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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (III)

por josé simões, em 10.01.08

 

(Continuação)
O VE nasce em 15 de Agosto numa iniciativa de tipo libertário: um acampamento ecológico. A SIC mostrou-o numa reportagem em 18 de Agosto, logo depois do assalto em Silves. Os anarquistas têm iniciativas deste género há largas dezenas de anos. Um romance de Mário Domingues, interessante como fonte de informação sobre o início dos anos 20, descreve a criação, logo falhada, de uma comunidade ecológica na Caparica por um grupo de anarquistas. Em 2007, o Ecotopia em Aljezur está feito para não falhar: só dura uns dias, é uma experiência liminar. Um Vilar de Mouros agrícola sem música eléctrica.
Surpreendeu-me que ninguém nos media tradicionais – salvo erro – tenha visto no Verde Eufémia (VE) uma marca anarquista ou libertária, mas, na verdade, tem sido o anarquismo que se remete ele mesmo para o limbo. A semiclandestinidade não permite uma identificação imediata pela opinião pública e pelos actores do sistema democrático, incluindo os mediáticos.
 
A estrutura ideológica do anarquismo, a ausência de dirigentes, de organização (e de arquivo?) e ainda o apagamento público das suas pessoas e acções passadas ajudam ao esquecimento colectivo do anarquismo e da sua história. Em Portugal, os anarquistas têm momentos de intervenção vitoriosos. O período final da Monarquia e da 1.ª República então marcados pela acção dos anarquistas. Todavia, enquanto partidos como o PS ou o PCP consagraram passados (republicano um, comunista o outro) e mantêm viva a sua memória mesmo quando fracassaram (31 de Janeiro de 1891, 18 de Janeiro de 1934), os anarquistas desaparecem da história. Isso sucede até quando eles vêem as suas acções como vitórias. O VE em Silves é micro-história, mas é um inegável conseguimento dos objectivos a que se propunha. O mesmo se pode dizer das manifestações antiglobalização ou das lutas vitoriosas dos anarco-zapatistas de Chiapas, México (também encapuzados).
 
Houve pelo menos duas acções públicas em 2007 dos anarquistas portugueses ou em que estes participaram: a manif que terminou com repressão policial na rua do Carmo a 25 de Abril e o assalto em Silves. A surpresa é um factor importante das iniciativas. Não resultando de uma organização permanente e gerando-se numa semiclandestinidade, os anarquistas conseguem facilmente surpreender o resto da sociedade.
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.