do Povo não ia só; tinha “braço armado”; levava lá dentro uma barra de aço que destruiu a fachada do menino bonito do portão!
 
Naquele dia, o Mesquita Pires – para ele que se acreditava em Deus: Deus tenha a sua alma em descanso – aprendeu numa fracção de segundos, e à custa da cremalheira partida, algumas regras básicas da Democracia e da Civilização, que pelos vistos, e apesar de ser “de boas famílias”, em casa nunca lhe haviam ensinado: A primeira, que é muito feio chamar nomes aos outros; a segunda, que em Democracia, independentemente de não concordarmos com as ideias dos outros, há que saber respeitá-las.
 
Adenda: Para melhor perceber estes anos em Setúbal e casos como o que aqui foi relatado ler: Fartas de Viver na Lama – o 25 de Abril, o Castelo Velho e outros Bairros SAAL do Distrito de Setúbal de Jaime Pinho, Fernanda Gonçalves e Leonor Taurino, Edições Colibri, Abril de 2002, onde o Zé Miguel é uma das personagens retratadas.
 
 
 
 
 
 

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