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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (II)

por josé simões, em 09.01.08

 

(Continuação)
Mediatização, sim, organização vertical, não.
 
A principal diferença entre estes dois eventos separados quase um século é a da grande mediatização do caso de Silves. Ela foi ponderada: os envolvidos explicaram que foi um “risco calculado” para dar visibilidade máxima à acção. Como disse Batista na SIC Notícias, tratou-se de fazer uma acção “simbólica”. A criação de símbolos – que exigem divulgação mediática – e um dos tipos de activismo defendido actualmente pelos libertários internacionais. A invocação de não-violência era necessária a Batista para realçar o carácter simbólico.
 
A linguagem do VE e dos sites libertários sobre o assalto de Silves coincide com a do anarquismo actual: a «acção directa» visou «restabelecer a ordem democrática, moral e ecológica»; a «acção de desobediência civil» foi «acompanhada por um desfile para dar visibilidade à acção, com música, teatro e outras expressões artísticas e políticas». Tudo isto – prática, teoria, linguagem – é próprio dos anarquistas contemporâneos (ver Ruth Kinna, Anarchism, Routledge, 2005).
 
O anarquismo de hoje está longe de corresponder ao tom terrível que a palavra desperta. O anarquismo terrorista nunca foi mais do que uma minoria do movimento entre finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, mas vários assassínios espectaculares e o anarquista terrorista ficcionado por autores de renome (Zola, Abel Botelho, Henry James, Conrad, Chesterton) ampliaram o mito. As experiências de poder dos anarquistas terminaram da pior maneira, como em Espanha nos anos 30. Dividido ontem como hoje em inúmeras tendências que seria fastidioso enumerar e descrever (houve até um grupo que colaborou com Alan Greenspan na Reserva Federal dos EUA), o anarquismo perdeu de vista a tomada do poder e optou por formas de intervenção na sociedade – que reconhece mais democrática do que antes – no sentido de conseguir alterar realidades de acordo com os seus ideias. A ecologia é nisso um campo privilegiado e corresponde a uma tradição histórica com mais de um século. Algumas “acções directas” estão ligadas à violência, como os ataques em Seattle e noutras cimeiras dos mais industrializados. Mas há também uma preocupação em evitar a violência física mesmo quando há desobediência civil. Foi também o que disseram os libertários após a acção de Silves.
 
A falta de organização permanente dos anarquistas é histórica, pois esta corrente político-filosófica realça o individualismo. Todavia, nos últimos tempos alguns libertários portugueses na Internet têm defendido a organização. Não é fácil pretender-se ao mesmo tempo organização e ausência de «estruturas revolucionárias», como se pode ler em http://luta-social.blogspot.com. Gualter Batista disse a Kathleen Gomes (Público, 25. 08) que no VE «não há uma hierarquia de decisão» e em várias entrevistas desprezou os partidos. Na minha interpretação, o BE nada teve a ver com a iniciativa em termos organizacionais, mas simpatizou politicamente com a acção. Para os libertários, o por dos esquemas partidários é o da estrutura vertical leninista, como a do PCP. É certo que no conseguimento de objectivos próprios, Lenine foi muito mais eficaz do que os anarquistas. Inventou o partido de vanguarda: com uma minoria minoritária de minoritários, tomou o Palácio de Inverno em 1917 e foi o que se viu até aos anos 90. Mas, para os anarquistas, o totalitarismo soviético e o partido leninista são as duas faces da mesma moeda.
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na revista Atlântico de Janeiro.