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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (IV)

por josé simões, em 11.01.08

 

(Continuação)
A organização em rede
 
A greve geral do Porto em 1903 é um caso fascinante do sucesso dos anarquistas e que foi varrido da memória do movimento social do país (por pertencer à história dos vencidos). Essa greve foi uma das maiores e mais longas de sempre em Portugal. Terminou com êxito para os operários. Surpreendeu Governo, polícia, patrões, imprensa e os próprios socialistas moderados, que a ela se opuseram. Os dirigentes – se assim lhes podemos chamar – não apareciam porque, de alguma forma, não existiam: nas negociações com o patronato, mediadas pelo governador civil do Porto, os representantes dos operários têxteis mudavam em cada reunião semanal, o que surpreendia os próprios socialistas. Isso contrasta com os actuais sindicatos ainda de inspiração leninista: Carvalho da Silva é dirigente da CGTP há décadas. Não é o único.
 
Na organização anti-organização dos anarquistas desde o século XIX surpreende o carácter que hoje diríamos pós-moderno: em vez da hierarquia e da rigidez, eles optavam pela estrutura em rede, celebrada hoje como forma ideal de revolta pela multitude sem liderança leninista proposta por Harém e Negro (Multidão, Campo de Letras, 2005). Ao contrário do que pensam muitos crentes da religião Internet, o conceito de rede já se usa há muito. No romance naturalista de 1901 Amanhã, de Abel Botelho (Lello & Irmão, 1982), o dirigente anarquista defende a «rede como «modelo» de «organização» que «funciona… sobranceira e independente às chamadas fórmulas políticas; não obedece a nenhum poder central; não tem parlamentos, nem reis, nem padres, nem fidalgos nem guarda municipal. Governa-se por si… O seu mecanismo é completo, porque a sua solidariedade é perfeita!» este anarquista ficcional passa da teoria à prática, conseguindo «ligar os proletários daqui (de Lisboa Oriental) com os do Oeste e alongar a rede». Duas vezes o romancista compara a «rede» à «teia de aranha». Teia, em inglês web. Com a Internet o modelo revela-se de grande eficácia: os anarquistas mais facilmente prescindem de dirigentes e de organizações firmes, bastando-lhes os sites, os blogues e endereços de e-mail. A rede está feita também para eles. As «acções directas» dos anarquistas correspondem a essas anti-estruturas em rede, sem direcção e com poucos militantes, mas com grande impacto pela surpresa e pelo valor «simbólico».
 
M 1895, um repórter de O Século ouviu o que dizia um anarquista preso num calabouço policial depois do boicote eficaz a uma manifestação ultramontana na Baixa de Lisboa: «Somos ainda poucos mas dispomos de muita força! A sede da nossa associação é nas praças públicas, ao ar livre.» E em 1903 os grevistas reuniam-se na rua.
 
A rede era móvel, e é. O Público trouxe em 29. 08 um interessante artigo de Jorge Pinto que era absolutamente claro a este respeito: «A revolução vai ter lugar noutro nível, na Rede, na Internet». Nem por acaso, o artigo respondia a um outro nesse jornal, de António Vilarigues, do PCP e leninista. Jorge Pinto manifestava-se pela caducidade do modelo organizativo e de acção do leninismo, defendia a supremacia dos sindicatos sobre os partidos (como os anarco-sindicalistas do inicio do século XX) e, tal como o citado libertário preso em 1895, defendia a organização dos «descontentes e espoliados (…) na rua». E, depois de prever a revolução na «Rede», dizia num final apocalíptico, que mereceria explicação: «Mas a luta, talvez pacífica na rua, poderá tornar-se sangrenta noutros locais, onde aqueles que dominam os novos meios podem reagir em nome de um mundo melhor.» Há libertários mais apocalípticos do que outros. A «talvez pacífica» na previsão da futura luta na rua talvez se explique pela atracção mútua entre anarquistas e polícias: em Silves, o VE atraiu a GNR 8e depois o SIS), da mesma forma que a manif na Rua do Carmo atraiu a polícia de intervenção.
 
O secretismo dos anarquistas e libertários, afinal semelhante ao das maçonarias e Opus Dei, é inevitável dado o seu apego à «acção directa» e à «desobediência civil». De certa forma, é uma pena, pois o anarquismo é não só uma ideologia interessante nos seus inúmeros desdobramentos e grande discussão, como tem pontos de vista interessantes que dariam contributos mais positivos ao debate democrático (que eles defendem) se saltassem da obscuridade da web e de encontros semiclandestinos para o espaço público. Porventura os anarquistas receiam deixar de ser anarquistas vindo para o debate democrático aberto. E acharão que mais vale continuar a haver um punhado de apocalípticos do que mais uns quantos integrados. Continuará por isso o jogo do gato e do rato em volta de operações-relâmpago, a surpresa e do esquecimento.
(Fim)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.